domingo, 24 de julho de 2016

HISTÓRIA E HISTÓRIAS -  II
                                                    Hugo Martins
                       
            Findos os comentários ao primeiro quarteto do poema LÍNGUA PORTUGUESA, de Bilac, transcrevamos o segundo e continuemos nossa análise...

                        AMO-TE ASSIM, DESCONHECIDA E OBSCURA,
                        TUBA DE ALTO CLANGOR, LIRA SINGELA
                        QUE TENS O TROM E O SILVO DA PROCELA,
                        E O ARROLO DA SAUDADE E DA TERNURA!

            O primeiro verso encerra uma rica declaração de amor sincero. Ao ASSIM, adjungem-se dois sintagmas adjetivais, que podem ser lidos, à luz da gramática normativa como aposto ou, se preferir o leitor, como oração subordinada adverbial concessiva, assim ficando a frase: ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, MESMO QUE EU RECONHEÇA SEJAS TU DESCONHECIDA E OBSCURA, MEU AMOR POR TI CONTINUA O MESMO...
            De fato, a língua portuguesa nasceu ontem. Há notícias de que seu primeiro texto literário foi a tal Cantiga da Ribeirinha, “canção de amigo”, elaborada pelo poeta lusitano Paio Soares de Taveirós e dedicada a uma senhorita que portava o patronímico Ribeiro. Isso no ano de 1189 ou 1198...  Vê-se, pois, que Bilac é coerente ao aplicar aqueles dois adjetivos à língua que, em seu tempo (Bilac morreu em 1918), não tinha a projeção que vem alcançando hoje, inclusive tendo já um dos seus cultores abiscoitado o Prêmio Nobel. Lembremos, também, que, conforme se tem notícia, a língua portuguesa passou a ser obrigatória como idioma oficial, no Brasil, quando o Marquês de Pombal, ainda no século XVIII, expulsou daqui os jesuítas e laicizou o ensino. À época, entre quatro brasileiros, três falavam o tupi-guarani...
A interpretação do Brasil, na pena de Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e, mais tarde, estudiosos do porte de Gylberto Freire, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda e outros, confirma uma não-integração sócio-político-cultural, incluindo o fator linguístico, do homem brasileiro, sobremaneira o homem de algumas regiões (Norte-Nordeste), que de tudo vivia ilhado... Não é à toa que surgiram os problemas atinentes ao cangaço e ao sebastianismo ou beatismo religioso. Não é à toa o aparecimento de Jeca-Tatu, Antônio Conselheiro, Clara dos Anjos, Policarpo Quaresma e, mais tarde, Fabiano, Sinhá Vitória, os personagens amadianos, enfim, os anti-heróis da literatura de 30, tão sofridos e massacrados por injunções políticas de todos conhecidas no devir de nossa triste História.
            Repitamos: Bilac está sendo coerente e provoca largas reflexões (cabem outras)  na relação biunívoca língua e realidade... Nem por isso desconhece, ainda num jogo antitético, as potencialidades de nosso belo idioma, no qual vislumbra não só as possibilidades do exprimir o épico, o grandioso, o maravilhoso, o narrativo e o nós, bem como o emotivo, o que tange a alma, o individual, o sofrido, o lírico, o amoroso, o aparentemente ridículo nos derramamentos sentimentais e doridos dos que sofrem de alguma forma quando se conflitam com as dores do mundo...
            Se os sintagmas “tuba de alto clangor” e “trom e silvo da procela” sugerem o épico, a “lira singela” e o “arrolo da saudade e da ternura” lembram o lirismo.
            A língua portuguesa é pródiga em tudo isso. Como descobrir?  Há uma receita? Sim. Chá de leitura da rica literatura luso-brasileira. Mais justo seria falar em literatura lusófona. Como não tenho conhecimento bastante sobre esta, contento-me em aludir tão-só à primeira.


Voltaremos à análise do restante do soneto...
           
           




Nenhum comentário:

Postar um comentário