VIAGEM
Hugo Martins
Viajei para
Minas Gerais. Precisamente para Ouro Preto, antiga Vila Rica, terra de
inconfidentes, da corrida do ouro, do amor de Dirceu por Marília, terra de
mistérios e fascínios... Não me demorei a contemplar a arquitetura vetusta dos
tempos coloniais, tampouco me esgueirei por becos forrados de pedra tosca...
Não. Apenas atravessei a cidadezinha e, chegando aos seus arredores, alcei-me
ao cume de um outeiro. Era fim de tarde,
hora crepuscular no silêncio cavo, apenas quebrado pelo melancólico badalar dos
sinos, saudando a hora indefinível da chegada das sombras e a retirada da luz.
Ali deixei-me ficar quando, num átimo, alguém se avizinha e, em pinceladas
verbais, apreendendo toda a mágica do momento, vai, pouco a pouco, construindo
a tela. Não puxo conversa, não pergunto seu nome... Apenas observo o pintor,
que, ungido de grande furor criativo, vai revelando uma paisagem que evoca a
morte, num jogo metafórico em que a extrema-unção, caindo como uma cortina, assinala
uma espécie de fim de ato. Logo depois, o firmamento, tal um pálio negro,
ostenta uma miríade de pontos luminosos, pisca-piscando, como a anunciar aquela
apoteose encantatória...
Como o quadro se revela em três cenários menores, vamos apresentar três textos de nossa lavra, acentuando os detalhes
de cada um, salientados pelo poeta e por nós comentados por intermédio de
pequenas digressões.
Aí vai o primeiro.
O OURO FULVO DO OCASO AS VELHAS CASAS
COBRE;
SANGRAM, EM LAIVOS DE OURO, AS MINAS
QUE A AMBIÇÃO
NA TORTURADA ENTRANHA ABRIU DA TERRA
NOBRE:
E CADA CICATRIZ BRILHA COMO UM
BRASÃO.
Contemplemo-lo. Primeiro olhar: a
alma das palavras... o que embuçam... o que elas dizem... o que não dizem...
que revelações fazem do mundo nesse jogo. A seguir, ainda no mesmo olhar:
hierarquia, ordem, conjugação. Em outras palavras: vocabulário e sintaxe. Aí
temos o jogo sintático-semântico, sempre indispensável para a apreensão de
significados, que levará em conta, necessariamente o conhecimento de mundo.
A palavra ouro aparece duas vezes
nesse quarteto e outras três vezes ao longo do soneto. Ora, o título deste é
VILA RICA, hoje OURO PRETO. É o pano de fundo da tela. É aqui que o homem pugna,
sofregamente, por encontrar ouro. Momento em que vem à tona o comportamento torpe,
a ambição desmedida do homem, os jogos sujos, a cupidez aviltante.
Ouro fulvo do ocaso é locução que
pode ser traduzida por hora crepuscular, momento em que o sol se põe. Assim, a
primeira linha do poema assim pode ser lida: o ouro fulvo do ocaso cobre as
velhas casas, Estrutura simples: ele as cobre. Simples... Observar, nos dois
versos seguintes, as palavras: sangram, ambição cicatriz. Sugestivas, não? Na
verdade, transpondo os dois versos referidos para a ordem direta, teremos: as
minas sangram em laivos (pistas, sinais) de ouro; a ambição abriu as minas na
entranha torturada da terra nobre. “Entranha torturada” sugere a insistência e
o afã do homem em cavar e cavar e cavar; a fazer cicatrizes na terra nobre para
encontrar o brilho daquilo que lhe vai satisfazer a cobiça. Assim, o poeta
evoca o cenário da cidade – Vila Rica/Ouro Preto, sendo acobertado pela hora do
ocaso, do crepúsculo, do pôr-do-sol, do arrebol, quatro palavras da mesma área
semântica.
Continua...
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