sábado, 2 de julho de 2016

CADÊ VOCÊ?
                                       Hugo Martins

Memofut. Um vídeo. Umas pernas tortas e um sorriso maroto. Fico parado, analisando, por mais de quatro minutos, as diabruras que aquele ponteiro-direito fazia com a bola, infernizando as responsabilidades, nunca cumpridas, de seus marcadores. Coitados dos “joões”, não poupavam esforços para conter as investidas daquele rapaz, que parecia jogar futebol sem objetivo pragmático algum, a não ser pelo prazer de divertir a si próprio e levar diversão ao público. Não que ele fosse dado a impor humilhações a seus marcadores, pois seus dribles, para frente, invariavelmente, eram aplicados para um só lado. Todo mundo sabia disso. Mas ninguém conseguia barrar-lhe a passagem. Depois de “comer” um, dois três, quatro adversários, chegava ao fim da linha e cruzava a bola para o companheiro que, na “banheira” ou na “garapa”, como dizemos aqui no Ceará, só fazia alisar a pelota com o pé ou com a cabeça, numa espécie de carícia persuasiva: “entre, neném, você me chegou com açúcar e com afeto.” De regra, a “menina” obedecia.
Há jogadas em que ele deveria passar a bola e recebê-la em profundidade. Mas ele era “fominha”. Mesmo marcado por três adversários, mesmo vendo seu companheiro de equipe desmarcado, ele insistia em ficar com a bola nos pés. No olhar do meia Didi, seu companheiro de Seleção e do time do Botafogo, não havia reprovação, só concordância e aplauso. Ambos sabiam o que faziam. Didi tinha a certeza de que Mané chegaria lá. Corre até uma história muito ilustrativa. Na final da Copa da Suécia, o selecionado brasileiro sofreu o primeiro gol. A cena é antológica: Didi vai ao fundo das redes, coloca a bola sob o braço direito, caminha em sua cadência de “príncipe etíope”, acompanhado pelos companheiros, em direção ao centro do gramado. Dizem que, naquele momento, Didi deu a dica de como virar o resultado: “jogar a bola para o Mané, ele sabe o que fazer.”  Sofreram as consequências os suecos.
Tive o prazer de ver Garrincha jogando no Maracanã, quando o selecionado brasileiro se preparava para a Copa da Inglaterra. Já tinha perdido muito de seu “élan” de craque. A idade já lhe pesava nos ombros, e as noitadas e a bebida alcoólica lhe minavam as forças. Não era o mesmo das copas anteriores. Aos poucos, experimentou a dor inevitável do tempo, a sombra do esquecimento e a amargura da decadência. Nada mais triste que sua presença num desfile num Carnaval do Rio de Janeiro: num carro alegórico, sentado, erguendo a mão vacilante para cumprimentar a assistência. Estava como que enfronhado numa atmosfera de medo e decepção. O rosto inchado acentuava o vazio do olhar e debuxava uma aura de profunda tristeza na amargura desenhada nos lábios. Homenagem trágica ao maior ponteiro-direito do futebol mundial. Só Pelé enxergou e deplorou aquele quadro... Não foi compreendido.
Na canção Balada nº 7, o compositor pergunta “Cadê, você, cadê, você”. Em seguida, acrescenta: “você passou”, “o que era doce e o que não era se acabou”. Nesse passo, foi infeliz o letrista. Mané está no coração de todo aquele que o viu jogar e presenciou a poesia de seus dribles e a metáfora de sua presença chapliniana. Mané está no céu dos cristãos, ocupando a ponta-direita do selecionado celeste, tendo por técnico São Pedro, a cujas determinações não obedece. Assim no céu como na terra... Se Mané não tivesse nascido Mané Garrincha, seria a metamorfose de um palhaço alegre que enche de riso e de alegria o coração das crianças e torcedores. É, por força das tintas com que costuma brincar a eternidade, o “anjo torto” de Drummond, não aquele que vive nas sombras, mas o que espalhou a alegria gratuita no jogar futebol. Deixou subliminarmente muitas lições.... Nunca aprendidas.... Hoje, muitas estrelas, pouco brilho, futebol medíocre e preso à prancheta do treinador... Mané era livre, em todos os sentidos. 


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