VIAGENS
Hugo Martins
Sou sedentário por
vocação. Às vezes, bate-me uma vontade de passear, viajar, montar a garupa da
minguada vocação de viajante, que pouco me resta, e sair por aí, ao deus-dará,
chutando tampinhas, chapinhando poças d´água, olhando outros céus, conversando
com as gentes e conhecendo lugares. Desejo chegar aos destinos seguro e de alma
aberta. Dispenso companhias, a não ser alguns amigos fiéis, que conversam,
discutem, alegram o mundo e distraem a alma, sem enchimento de saco das
mesmices dos blá-blá-blás cotidianos: livros, livros e livros a mancheia.
Quanto ao transporte, não me apetece entrar em avião. Aliás, neles nunca entrei
nem pretendo fazê-lo. Para quem viaja todo santo dia, o transporte mais
aconselhável são as asas da imaginação. Com elas, não há sedentarismo; São
seguras, não se desviam do rumo e sempre chegam ao destino desejado, sem perigo
de quedas, desastres ou sequestros. E com elas, você vai aonde bem quiser e
entender. Não há barreira humanas, tampouco alfandegárias.
Durante a semana que se
está findando, empreendi algumas “viagens. ” Todas me foram proveitosas. Uma,
porém, pungiu-me fundo a sensibilidade. Primeiro, cheguei a Pasárgada, não à
cidade da antiga Pérsia, mas àquela em que Manuel Bandeira, de uma feita, refugiou-se
e fez tudo o que a vida lhe sonegou: tornou-se amigo do rei, fez ginástica,
montou burro brabo, tomou banho de mar e, quando cansou, ouviu as histórias de
Rosa, contadas pela mãe-d´água, e teve a mulher que queria, na cama que ele
escolheu. O poeta estava feliz por ter feito tudo aquilo que devia ter sido e
que não foi. Não sei por que cargas d´água, toda vez que a isso me refiro, os
olhos se me enchem de lágrimas. Acho que são as emoções da viagem. Pois bem,
dali viajei ao Rio de Janeiro, visitar Bandeira no Morro de Santa Teresa, lugar
em que o poeta pernambucano morou por algum tempo. Entrei em seus aposentos de
mãos dadas com as da imaginação. Estava ele sentado a rabiscar uma folha de
papel. Olhei por cima de seus ombros: redigia seu testamento. Documento
simples, sem volteios e sem a rigidez hierática do linguajar dos notários.
Diferente: vazado em cinco estrofes, com versos em redondilha maior (sete
sílabas poéticas), transpira o “documento” a secura das frustrações
inomináveis, sempre preso à temática daquilo que devia ter sido e não foi. Eis
o conteúdo: a perda de dinheiros e de amores não compungia tanto o poeta; das
terras que visitou, só uma ficou marcada no olhar, aquela que inventou
(Pasárgada); traz abrigado no peito o filho que não nasceu, pois nunca teve um
filho de seu; o enterro de uma vocação (arquiteto) por causa da doença de que
foi acometido na juventude. Por fim, ajoelha-se e roga: “Sou poeta menor,
perdoai”. O último item do “testamento”, o derramamento lúcido e melancólico
por não poder ter lutado.
Ora, Bandeira foi
arquiteto e escultor. Construiu grandes edifícios poéticos e cinzelou versos
imorredouros, singelos, profundos e, sobretudo, grandes. Nunca será um poeta
menor, jamais. Não sei que alma boa, lançando mão do sintagma “poeta menor”,
reconheceu a grandeza do poeta Manuel Carneiro Bandeira de Souza Filho, fazendo
este jogo morfofonético em que sobressai a sublimidade das palavras em que se
esconde a poesia. Contemplemos:
POETAMENORMENORMENORMENOSMENORMENORMENORMENORME...
Não se exige do leitor
nada, a não ser observar o tamanho da “palavra”, cuja leitura permite a
supressão do “menor”, que se traveste em ENORME.
Cheguei da viagem. Nenhum
cansaço ou fadiga. Só alegria interior e bem-estar. É diferente, é poesia, é
emoção das boas...
Au revoir...
Arrivederci...
Nenhum comentário:
Postar um comentário