ELES ESTÃO
SURDOS
Hugo
Martins
A
fábula é uma narrativa ligeira, curta e vivaz, cujo fecho encerra, explícita ou
implicitamente, uma lição. Possui, pois, natureza pedagógica. Aliás, Jean de la
Fontaine, fabulista francês, seguidor do grego Fedro, cujas histórias nos
chegavam pela pena sensível de Monteiro Lobato, dizia, ironicamente, que
recorria aos animais para educar os homens, como desejando colocar em evidência
as absurdidades e contradições de um ser dotado de inteligência e liberdade de
agir...
Nunca nos fugiram da
memória as saborosas historietas do francês.
Eram formigas, cigarras, asnos, leões, rãs, bois, lobos, cordeiros,
personagens alegóricos que nos povoavam a imaginação sem que nos déssemos conta
de que por trás daquela aparente ingenuidade se escondiam verdades
imorredouras, pois muito diziam da condição humana.
Cada
narrativa tinha um sabor. Se uma punha às claras a necessidade da existência da
arte, em a Formiga e a Cigarra; outra deblaterava contra a vaidade vã de uma rã
pretensiosa, tentando assumir as proporções físicas de um touro, inflando,
inflando, terminando por estourar. O bom de tudo isso é a contemporaneidade de
cada narrativa, pois cada uma delas eterniza em placa de bronze a secular
estupidez humana, sempre lembrada pelo “bruxo do Cosme Velho”.
É
conhecida de todos a fábula do Lobo e do Cordeiro, cujo entrecho mostra o
diálogo tenso entre um lobo e um cordeiro, que matavam a sede à beira de um regato.
Ora, embora o frágil cordeirinho recorresse a um caudal de argumentos
irrefutáveis que convenceria, no contexto, ao mais obtuso dos lobos, este
recorreu ao argumento supremo dos loucos e insensatos: a força e a destruição.
Ora,
não nos parece muito plausível a recorrência a protestos e orações para conter
a insânia de poderosos que se engalfinham em conflitos dantescos, marcados pelo
supremo desrespeito ao ser humano, porque a tudo isso se sobrepõe a sede pelo
poder e pela glória efêmera. Encham as ruas as passeatas, entoando grito de
protestos; ensaiem-se nos meios de comunicação pantomimas, em que rostos
teatralmente indignados de artistas televisivos, deblateram contra o absurdo do
conflito; reze, no Vaticano, sofregamente e grávido de fé Sua Santidade,
pedindo ao Criador que o conflito chegue ao fim, tudo isso é inócuo ante a
verdade incontestável de que CONTRA A
FORÇA NÃO HÁ ARGUMENTO.
Não existe na História registro algum de
que esses anelos humanos tenham impedido que homens ambiciosos e sem escrúpulo
algum hajam sucumbido a esses apelos. Eles sempre estãosurdos. Eis por que os
fabulistas Esopo, Fedro e Jean de La Fontaine continuam tão atuais.
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