HISTÓRIA E HISTÓRIAS
Hugo Martins
Pediram-me escrevesse um texto em
cujo bojo se pudesse ter uma visão, ainda que superficial, da História da
língua portuguesa. O texto tinha que ser objetivo, sem se emaranhar em longas
digressões, que, na opinião da pessoa, só atrapalha e dificulta a apreensão dos
significados e significações. Aceitei a proposta, afinal, a pessoa está desembolsando
alguns trocados para esconder sua preguiça mental. Quer dizer: alugou-me a
pena, como se dizia antes, quando o redator lançava mão do calamo (étimo latino),
palavra bonita para designar a caneta, hoje quase obsoleta para a tarefa do
escrever. Pois bem, propus-lhe um método seguro, embora aparentemente
enfadonho, de discorrer sobre o assunto, fundamentando-o na leitura de um texto
literário, seccionando-o e explicando-o em todos os seus aspectos, dele
retirando o que há de também mimético e estético. Pois bem: elegemos o soneto
de Olavo Bilac LÍNGUA PORTUGUESA, verdadeira apologia aos encantos e
possibilidades de significações e ressignificações do idioma, entranhadas nas
várias passagens por nós doravante analisadas. Desse modo, transcreveremos, em
caixa alta, um trecho que encerre uma ideia que permita ser submetida a
escavações interpretativas e informativas, de modo que a leitura do texto se
faça distanciada de toda e qualquer superficialidade vã. E vamos nós.
ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA,
ÉS, A UM TEMPO, ESPLENDOR E SEPULTURA
OURO NATIVO QUE NA GANGA IMPURA,
A BRUTA MINA ENTRE OS CASCALHOS VELA.
O primeiro verso do quarteto, com um
vocativo seguido de um aposto, se traz neste uma apologia reverente, no
primeiro sugere ao leitor atento a possibilidade de nele desencavar uma rica
gama no que diz respeito à história da língua, em seus primórdios. Comecemos
pelo termo Lácio (Latium) uma região da Itália. Daqui, em sua sede de expansão,
os romanos saíram, e chegaram à Península Ibérica, hoje território de Portugal
e Espanha. Ali se instalaram por mais de dez séculos. O latim (de latium) por eles falado, o latim
vulgar, misturou-se a outros falares por conta das invasões, a primeira pelos
germanos, e a outra pelos árabes... Pois bem, dessa mescla exsurgiram as
línguas neolatinas, o italiano, o francês, o espanhol, para falar das mais
expressivas, além da língua portuguesa, que, na visão de Bilac, foi a última
provinda daquele latim amalgamado...Daí o sintagma “última flor do Lácio”.
Claro que “flor” está aí a lembrar o verbo florescer, o surgir, o brotar...O
termo “inculta” é alusão à rudeza originária dos que a utilizavam, normalmente,
homens do povo, soldados, artesãos, camponeses e pessoas incultas. Nem por isso
o poeta deixa de vislumbrar a beleza ínsita à língua portuguesa, mesmo no seu
nascedouro. Só depois de Camões é que a última flor do Lácio vai assumindo
personalidade e vestindo a roupa da cultura e dos processos civilizatórios.
Nos versos seguintes, o poeta atribui
três predicados inseparáveis e casados à língua portuguesa. No primeiro verso,
esplendor e sepultura, utilizados antiteticamente, apontam para as potencialidades
do idioma que, a um só tempo, permite enfocar o real, nele derramando luz e
sombra, entusiasmo e tristeza, força e impotência, tom épico e tom lírico...
Nos dois últimos versos, encontramos
o último predicado da língua portuguesa, traduzido na locução “ouro nativo”,
joia preciosa, escondida em meio à lama, ao cascalho. Transponham-se os versos
aludidos para a ordem direta e teremos: A BRUTA MINA VELA (esconde, camufla) O
OURO NATIVO, NA GANGA (lama) IMPURA, ENTRE OS CASCALHOS. Assim, para se chegar
às possibilidades expressivas daquele “ouro”, o usuário há de fuçar a mina,
revolvê-la, afastar impurezas... Encontrado o ouro, vem a satisfação da procura,
e a beleza há de perpassar pela frase, pelo período, pelo texto, pelo dizer.
Voltaremos para a leitura do segundo quarteto...
Nenhum comentário:
Postar um comentário