terça-feira, 6 de junho de 2017

INSISTÊNCIA

Hugo Martins

Nasci para ser eterno estudante e cuidadoso professor de língua portuguesa... Estudante porque não há um só dia em que não me ocupe quer lendo alguma coisa, quer escrevinhando textos ou mesmo observando o emprego da linguagem em suas diversas modalidades.  O ser professor e amar minha profissão, bem como a língua portuguesa, é coisa que me espicaçou o espírito quando, servindo a Marinha de Guerra, costumava levar para bordo alguns livros que lia com sofreguidão quando, em alto mar, navegando para onde quer que fosse, refugiava-me em algum lugar silencioso e lá me entregava aos prazeres da leitura. Cedo descobri Jorge Amado e devo a ele e à minha mãe querida o amor que desenvolvi pelos livros. Li Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus. Foi amor á primeira vista. Depois disso, tratei de ler a obra inteira do escritor baiano e, com ele, fiquei "viciado"... Ainda hoje, vez e outra, faço algumas visitas a ele. E sempre me comovo com o lirismo de sua linguagem, e solto largas gargalhadas quando o criador de Gabriela abre o baú de palavrões, e eu não aguento, rio a bandeiras despregadas... O emprego do palavrão é uma das coisas mais sinceras na obra de Jorge Amado e um traço do seu estilo coloquial e gostoso como é a fala desabrida do povão que ele tanto ama, respeita e protege, denunciando as injustiças e descalabros que caem sobre aquele zé povão. Jorge Amado abriu o caminho das letras para mim. Daí em diante, "eu fui pra galera"... E aconteceu o melhor: dando baixa da Marinha, resolvi ingressar no Curso de Letras, uma das muitas coisas acertadas que fiz na vida. Mesmo tendo frequentado outros cursos, nunca me afastei das Letras, tanto é que fui e sou professor durante toda minha vida laboral. As Belas-Letras são uma das poucas coisas que me preenchem  a alma e digo, com Ovídio, poeta romana clássico,  curto esse otium  (ócio), essa convivência diuturna com o estético ínsito à Literatura, como que curtindo uma embraguez a que nada se compara. Mesmo afastado da sala de aula, local em que me sentia muito à vontade e alegre, continuo ensinando alguma coisa ou estimulando alguém a aprender alguma coisa...
Há momentos em que não perco a paciência por não valer a pena,mas não posso negar que fico muito puto com  a insistência dos meios de comunicação em induzir as pessoas à pronúncia e à escrita errôneas de palavras que se subordinam ao étimo latino.
Os jornalistas e locutores continuam se referindo a um tal TRIPLEX, com pronúncia e escrita de intensidade oxítona. Erro brutal semelhante às pronúncia e grafia de DUPLEX. Porra, caralho, na língua latina não existe palavra oxítona. As palavras referidas são paroxítonas, tanto é que vêm graficamente acentuadas em língua portuguesa... Quer constatar? Consulte-se qualquer dicionário de língua portuguesa. Se quer ter mais certeza, consulte-se  o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), obra que enfeixa a grafia correta das palavras em língua portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras.
Assim, doravante, lembremos de pronunciar DÚPLEX e TRÍPLEX. Não se trata de gramatiquice ingênua, mas de observância à etimologia, parte dos estudos linguísticos que cuida da origem das palavras.
Observar que TRÍPLICE e DUPLICIDADE provém daquelas duas palavras que ingressaram no léxico português com a mesma grafia e intensidade latinas. Insistamos: são elas paroxítonas tanto quanto cateter é oxítona e não paroxítona como se ouve por aí.
Nos estudos, vale a insistência. Por via de consequência, aprendizagem segura e não improviso. Parafraseando o imperador romano Pompeu e não Fernando Pessoa, como muitos pensam, "estudar é preciso" e viver também é preciso...
E vivas aos estudos e ao professor

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