NATAL
Hugo Martins
No
soneto O Desfecho, que abre o volume Ocidentais, Machado de Assis lança mão do
mito de Prometeu e entretece uma metáfora trágica da condição humana no que
esta tem de efêmera, sujeita à irrefutável passagem do tempo.
Qualquer
dicionário de mitologia grega informa que Prometeu, tal o mito hebraico de
Adão, fora castigado por, na sua soberbia (soberba hiperbólica). enfrentar os
deuses. Cometera aquilo que os cristãos chamam de pecado. Por isso, foi acorrentado
num monte, aonde, diariamente vinha uma grande águia devorar-lhe o fígado, que,
logo, logo renascia. Esse suplício, quase interminável, só findou quando Héracles
o libertou definitivamente.
O
leitor percuciente, se bem pensar no que tem de mágico a literatura no seu
interpretar o mundo, logo chega à conclusão de que o devoramento do fígado
aponta para uma significação: o dormir. O renascer da víscera, por outro lado,
significa o acordar. Desse modo, o homem passa boa parte da vida entregue ao
primo da morte, o sono, quando se entrega aos braços de Morfeu; e a outra ,
mergulhado na ilusão fugidia da luz, quando acordado.
A
libertação de Prometeu, por uma perspectiva metafórica, significa a libertação,
o desprender-se das amarras da vida para empreender seu grande salto para a
noite infindável do nada.
O
poeta, no último terceto, anunciando a “libertação” de Prometeu, fecha o poema
assim: “Acabara o suplício e acabara o homem”, isto é, morrer é arrebentar as
correntes dolorosas do viver.
Por
esse ângulo, na cosmovisão machadiana, o Natal dá-se todo dia. Haverá, porém,
em certo dia, num dia certo, que ele deixa de existir. Badalem os sinos,
entoem-se cantilenas choramingas; enviem-se cartões com mensagens
pré-fabricadas, tudo é inútil. Até mesmo o velhinho ridículo de barbaças e
grossos borzeguins perderá seu sentido comercial nos natais em que se visa a
uma coisa: vender torrencialmente e consumir dolorosamente. No mais, cada um
terá seu Natal: é suficiente acordar.
Ho, Ho, Ho, Ho...
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