quinta-feira, 2 de agosto de 2012


O GURU VI

                                               Hugo Martins

            “Domingo, sete da manhã. Ligo o rádio e ouço o locutor Wilson Machado anunciar a Parada dos Maiorais, uma sucessão das músicas mais tocadas durante a semana. O programa tinha como música de abertura, executada pelo saxofone brilhante de Ivanildo, a dolente Petite Fleur (Pequena Flor). Sempre tendo por contraponto essa canção, Wilson Machado anunciava do décimo quinto ao primeiro lugar. Nas minhas infância e adolescência, ouvi todo tipo de música, pois se vivia a era do rádio; lembro-me de que em nossa casa se comprava a Revista do Rádio e outras do mesmo gênero, que traziam as letras das músicas de então. Como amostra, enfilarei o nome de alguns intérpretes e compositores que embalaram meu “vício” pela música lírico-amorosa, as que contavam casos de amores fracassados, abandonos, paixões recolhidas, mágoas e tantos outros dramas sentimentais, que decorávamos e cantávamos. Adelino Moreira, a dupla Jair Amorim/Evaldo Gouveia celebrizaram e puseram na crista da onda Nélson Gonçalves e Altemar Dutra, respectivamente. Caubi Peixoto cantava Conceição. Dalva de Oliveira, Nora Ney, Ângela Maria e outras deusas do rádio rasgavam corações com Lencinho Branco, Ninguém me Ama e Seria Tão Diferente... Era também tempo em que o cantor norte-americano Nat King Cole (não conheço voz igual) bandeou-se para a música latina e gravou todos os boleros em voga: Aqueles Olhos Verdes, Cachito, La Golondrina, Noite de Ronda... Havia também Ray Conniff, que embalava as festas com o Besame Mucho e continuava alegrando o baile com música de gosto latino.

            Enquanto lia a carta de Ridendo Sic, não atinava aonde queria ele chegar com esse mar de nostalgia e de recordações que nos fazem lembrar a música Meus Tempos de Criança do sambista Ataulfo Alves, em cujo texto lê-se o verso “eu era feliz e não sabia”.

            “Meu caro, desencavo essas recordações porque vi há pouco, num programa televisivo, um grupelho de pseudo-intelectuais falando sobre a chamada música brega. Entre outras asneiras, tomavam como referência o início desse estilo musical os anos setenta. Cometeram vários equívocos com os quais não concordo e rebato-os argumentando.

            Em primeiro lugar, não sei se trata de uma etimologia popular com aparência de falsa, mas que faz sentido faz. Já li, em algum dia, que o nome brega seria uma redução de nome próprio Nóbrega, que dava nome a uma rua. Pela ação do tempo e da negligência do poder municipal, a primeira sílaba do nome se foi apagando. Como era uma rua em que funcionavam lupanares, cabarés, bordéis, puteiros (nome mais adequado), a palavra se firmou no léxico porque, quem os conhece sabe que ali só se rodam músicas em que se manifestam os sinceros paixões e dramas humanos. Eu, por exemplo, prezado amigo, conheci muitos desses lugares em boa parte do Brasil. Aí em Fortaleza, as boates do centro: A Boate Guarani, Fascinação e Oitenta, a Casa da Leila, em Parangaba, sem contar com o Farol do Mucuripe. No Rio de Janeiro, aprendi a dançar com as meninas da Lapa e bebi muita cerveja nos bares da Praça Mauá, quase próxima à Radio Nacional, no Bar Flórida e Hanseática. Em Salvador, muito me diverti no Julião, no Maciel e na boate Tabaris, ali próximo ao Elevador Lacerda. Em Recife, quando por lá passei, freqüentei a Rua da Guia, verdadeiro celeiro de putas de toda espécie, das que, devoradas pela sífilis, já dormem nas sarjetas, até as ninfetas que se iniciam na vida nada fácil de quem vende o corpo para sobreviver. Essa é a explicação mais plausível para o nome brega. Hoje esse comércio é corriqueiro, funcionando sem nome e sem luz vermelha na fachada...

            Em segundo lugar, não há música brega. Existe a música, com suas nuanças e sua vocação para despertar em todos nós o lirismo, o romantismo, os dramas e lembranças que nos acorrem toda vez que ouvimos a “música brega.” Existe coisa mais brega que as músicas de Frank Sinatra? Que desperta em nós a música francesa Ne me quites pas senão o canto de desespero de quem se vê na iminência de ser abandonado pelo ser amado? Mesmo cantada por Maísa (conheço interpretação mais convincente da cantora Mireille Mhathieu).          E Noche de Ronda, apelo a que alguém volte (dile que la quiero, dile que me muero de tanto esperar). E tantas outras que só os amantes da música conseguem intuir, mesmo numa sonata de Beethoven ou numa suíte de Bach? Quem é maior brega que Roberto Carlos, que iniciou a carreira imitando João Gilberto, em seguida migrou para o “rock” e, por fim, abraçou a música romântica, que ele dá vida com seu sopro interpretativo e conduz multidões a estádios ou a qualquer show que promova? Em qualquer lugar do mundo em que exista alguém que sofra, que sinta saudades, que, por fim, transporta alguma amargura na alma por força de dores sentimentais, existirá a música brega. Ela é universal, e faz parte de nosso universo psíquico.

            Por fim, a hipocrisia (em grego, hipócrita é o ator) de quem diz não gostar de música brega não passa de uma atitude falsa daquele que não pensa e teme ser tomado por pessoa de mau gosto. No entanto, se letra e música provierem de países estrangeiros, sobretudo dos em que se fala inglês, não há, na opinião dos tolos, nenhuma possibilidade de que seja brega. É como tirar meleca do nariz: em público é feio, mas nos cantinhos em que se não pode ser surpreendido, o sujeito atola o dedão nas ventas, retira a meleca grudenda, contempla-a e sente grande e solitário prazer em limpar o nasal...

            Fecho esta missiva, apoiando-me no clichê dos dados à inútil arte de distribuir conselhos: “Pense nisso!”

            Fechei a carta, coloquei-a de volta ao envelope e comecei a pensar nisso. Não nas melecas, mas nas palavras sensatas de meu grande amigo.

           

           



           

           




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