UM PADRE PADRE.
Hugo Martins
Nunca lhe esqueci o porte retilíneo, esguio e esgrouvinhado, cuja elegância natural era realçada pela batina preta que lhe chegava aos calcanhares. Cabeça afilada, cabelos à escovinha, nariz bem desenhado, olhos vivazes, acentuados pelos óculos de aros, por cujas grossas lentes, que escondiam espessas sobrancelhas negras, podia-se pressentir a luz da bondade e a sinceridade com que abraçou a missão vocacional.
Exercia sobre nós, meninos, um certo e explicável temor reverencial. Era o professor que ensinava pelo exemplo. Caso flagrasse algum garoto fazendo traquinagens e estripulias em ruas e praças, puxava-lhe, torcendo, uma das orelhas, declinando o nome dos pais, a quem bem devia conhecer. Assim agia, nessas ocasiões, para fazer ver ao moleque que tinha ele, o padre, conhecimento de causa... E como tinha... Essa austeridade de homem justo também se estendia aos adultos e a homens metidos a poderosos que, por exercerem cargos públicos em assembleias legislativas, escondiam-se por trás de uma falsa popularidade, mas eram homens com certa tendência à tirania e à prepotência.
Um deles possuía um serviço de comunicação, isso nos anos 50, num município enterrado no atraso, cuja população, muita vezes, tinha que mendigar, por exemplo, uma vaga na escola pública. Aquele serviço de comunicação servia para o político fazer programas musicais, mas, também para exaltar sua imagem como bem fazem os ditadores. Pois bem, o padre também criou, na própria igreja-matriz, sua Voz do Campanário, cujo serviço se voltava para as programações eclesiásticas e para rechaçar alguns discursos de políticos assanhados. Parecia existir entre o padre e os políticos locais algum laivo de inimizade ou malquerença. A bem da verdade, respeitavam-se, embora, aqui e ali, surgisse uma ou outra rusga sem graves consequências. Numa delas, um dado político puxou um revólver para o padre como a querer intimidá-lo. O padre não se fez de rogado: meteu a mão no bolso, puxou, também, um pau-de-fogo e disse, sem medo: "sou padre e sou macho". E era mesmo.
Há três obras na cidade do meu tempo de menino surgidas da iniciativa do padre: o Círculo Operário, o Colégio Pio XII e o Patronato, instituições voltadas para a educação. Ainda hoje servem, e bem, aos filhos da terra
Não sou chegado a herois, mas não posso fugir ao reconhecimento de ações que determinados homens de coração puro e bom desenvolvem, gratuitamente, em prol de outros, sem esperar recompensas ou aplausos. Por isso, quando me pedem declinar o nome de um desses homens, que conheci em minha terra natal no tempo de eu menino, não titubeio: padre Abelardo Montenegro, homem querido de todos, cujo retrato aí está debuxado e faz parte da galeria de seres humanos que admiro.
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