A
PROPÓSITO DO ENEM
Hugo
Martins
Houve um tempo em
Fortaleza que os exames vestibulares muito privilegiavam o autor de obra
literária na prova de língua portuguesa. Embora o aluno não se obrigasse a ler
este ou aquele livro, era ponto de honra saber quem era o autor do texto, onde
nascera, que outras obras escrevera e que manias cultivava. Isso sem contar com
perguntas absurdas como: qual o olho cego de Camões? O esquerdo ou o direito?
Que doença mais assaltava os poetas românticos? Se o aluno demonstrasse ter
conhecimento “profundo” como, por exemplo, saber de que doença padecia Machado
de Assis, de que este sofria de gagueira ou era mulato, que, por vezes, cobria
a tez com talco para esconder sua negritude, demonstrava ser versado em
literatura. Vivia-se o mal do biografismo ingênuo. Que fazer? Os cursinhos, na
sua eterna faina de amestrar alunos, não deixavam passar nada. Fernando Pessoa
gostava de tomar uns vinhos além da conta, coisa que chocava o burguês, lá se
levava a informação para a sala de aula. A obra do autor não interessava. Monteiro
Lobato foi preso por afrontar o governo Vargas. Lá chegava a informação nas
cabeçorras do alunado. A obra era apenas um detalhe. Para que ler Graciliano
Ramos? Bastava saber que fora preso também pelo governo Vargas e que em um de
seus livros havia uma cachorra famosa... Ler a obra nem pensar. Havia, à época,
professores cuja fama se espalhava graças à sua especialidade em, no dia que
antecedia a prova de língua portuguesa, “acertar” o nome do autor do texto que
cairia na prova. Eram os tais “bizus”, pedagogia cretina e bancária que
considerava os alunos seres passivos e idiotizados. Tais professores eram de
tal modo festejados, que os jornais o colocavam na galeria dos “melhores
professores da cidade”.
Lembra-me o dia em que um
aluno, chegado da prova, corria rumo à casa, um largo sorriso estampado no
rosto, gritando: “acertei o autor, coisa muito fácil. Caiu a Eça de Queiroz,
irmã da Rachel de Queiroz...” Dá pra
agüentar?
Em que eu estava
pensando? Exatamente nisso, nessa coisa de se “aprender” literatura pelo
biografismo inútil. Literatura não se aprende. Come-se. Bebe-se numa orgia
perpétua, longe dos modismos estéreis, dos didatismos cretinóides e da “cultura
de sovaco”, tão falsa quão enganosa.
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