O GURU VI
Hugo
Martins
“Domingo,
sete da manhã. Ligo o rádio e ouço o locutor Wilson Machado anunciar a Parada
dos Maiorais, uma sucessão das músicas mais tocadas durante a semana. O
programa tinha como música de abertura, executada pelo saxofone brilhante de
Ivanildo, a dolente Petite Fleur
(Pequena Flor). Sempre tendo por contraponto essa canção, Wilson Machado
anunciava do décimo quinto ao primeiro lugar. Nas minhas infância e
adolescência, ouvi todo tipo de música, pois se vivia a era do rádio; lembro-me
de que em nossa casa se comprava a Revista do Rádio e outras do mesmo gênero,
que traziam as letras das músicas de então. Como amostra, enfilarei o nome de
alguns intérpretes e compositores que embalaram meu “vício” pela música
lírico-amorosa, as que contavam casos de amores fracassados, abandonos, paixões
recolhidas, mágoas e tantos outros dramas sentimentais, que decorávamos e
cantávamos. Adelino Moreira, a dupla Jair Amorim/Evaldo Gouveia celebrizaram e
puseram na crista da onda Nélson Gonçalves e Altemar Dutra, respectivamente.
Caubi Peixoto cantava Conceição. Dalva de Oliveira, Nora Ney, Ângela Maria e
outras deusas do rádio rasgavam corações com Lencinho Branco, Ninguém me Ama e
Seria Tão Diferente... Era também tempo em que o cantor norte-americano Nat
King Cole (não conheço voz igual) bandeou-se para a música latina e gravou
todos os boleros em voga: Aqueles Olhos Verdes, Cachito, La Golondrina, Noite
de Ronda... Havia também Ray Conniff, que embalava as festas com o Besame Mucho
e continuava alegrando o baile com música de gosto latino.
Enquanto
lia a carta de Ridendo Sic, não atinava aonde queria ele chegar com esse mar de
nostalgia e de recordações que nos fazem lembrar a música Meus Tempos de
Criança do sambista Ataulfo Alves, em cujo texto lê-se o verso “eu era feliz e
não sabia”.
“Meu
caro, desencavo essas recordações porque vi há pouco, num programa televisivo,
um grupelho de pseudo-intelectuais falando sobre a chamada música brega. Entre
outras asneiras, tomavam como referência o início desse estilo musical os anos
setenta. Cometeram vários equívocos com os quais não concordo e rebato-os
argumentando.
Em
primeiro lugar, não sei se trata de uma etimologia popular com aparência de
falsa, mas que faz sentido faz. Já li, em algum dia, que o nome brega seria uma
redução de nome próprio Nóbrega, que dava nome a uma rua. Pela ação do tempo e
da negligência do poder municipal, a primeira sílaba do nome se foi apagando.
Como era uma rua em que funcionavam lupanares, cabarés, bordéis, puteiros (nome
mais adequado), a palavra se firmou no léxico porque, quem os conhece sabe que
ali só se rodam músicas em que se manifestam os sinceros paixões e dramas
humanos. Eu, por exemplo, prezado amigo, conheci muitos desses lugares em boa
parte do Brasil. Aí em Fortaleza, as boates do centro: A Boate Guarani,
Fascinação e Oitenta, a Casa da Leila, em Parangaba, sem contar com o Farol do
Mucuripe. No Rio de Janeiro, aprendi a dançar com as meninas da Lapa e bebi
muita cerveja nos bares da Praça Mauá, quase próxima à Radio Nacional, no Bar Flórida
e Hanseática. Em Salvador, muito me diverti no Julião, no Maciel e na boate
Tabaris, ali próximo ao Elevador Lacerda. Em Recife, quando por lá passei, freqüentei
a Rua da Guia, verdadeiro celeiro de putas de toda espécie, das que, devoradas
pela sífilis, já dormem nas sarjetas, até as ninfetas que se iniciam na vida
nada fácil de quem vende o corpo para sobreviver. Essa é a explicação mais
plausível para o nome brega. Hoje esse comércio é corriqueiro, funcionando sem
nome e sem luz vermelha na fachada...
Em
segundo lugar, não há música brega. Existe a música, com suas nuanças e sua vocação
para despertar em todos nós o lirismo, o romantismo, os dramas e lembranças que
nos acorrem toda vez que ouvimos a “música brega.” Existe coisa mais brega que
as músicas de Frank Sinatra? Que desperta em nós a música francesa Ne me quites pas senão o canto de desespero de quem se vê na iminência de
ser abandonado pelo ser amado? Mesmo cantada por Maísa (conheço interpretação
mais convincente da cantora Mireille Mhathieu). E Noche de Ronda, apelo a que alguém volte (dile que la quiero, dile que me muero de tanto
esperar). E tantas outras que só os amantes da música conseguem intuir,
mesmo numa sonata de Beethoven ou numa suíte de Bach? Quem é maior brega que
Roberto Carlos, que iniciou a carreira imitando João Gilberto, em seguida migrou
para o “rock” e, por fim, abraçou a música romântica, que ele dá vida com seu
sopro interpretativo e conduz multidões a estádios ou a qualquer show que
promova? Em qualquer lugar do mundo em que exista alguém que sofra, que sinta
saudades, que, por fim, transporta alguma amargura na alma por força de dores
sentimentais, existirá a música brega. Ela é universal, e faz parte de nosso
universo psíquico.
Por
fim, a hipocrisia (em grego, hipócrita é o ator) de quem diz não gostar de
música brega não passa de uma atitude falsa daquele que não pensa e teme ser
tomado por pessoa de mau gosto. No entanto, se letra e música provierem de
países estrangeiros, sobretudo dos em que se fala inglês, não há, na opinião
dos tolos, nenhuma possibilidade de que seja brega. É como tirar meleca do
nariz: em público é feio, mas nos cantinhos em que se não pode ser
surpreendido, o sujeito atola o dedão nas ventas, retira a meleca grudenda,
contempla-a e sente grande e solitário prazer em limpar o nasal...
Fecho
esta missiva, apoiando-me no clichê dos dados à inútil arte de distribuir conselhos:
“Pense nisso!”
Fechei
a carta, coloquei-a de volta ao envelope e comecei a pensar nisso. Não nas
melecas, mas nas palavras sensatas de meu grande amigo.
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