CADÊ
VOCÊ?
Hugo
Martins
Memofut. Um vídeo. Umas
pernas tortas e um sorriso maroto. Fico parado, analisando, por mais de quatro
minutos, as diabruras que aquele ponteiro-direito fazia com a bola,
infernizando as responsabilidades, nunca cumpridas, de seus marcadores.
Coitados dos “joões”, não poupavam esforços para conter as investidas daquele
rapaz, que parecia jogar futebol sem objetivo pragmático algum, a não ser pelo
prazer de divertir a si próprio e levar diversão ao público. Não que ele fosse
dado a impor humilhações a seus marcadores, pois seus dribles, para frente,
invariavelmente, eram aplicados para um só lado. Todo mundo sabia disso. Mas
ninguém conseguia barrar-lhe a passagem. Depois de “comer” um, dois três,
quatro adversários, chegava ao fim da linha e cruzava a bola para o companheiro
que, na “banheira” ou na “garapa”, como dizemos aqui no Ceará, só fazia alisar
a pelota com o pé ou com a cabeça, numa espécie de carícia persuasiva: “entre,
neném, você me chegou com açúcar e com afeto.” De regra, a “menina” obedecia.
Há jogadas em que ele
deveria passar a bola e recebê-la em profundidade. Mas ele era “fominha”. Mesmo
marcado por três adversários, mesmo vendo seu companheiro de equipe desmarcado,
ele insistia em ficar com a bola nos pés. No olhar do meia Didi, seu
companheiro de Seleção e do time do Botafogo, não havia reprovação, só
concordância e aplauso. Ambos sabiam o que faziam. Didi tinha a certeza de que
Mané chegaria lá. Corre até uma história muito ilustrativa. Na final da Copa da
Suécia, o selecionado brasileiro sofreu o primeiro gol. A cena é antológica:
Didi vai ao fundo das redes, coloca a bola sob o braço direito, caminha em sua cadência
de “príncipe etíope”, acompanhado pelos companheiros, em direção ao centro do
gramado. Dizem que, naquele momento, Didi deu a dica de como virar o resultado:
“jogar a bola para o Mané, ele sabe o que fazer.” Sofreram as consequências os suecos.
Tive o prazer de ver
Garrincha jogando no Maracanã, quando o selecionado brasileiro se preparava
para a Copa da Inglaterra. Já tinha perdido muito de seu “élan” de craque. A
idade já lhe pesava nos ombros, e as noitadas e a bebida alcoólica lhe minavam
as forças. Não era o mesmo das copas anteriores. Aos poucos, experimentou a dor
inevitável do tempo, a sombra do esquecimento e a amargura da decadência. Nada
mais triste que sua presença num desfile num Carnaval do Rio de Janeiro: num
carro alegórico, sentado, erguendo a mão vacilante para cumprimentar a
assistência. Estava como que enfronhado numa atmosfera de medo e decepção. O
rosto inchado acentuava o vazio do olhar e debuxava uma aura de profunda
tristeza na amargura desenhada nos lábios. Homenagem trágica ao maior
ponteiro-direito do futebol mundial. Só Pelé enxergou e deplorou aquele
quadro... Não foi compreendido.
Na canção Balada nº 7, o
compositor pergunta “Cadê, você, cadê, você”. Em seguida, acrescenta: “você
passou”, “o que era doce e o que não era se acabou”. Nesse passo, foi infeliz o
letrista. Mané está no coração de todo aquele que o viu jogar e presenciou a
poesia de seus dribles e a metáfora de sua presença chapliniana. Mané está no
céu dos cristãos, ocupando a ponta-direita do selecionado celeste, tendo por
técnico São Pedro, a cujas determinações não obedece. Assim no céu como na
terra... Se Mané não tivesse nascido Mané Garrincha, seria a metamorfose de um
palhaço alegre que enche de riso e de alegria o coração das crianças e
torcedores. É, por força das tintas com que costuma brincar a eternidade, o
“anjo torto” de Drummond, não aquele que vive nas sombras, mas o que espalhou a
alegria gratuita no jogar futebol. Deixou subliminarmente muitas lições....
Nunca aprendidas.... Hoje, muitas estrelas, pouco brilho, futebol medíocre e
preso à prancheta do treinador... Mané era livre, em todos os sentidos.
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