UMA VIAGEM PROUSTIANA
– II
Hugo Martins
Aqui estamos à porta da casa paterna.
O poeta vai transpô-la. Quanto a mim, como vai ele à procura de algo parecido
com que Dante buscava na Divina Comédia, depois de ter atravessado os reveses
do Inferno e do Purgatório, ciceroneio, tal como Virgílio em relação a Dante,
Luís Guimarães Júnior. Faço isso sem que ele perceba, afinal achamo-nos no
campo diáfano da imaginação e do sonho, onde tudo é possível. Eis o segundo
quarteto e os dois tercetos do poema, guias não só geográficos da casa mas também
de toda a atmosfera onírica, submersa nas ânsias da infrene saudade, que
revolve a alma do poeta. Vamos à viagem... É pura emoção...
ENTREI.
UM GÊNIO CARINHOSO E AMIGO,
O
FANTASMA, TALVEZ, DO AMOR MATERNO,
TOMOU-ME
AS MÃOS, OLHOU-ME GRAVE E TERNO,
E,
PASSO A PASSO, CAMINHOU COMIGO.
ERA
ESTA A SALA... ((OH! SE ME LEMBRO! E QUANTO!)
EM
QUE, DA LUZ NOTURNA À CLARIDADE,
MINHAS
IRMÃS E MINHA MÃE... O PRANTO
JORROU-ME
EM ONDAS... RESISTIR QUEM HÁ-DE?
-
UMA ILUSÃO GEMIA EM CADA CANTO,
CHORAVA
EM CADA CANTO UMA SAUDADE...
A
recepção ao poeta é plena. Tudo ali é só carinho, amizade, ternura e amor, laço
forte de mãos carinhosas, que sustêm outras mãos rendidas ao maravilhamento
provindo de um certo olhar, não de qualquer olhar, mas de um olhar definível
tão só por quem se acha com a alma plenificada pela força do amor que dele
dimana. Depois desse flagrante de amorosa entrega, observo que o fantasma do
amor materno caminha, sem pressa, puxando o filho pelas mãos como a,
pacientemente, permitir-lhe antegozar a recuperação de tudo aquilo que foi e
não mais é. Súbito, o poeta entra em convulsão emotiva, que se traduz pelo
espanto exclamativo ao lembrar com intensidade o cômodo a que se refere com o
pronome demonstrativo ou dêixis ESTA, a sala... Em seguida, constrói uma frase
aparentemente sem estrutura sintática definida, pois fruto de revoluteio
emotivo. Por isso, impõe-se ao leitor reconstruí-la, preenchendo os vazios
sintáticos. Com esse procedimento, a frase deveria ficar, mais ou menos, assim:
QUANTO E COMO EU ME LEMBRO DESTA SALA EM QUE MINHAS IRMÃS E MINHA MÃE, SOB A
CLARIDADE DA LUZ NOTURNA... Nesse passo, contendo, bruscamente, a marcha do
pensamento pela interferência de intensa emoção, o poeta traz à lembrança uma
cena doméstica corriqueira e assentada indelevelmente em suas recordações. Vem,
pois, o pranto, e vem de roldão, em largos jorros hiperbólicos e a indagação:
quem haveria de resistir a tanta lembrança dorida? Tudo se dirimiu nas
fronteiras indefiníveis da ilusão e da saudade na eterna busca do tempo
perdido. É por elas que chegamos a ele. Para o nosso consolo...
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