quarta-feira, 21 de junho de 2017

ORTOGRAFIA
Hugo Martins
A Língua Portuguesa, em sua evolução histórica, conheceu três sistemas ortográficos: o período fonético, o período pseudo-etimológico e o sistema simplificado. No primeiro, as palavras eram grafadas tal como eram pronunciadas. Assim, podia-se grafar a mesma palavra de uma ou mais formas. Por esse sistema, por exemplo, a palavra “mesa” poderia ser assim grafada, como também pela forma “meza”. Quer dizer, não existia, o que é de se esperar, uma uniformização gráfica. A grafia da palavra submetia-se ao talante de quem a escrevia. Esse sistema perdurou do ano de 1189, quando surgiu o primeiro texto literário escrito em língua portuguesa, até o Renascimento, quando do aparecimento de Luís de Camões e a valorização dos estudos greco-latinos.
O sistema pseudoetimológico, parido por influência de um eruditismo vazio, apanágio de alguns pedantes, que absorveram os ideais clássicos de modo bastardo, instaurou um pandemônio, pois de científico nada possuía, a não ser o joguete vaidoso de alguns peralvilhos irresponsáveis, que instilararam no sistema ortográfico a indisciplina e a anticientificidade. Bons exemplos das tiradas de gramáticos caprichosos, pacientes da diarréia greco-romana, eram a grafia de palavras como docto, infermo, egreja, lyryo, sancto, eschola e outras tantas, meras especulações fantasiosas e risíveis, sem nenhuma base epistemológica.
O foneticista português Gonçalves Viana foi quem encontrou uma solução sui generis para tornar mais acessível e sistemática a ortografia portuguesa, quando, em 1904, publicou a obra Ortografia Nacional, renovando e simplificando alguns princípios consentâneos com o modo de ser do idioma, que um bom latinista/helenista bem pode explicar. Tornou-se oficial em terras lusas em 1911 por força de um decreto governamental.
Desde 1943, o Sistema Ortográfico Simplificado, da lavra daquele gramático português, passou a viger no Brasil. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), publicado pela Academia Brasileira de Letras, enfeixa a grafia oficial de todas as palavras que, em terras brasileiras, se grafarem. Desde então, se promoveram apenas algumas mudanças concernentes tão-só ao uso do acento gráfico, notações que serão, certamente, com o tempo, abolidas por desnecessárias...
Em 1971, ocorreu uma reforma nesse sentido, cogitaram-se outras mudanças, agora não só suprimindo acentos diferenciais, mas também se propondo a grafia mais simplificada de algumas palavras.
Em essência, ortografia é convenção, não língua portuguesa. Muda ao sabor das vicissitudes históricas. Não se aprende por regras, mas pela leitura. Funciona, como uma máquina que fotografa a configuração gráfica da palavra. Sendo esta bem fotografada, certamente será revelada com grande fidelidade, no momento da escrita...
Por isso, as mudanças no sistema ortográfico nacional não se devem constituir motivos para apreensões. A leitura resolve. A leitura resolve até mesmo problemas atinentes à língua portuguesa...
Ler, parafraseando Severiano Ribeiro, ainda é a maior diversão... e a melhor solução.

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