sábado, 2 de julho de 2016

LATIM, PRA QUE TE QUERO?
                                                            Hugo Martins

Logo no início da obra Lucíola, Alencar explica o real significado deste nome próprio, que, por si mesmo, diz tudo da obra, sobretudo quando ele se refere a lampiro (vaga-lume). Parentesco morfossemântico com o nome da personagem? Sim. Em latim a palavra “luz” provém de LUX, LUCIS (a luz, da luz). Há uma infinidade de palavras portuguesas daí provindas: lucilar, Lúcifer, alucinar, lucidez... Lucíola era mulher da noite, semelhante ao lampiro. Bela metáfora para designar a prostituta.
Não é do desconhecimento de ninguém que as prostitutas são reificadas (epa! uma palavra formada do latim) e não hominizadas (epa! outra palavra formada do latim). Para ser redimida, tinha que ser pelo amor, pelo bem-querer desinteressado, o amor pelo amor.
Pois bem. Alencar cria o personagem Paulo, nome que tem tudo a ver com o latim e com as metáforas alencarinas na obra em apreço. O adjetivo latino “paulus, paula, paulum” significa “pequeno”. Não é à toa que Saulo de Tarso trocou o nome depois do episódio da estrada de Damasco.
O tal Paulo vai amar verdadeiramente Lucíola, que se redime, transforma-se, morre para o mundo que lhe apequenava. Paulo era grande: amava Lucíola, simplesmente. Lucíola é sempre luz, antes e depois.
Quando releio Senhora, lembro-me do episódio do apedrejamento da pecadora e tudo que dele deriva, só revelado pelas leituras possíveis.
Latim também revela o estético aparentemente escondido.


POST SCRIPTUM – reificar significa, pelo latim, tornar coisa, coisificar; hominizar, por sua vez, é imprimir ao outro sua maior condição, a de homem...

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