HISTÓRIA E HISTÓRIAS - II
Hugo Martins
Findos os
comentários ao primeiro quarteto do poema LÍNGUA PORTUGUESA, de Bilac, transcrevamos
o segundo e continuemos nossa análise...
AMO-TE
ASSIM, DESCONHECIDA E OBSCURA,
TUBA
DE ALTO CLANGOR, LIRA SINGELA
QUE
TENS O TROM E O SILVO DA PROCELA,
E
O ARROLO DA SAUDADE E DA TERNURA!
O primeiro
verso encerra uma rica declaração de amor sincero. Ao ASSIM, adjungem-se dois
sintagmas adjetivais, que podem ser lidos, à luz da gramática normativa como
aposto ou, se preferir o leitor, como oração subordinada adverbial concessiva,
assim ficando a frase: ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, MESMO QUE EU RECONHEÇA SEJAS TU DESCONHECIDA
E OBSCURA, MEU AMOR POR TI CONTINUA O MESMO...
De fato, a
língua portuguesa nasceu ontem. Há notícias de que seu primeiro texto literário
foi a tal Cantiga da Ribeirinha, “canção de amigo”, elaborada pelo poeta lusitano
Paio Soares de Taveirós e dedicada a uma senhorita que portava o patronímico
Ribeiro. Isso no ano de 1189 ou 1198... Vê-se, pois, que Bilac é coerente ao aplicar
aqueles dois adjetivos à língua que, em seu tempo (Bilac morreu em 1918), não
tinha a projeção que vem alcançando hoje, inclusive tendo já um dos seus
cultores abiscoitado o Prêmio Nobel. Lembremos, também, que, conforme se tem
notícia, a língua portuguesa passou a ser obrigatória como idioma oficial, no
Brasil, quando o Marquês de Pombal, ainda no século XVIII, expulsou daqui os
jesuítas e laicizou o ensino. À época, entre quatro brasileiros, três falavam o
tupi-guarani...
A interpretação do Brasil, na pena de
Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e, mais tarde, estudiosos do porte de
Gylberto Freire, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda e outros,
confirma uma não-integração sócio-político-cultural, incluindo o fator
linguístico, do homem brasileiro, sobremaneira o homem de algumas regiões
(Norte-Nordeste), que de tudo vivia ilhado... Não é à toa que surgiram os
problemas atinentes ao cangaço e ao sebastianismo ou beatismo religioso. Não é
à toa o aparecimento de Jeca-Tatu, Antônio Conselheiro, Clara dos Anjos,
Policarpo Quaresma e, mais tarde, Fabiano, Sinhá Vitória, os personagens
amadianos, enfim, os anti-heróis da literatura de 30, tão sofridos e
massacrados por injunções políticas de todos conhecidas no devir de nossa
triste História.
Repitamos:
Bilac está sendo coerente e provoca largas reflexões (cabem outras) na relação biunívoca língua e realidade... Nem
por isso desconhece, ainda num jogo antitético, as potencialidades de nosso
belo idioma, no qual vislumbra não só as possibilidades do exprimir o épico, o
grandioso, o maravilhoso, o narrativo e o nós, bem como o emotivo, o que tange
a alma, o individual, o sofrido, o lírico, o amoroso, o aparentemente ridículo
nos derramamentos sentimentais e doridos dos que sofrem de alguma forma quando
se conflitam com as dores do mundo...
Se os
sintagmas “tuba de alto clangor” e “trom e silvo da procela” sugerem o épico, a
“lira singela” e o “arrolo da saudade e da ternura” lembram o lirismo.
A língua
portuguesa é pródiga em tudo isso. Como descobrir? Há uma receita? Sim. Chá de leitura da rica
literatura luso-brasileira. Mais justo seria falar em literatura lusófona. Como
não tenho conhecimento bastante sobre esta, contento-me em aludir tão-só à
primeira.
Voltaremos à análise do restante do soneto...
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