quarta-feira, 27 de julho de 2016

UMA VIAGEM PROUSTIANA – II
                                                         Hugo Martins
               
                Aqui estamos à porta da casa paterna. O poeta vai transpô-la. Quanto a mim, como vai ele à procura de algo parecido com que Dante buscava na Divina Comédia, depois de ter atravessado os reveses do Inferno e do Purgatório, ciceroneio, tal como Virgílio em relação a Dante, Luís Guimarães Júnior. Faço isso sem que ele perceba, afinal achamo-nos no campo diáfano da imaginação e do sonho, onde tudo é possível. Eis o segundo quarteto e os dois tercetos do poema, guias não só geográficos da casa mas também de toda a atmosfera onírica, submersa nas ânsias da infrene saudade, que revolve a alma do poeta. Vamos à viagem... É pura emoção...

                        ENTREI. UM GÊNIO CARINHOSO E AMIGO,
                        O FANTASMA, TALVEZ, DO AMOR MATERNO,
                        TOMOU-ME AS MÃOS, OLHOU-ME GRAVE E TERNO,
                        E, PASSO A PASSO, CAMINHOU COMIGO.

                        ERA ESTA A SALA... ((OH! SE ME LEMBRO! E QUANTO!)
                        EM QUE, DA LUZ NOTURNA À CLARIDADE,
                        MINHAS IRMÃS E MINHA MÃE... O PRANTO

                        JORROU-ME EM ONDAS... RESISTIR QUEM HÁ-DE?
                        - UMA ILUSÃO GEMIA EM CADA CANTO,
                        CHORAVA EM CADA CANTO UMA SAUDADE...

            A recepção ao poeta é plena. Tudo ali é só carinho, amizade, ternura e amor, laço forte de mãos carinhosas, que sustêm outras mãos rendidas ao maravilhamento provindo de um certo olhar, não de qualquer olhar, mas de um olhar definível tão só por quem se acha com a alma plenificada pela força do amor que dele dimana. Depois desse flagrante de amorosa entrega, observo que o fantasma do amor materno caminha, sem pressa, puxando o filho pelas mãos como a, pacientemente, permitir-lhe antegozar a recuperação de tudo aquilo que foi e não mais é. Súbito, o poeta entra em convulsão emotiva, que se traduz pelo espanto exclamativo ao lembrar com intensidade o cômodo a que se refere com o pronome demonstrativo ou dêixis ESTA, a sala... Em seguida, constrói uma frase aparentemente sem estrutura sintática definida, pois fruto de revoluteio emotivo. Por isso, impõe-se ao leitor reconstruí-la, preenchendo os vazios sintáticos. Com esse procedimento, a frase deveria ficar, mais ou menos, assim: QUANTO E COMO EU ME LEMBRO DESTA SALA EM QUE MINHAS IRMÃS E MINHA MÃE, SOB A CLARIDADE DA LUZ NOTURNA... Nesse passo, contendo, bruscamente, a marcha do pensamento pela interferência de intensa emoção, o poeta traz à lembrança uma cena doméstica corriqueira e assentada indelevelmente em suas recordações. Vem, pois, o pranto, e vem de roldão, em largos jorros hiperbólicos e a indagação: quem haveria de resistir a tanta lembrança dorida? Tudo se dirimiu nas fronteiras indefiníveis da ilusão e da saudade na eterna busca do tempo perdido. É por elas que chegamos a ele. Para o nosso consolo...


            

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