sexta-feira, 22 de julho de 2016

HISTÓRIA E HISTÓRIAS
                                                   Hugo Martins
Pediram-me escrevesse um texto em cujo bojo se pudesse ter uma visão, ainda que superficial, da História da língua portuguesa. O texto tinha que ser objetivo, sem se emaranhar em longas digressões, que, na opinião da pessoa, só atrapalha e dificulta a apreensão dos significados e significações. Aceitei a proposta, afinal, a pessoa está desembolsando alguns trocados para esconder sua preguiça mental. Quer dizer: alugou-me a pena, como se dizia antes, quando o redator lançava mão do calamo (étimo latino), palavra bonita para designar a caneta, hoje quase obsoleta para a tarefa do escrever. Pois bem, propus-lhe um método seguro, embora aparentemente enfadonho, de discorrer sobre o assunto, fundamentando-o na leitura de um texto literário, seccionando-o e explicando-o em todos os seus aspectos, dele retirando o que há de também mimético e estético. Pois bem: elegemos o soneto de Olavo Bilac LÍNGUA PORTUGUESA, verdadeira apologia aos encantos e possibilidades de significações e ressignificações do idioma, entranhadas nas várias passagens por nós doravante analisadas. Desse modo, transcreveremos, em caixa alta, um trecho que encerre uma ideia que permita ser submetida a escavações interpretativas e informativas, de modo que a leitura do texto se faça distanciada de toda e qualquer superficialidade vã. E vamos nós.
ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA,
ÉS, A UM TEMPO, ESPLENDOR E SEPULTURA
OURO NATIVO QUE NA GANGA IMPURA,
A BRUTA MINA ENTRE OS CASCALHOS VELA.

O primeiro verso do quarteto, com um vocativo seguido de um aposto, se traz neste uma apologia reverente, no primeiro sugere ao leitor atento a possibilidade de nele desencavar uma rica gama no que diz respeito à história da língua, em seus primórdios. Comecemos pelo termo Lácio (Latium) uma região da Itália. Daqui, em sua sede de expansão, os romanos saíram, e chegaram à Península Ibérica, hoje território de Portugal e Espanha. Ali se instalaram por mais de dez séculos.  O latim (de latium) por eles falado, o latim vulgar, misturou-se a outros falares por conta das invasões, a primeira pelos germanos, e a outra pelos árabes... Pois bem, dessa mescla exsurgiram as línguas neolatinas, o italiano, o francês, o espanhol, para falar das mais expressivas, além da língua portuguesa, que, na visão de Bilac, foi a última provinda daquele latim amalgamado...Daí o sintagma “última flor do Lácio”. Claro que “flor” está aí a lembrar o verbo florescer, o surgir, o brotar...O termo “inculta” é alusão à rudeza originária dos que a utilizavam, normalmente, homens do povo, soldados, artesãos, camponeses e pessoas incultas. Nem por isso o poeta deixa de vislumbrar a beleza ínsita à língua portuguesa, mesmo no seu nascedouro. Só depois de Camões é que a última flor do Lácio vai assumindo personalidade e vestindo a roupa da cultura e dos processos civilizatórios.
Nos versos seguintes, o poeta atribui três predicados inseparáveis e casados à língua portuguesa. No primeiro verso, esplendor e sepultura, utilizados antiteticamente, apontam para as potencialidades do idioma que, a um só tempo, permite enfocar o real, nele derramando luz e sombra, entusiasmo e tristeza, força e impotência, tom épico e tom lírico...
Nos dois últimos versos, encontramos o último predicado da língua portuguesa, traduzido na locução “ouro nativo”, joia preciosa, escondida em meio à lama, ao cascalho. Transponham-se os versos aludidos para a ordem direta e teremos: A BRUTA MINA VELA (esconde, camufla) O OURO NATIVO, NA GANGA (lama) IMPURA, ENTRE OS CASCALHOS. Assim, para se chegar às possibilidades expressivas daquele “ouro”, o usuário há de fuçar a mina, revolvê-la, afastar impurezas... Encontrado o ouro, vem a satisfação da procura, e a beleza há de perpassar pela frase, pelo período, pelo texto, pelo dizer.





Voltaremos para a leitura do segundo quarteto...

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