IMPROVISOS
Hugo Martins
Hoje nada tenho a dizer. Esterilidade quase absoluta. Dedos rijos. Pensamento indisciplinado, teimando em não se fixar num assunto. Lembrei Drummond exprimindo a luta que, às vezes, o redator empreende com as palavras para fazer parir o texto, mas a mão teima em não escrever. É a luta vã a que o poeta itabirano se refere ao dizer que vivemos sempre esse conflito diário com as palavras mal raia a manhã. Vem a vontade de desistir. Mas os dedos, apesar de tudo, cooperativos, teimam em zabumbar o teclado à espera de que o parto se dê. Há quem diga que texto algum deixa de nascer com vida, não há texto natimorto. O mundo aí está, e este vive um romance diuturno com cheiro de eternidade com as palavras. Desse elo necessário, o texto há de surdir. Paciência e deixar que o pensamento acompanhe o galope dos dedos. É a saída. Parece que deveria ser o contrário, mas as ideias caminham trôpegas, montadas numa preguiça de bicho preguiça, ensaiando passadas que mais parecem aquele movimento em câmara lenta das cenas de determinados filmes ou em transmissão de jogadas futebolísticas. Daqui a pouco, o leitor vai dizer que tudo isso não passa de “enchimento de linguiça”, de conversa fiada de quem não tem o que dizer. Claro que ele se engana. Como não ter o que dizer se algo está sendo dito ainda que a duras penas? Mas havemos de dizer algo palpável, sem tergiversações ou fugas, pois este texto que assim se espraia na página, parece não ter pé nem cabeça. No início, sentei-me à mesa pensando em fazer um paralelo entre o texto O Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Ponte Preta, o Lalau, e a poesia absurda do poeta paraibano Zé Limeira. A coisa daria panos para o texto, pois os textos de ambos em muito se assemelham pela absurdidade da linguagem. Stanislaw, naquele samba, satiriza o desconhecimento da História do Brasil, a seu aviso, por parte dos compositores de samba-enredo, à época os crioulos habitantes dos morros no Rio de Janeiro. Já o poeta paraibano era conhecido pela alcunha Poeta do Absurdo, não que ele misturasse assuntos díspares da História ou de histórias sem pé nem cabeça, mas porque, recorrendo a uma linguagem, ás vezes, sem nenhum sentido, fugia à censura de quem quer que seja pela maestria com que tirava proveito da musicalidade das palavras de nossa língua portuguesa. Se eu tentasse fazer o paralelo, teria que copiar algumas passagens dos textos de cada um dos autores citados, do que resultaria um texto longo não cabível aqui neste espaço. Além do mais, a transcrição exigiria análise acurada dos textos com o fito de clarear pontos obscuros e de difícil exegese de cada um deles. Afora o tédio que provocaria certamente no espírito do leitor preguiçoso.
Só sei que, nessa lengalenga, nesse não diz mas diz, acabamos por escrever o texto que não queria sair, mas não suportou a teimosia deste escriba.
A falta de assunto pode ser assunto rico e pródigo para a produção de um texto.
Aí está o texto... Da próxima, sairá um mais espontâneo. Um breve toque de silêncio...
Hugo Martins
Hoje nada tenho a dizer. Esterilidade quase absoluta. Dedos rijos. Pensamento indisciplinado, teimando em não se fixar num assunto. Lembrei Drummond exprimindo a luta que, às vezes, o redator empreende com as palavras para fazer parir o texto, mas a mão teima em não escrever. É a luta vã a que o poeta itabirano se refere ao dizer que vivemos sempre esse conflito diário com as palavras mal raia a manhã. Vem a vontade de desistir. Mas os dedos, apesar de tudo, cooperativos, teimam em zabumbar o teclado à espera de que o parto se dê. Há quem diga que texto algum deixa de nascer com vida, não há texto natimorto. O mundo aí está, e este vive um romance diuturno com cheiro de eternidade com as palavras. Desse elo necessário, o texto há de surdir. Paciência e deixar que o pensamento acompanhe o galope dos dedos. É a saída. Parece que deveria ser o contrário, mas as ideias caminham trôpegas, montadas numa preguiça de bicho preguiça, ensaiando passadas que mais parecem aquele movimento em câmara lenta das cenas de determinados filmes ou em transmissão de jogadas futebolísticas. Daqui a pouco, o leitor vai dizer que tudo isso não passa de “enchimento de linguiça”, de conversa fiada de quem não tem o que dizer. Claro que ele se engana. Como não ter o que dizer se algo está sendo dito ainda que a duras penas? Mas havemos de dizer algo palpável, sem tergiversações ou fugas, pois este texto que assim se espraia na página, parece não ter pé nem cabeça. No início, sentei-me à mesa pensando em fazer um paralelo entre o texto O Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Ponte Preta, o Lalau, e a poesia absurda do poeta paraibano Zé Limeira. A coisa daria panos para o texto, pois os textos de ambos em muito se assemelham pela absurdidade da linguagem. Stanislaw, naquele samba, satiriza o desconhecimento da História do Brasil, a seu aviso, por parte dos compositores de samba-enredo, à época os crioulos habitantes dos morros no Rio de Janeiro. Já o poeta paraibano era conhecido pela alcunha Poeta do Absurdo, não que ele misturasse assuntos díspares da História ou de histórias sem pé nem cabeça, mas porque, recorrendo a uma linguagem, ás vezes, sem nenhum sentido, fugia à censura de quem quer que seja pela maestria com que tirava proveito da musicalidade das palavras de nossa língua portuguesa. Se eu tentasse fazer o paralelo, teria que copiar algumas passagens dos textos de cada um dos autores citados, do que resultaria um texto longo não cabível aqui neste espaço. Além do mais, a transcrição exigiria análise acurada dos textos com o fito de clarear pontos obscuros e de difícil exegese de cada um deles. Afora o tédio que provocaria certamente no espírito do leitor preguiçoso.
Só sei que, nessa lengalenga, nesse não diz mas diz, acabamos por escrever o texto que não queria sair, mas não suportou a teimosia deste escriba.
A falta de assunto pode ser assunto rico e pródigo para a produção de um texto.
Aí está o texto... Da próxima, sairá um mais espontâneo. Um breve toque de silêncio...
Namastê.
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