VERSO
E LEITURA.
Hugo
Martins
Olavo Bilac escreveu dois
poemas famosos, espécie de diretrizes ao poeta filiado à estética parnasiana. O
primeiro é o longo poema Profissão de Fé; o outro é o soneto A Um Poeta. Em
ambos, o conteúdo não assume a mesma importância que a forma, sobretudo aquela
que se aproxima da perfeição do ideário da escola a que também se filiaram
Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira e Vicente de Carvalho. A doutrina da
chamada “arte pela arte” deixa entrever essa idéia da busca infrene pela
perfeição formal, que é traduzida na métrica, na rima e na escolha do
vocabulário...
Vamos transcrever o
primeiro quarteto do soneto referido, texto que aparentemente oferece
dificuldade de leitura. No entanto, desvendado o vocabulário e aplicadas as
regras sintáticas de colocação, de concordância e de regência, o espírito do
texto se elucida, claro como as manhãs das auroras claras. Já dissemos do título, que aponta para um
destinatário filiado ao Parnasianismo.
A
UM POETA
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência, no
sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e
sofre, e sua!
Transpondo para a ordem
direta. Há duas frases no texto: a primeira, que vai de “Longe” a “escreve”. O
restante constitui a segunda frase. Leiamos a primeira. Observar que o verbo “escrever se encontra na segunda pessoa do singular
do modo imperativo, portanto, a pessoa a que se refere é o pronome pessoal tu. “Beneditino”
é mero vocativo, que pode ser colocado em qualquer lugar da frase, pois não
mantém vínculo sintático com nenhum outro termo. Seu vínculo é meramente
semântico-textual. Assim temos: “Escreve tu, Beneditino, longe do estéril turbilhão
da rua.” Bilac compara o poeta, quando escreve, a um monge beneditino, isolado
do mundo (no aconchego do claustro) e, por isso, (longe) distante de qualquer
influência que não seja tão só o fazer poético A poesia parnasiana não deve
estar atrelada a questões outras a não ser a essa quase obsessão pela forma, já
aqui ressaltada.
Observar que os verbos da
segunda frase se encontram no mesmo modo e pessoa que o verbo “escrever” da
primeira. A leitura deve começar por eles, que, repita-se, fazem alusão ao
pronome pessoal tu. Assim temos: “Beneditino, trabalha, e teima, e lima, e
sofre, e sua no aconchego do claustro, na paciência, no sossego”. A tarefa do
poeta deve ser levada a efeito, estando ele distanciado de tudo, escrevendo
paciente e sossegadamente. A repetição da conjunção “E”, no último verso
(polissíndeto), sugere o que dizem as formas verbais TRABALHAR, TEIMAR, LIMAR,
SOFRER, SUAR. É a luta insana do poeta, trabalhando, perseverando, desbastando
excessos, sofrendo e despendendo muito esforço para alcançar o a pureza formal.
O poeta parnasiano padece daquilo que Gustave
Flaubert, escritor francês, chamava de “a angústia da forma.” É próprio de todo
artista a busca, a luta, a angústia, o debater-se com o dizer. Ainda assim, a
maioria não fica satisfeita. “Lutar com palavras/é a luta mais vã./ Entanto
lutamos/ mal rompe a manhã”, no dizer de Drummond de Andrade.
Essa luta com a expressão
é divertida para nós, leigos. Torna-se menos árdua quando o indivíduo coloca
como divertimento diuturno a leitura, a leitura, a leitura, a leitura. Não se
necessita das regras mágicas do “professor de redação”. Machado de Assis,
Monteiro Lobato, Olavo Bilac e os grandes escritores de modo geral nunca
tiveram professor de redação... Eram empedernidos leitores de tudo que lhes
caía nas mãos.
SIMPLIFICANDO:
BENEDITINO, ESCREVE LONGE
DO TURBILHÃO ESTÉRIL DA RUA.
BENEDITINO, TRABALHA, E
TEIMA, E LIMA E SOFRE E SUA NO ACONCHEGO DO CLAUSTRO, NA PACIÊNCIA E NO
SOSSEGO.
Voilà.
Simples, não?
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