LATIM, PRA QUE TE
QUERO?
Hugo Martins
Logo no início da obra
Lucíola, Alencar explica o real significado deste nome próprio, que, por si
mesmo, diz tudo da obra, sobretudo quando ele se refere a lampiro (vaga-lume).
Parentesco morfossemântico com o nome da personagem? Sim. Em latim a palavra
“luz” provém de LUX, LUCIS (a luz, da luz). Há uma infinidade de palavras
portuguesas daí provindas: lucilar, Lúcifer, alucinar, lucidez... Lucíola era
mulher da noite, semelhante ao lampiro. Bela metáfora para designar a
prostituta.
Não é do desconhecimento
de ninguém que as prostitutas são reificadas (epa! uma palavra formada do
latim) e não hominizadas (epa! outra palavra formada do latim). Para ser
redimida, tinha que ser pelo amor, pelo bem-querer desinteressado, o amor pelo
amor.
Pois bem. Alencar cria o
personagem Paulo, nome que tem tudo a ver com o latim e com as metáforas
alencarinas na obra em apreço. O adjetivo latino “paulus, paula, paulum”
significa “pequeno”. Não é à toa que Saulo de Tarso trocou o nome depois do
episódio da estrada de Damasco.
O tal Paulo vai amar
verdadeiramente Lucíola, que se redime, transforma-se, morre para o mundo que
lhe apequenava. Paulo era grande: amava Lucíola, simplesmente. Lucíola é sempre
luz, antes e depois.
Quando releio Senhora,
lembro-me do episódio do apedrejamento da pecadora e tudo que dele deriva, só
revelado pelas leituras possíveis.
Latim também revela o
estético aparentemente escondido.
POST SCRIPTUM – reificar
significa, pelo latim, tornar coisa, coisificar; hominizar, por sua vez, é
imprimir ao outro sua maior condição, a de homem...
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