sábado, 2 de julho de 2016

                                       Impressões de leitura
                                                               Hugo Martins

Findei a releitura de uma obra deliciosa: A Cura de Schopenhauer. Embora o entrecho do livro cheire a burguesismo filisteu, flagram-se, aqui e ali, alusões ao filósofo alemão, incompreendido no seu tempo, mas eterno para as gerações que se sucederam.
Com efeito, Arthur Schopenhauer, influenciou diversas categorias de pensadores e literatos. Entre os primeiros, o austríaco Sigmund Freud, o dinamarquês Soren Kierkegard e o alemão Nietzsche; entre os últimos, aqui no Brasil, Machado de Assis (Memórias Póstuma de Brás Cubas) e Augusto dos Anjos ( Eu e outras poesias).
Além do pensamento navalhante do filósofo, lemos, na obra aludida, historietas que bem demonstram a irritação do pensador com a estupidez humana.
Certa feita, uma senhora dirigiu-se a ele, vomitando toda sorte de impropérios contra a instituição do casamento. Depois de “soltar os cachorros”, acrescentou: “entendeu?” Ao que o pensador acrescentou; “não, mas passei a entender muito bem seu marido”. Outra vez, um sujeitinho fez uma pergunta ao filósofo. Como este dissesse que não conhecia o assunto, o néscio ficou indignado, dizendo: “não aceito um filósofo do seu porte desconhecer tal assunto?” Schopenhauer olhou-o e disse: “Meu caro, a sabedoria tem limites. O que não tem nenhum limite é a ignorância”. Conta-se também que toda vez que ia fazer refeições numa casa de pasto, antes de sentar-se, retirava uma moeda de ouro do bolso, punha-a sobre a mesa. Ao fim da refeição, levantava-se, repunha a moeda na algibeira e se ia. Um dia, um curioso abordou o filósofo e perguntou-lhe por que sempre fazia aquilo. Schopenhauer respondeu: “No dia em que eu aqui entrar, e algum homem não estiver conversando sobre mulheres e cavalos (futebol, hoje), ganhará essa moeda.”
Sua decepção com o gênero humano se traduzia pelo afeto que ele dedicava a seu cachorro Atma. A este dava o nobre título de Sir. No entanto, se o animal demonstrasse algum comportamento que o irritasse, dizia: “Fica quieto, Humano”!
Embora a obra referida no primeiro parágrafo não aprofunde o pensamento do filósofo (é esperável num best seller), o leitor deve  procurar se inteirar de obras famosas daquele pensador,  que dão bem a medida da visão trágica da existência. Dentre elas, O Mundo como Vontade e como Representação e Parerga e Paralipomena. Se, porém, não desejar encarar o pensamento do filósofo por tais obras, afunde-se num sofá e assista às novelas globais. Ou, se preferir, sente-se numa cadeira à frente do computador, ligue-se ao Facebook e pesque dos sites de terceiros as frases carameladas e ocas dos paulo coelho, augusto cury à frente, e outros idiotas da mesma cepa.

Nestas, temos a venda do otimismo barato que encanta as almas ingênuas. Na filosofia, o realismo contundente das coisas da vida, da tragicidade da existência e “outras questões prenhes de outras questões”... Amor, morte, o tempo que passa, os engodos de determinados discursos certinhos e direcionados pela influência maligna das ideologias, e tudo o mais que o tempo destrói: a fama, a beleza, a vaidade, a ânsia pelo poder e pela riqueza, a juventude e outra questões aterradoras... O menu é suficiente para despertar reflexões e banir o indiferentismo intelectual acerca dos variegados sentidos da vida.

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