MANIA DE VIAJAR
Hugo Martins
Gosto de viajar. Aqui frente ao computador quando rabisco texto ou no enfrentamento de leituras leves ou pesadas, muito me apraz voltar “aos tempos de criança” como sugere a letra de Ataulfo Alves e Mário Logo. Ou, pela ótica dos doutos e letrados, ir “em busca do tempo perdido”, título duma obra em sete volumes, de autoria do francês Marcel Proust, escritor que passou boa parte da vida a cavoucar os tempos idos, aqueles de que o sujeito nunca se esquece. Minhas viagens, no veículo ato de escrever, são mais modestas e de pouco fôlego. Chego às instâncias da infância, visito um dado momento marcante para mim e, logo, trato de voltar. Algo como só “matar as saudades.”
Pois bem. Na semana passada por lá estive, visitando Maria Luísa do Totó, sentado na calçada com meus companheiros de folguedos, derramando a vista pelas serras que cercam a cidade, banhadas, umas e outra, pela prodigalidade de um luar, merecedor, também, de uma sonata de Ludwig van Beethoven. Ali me deixei ficar a ouvir a história sobre João e Maria, dos irmãos Grimm, cuja releitura foi feita pelo compositor Chico Buarque de Holanda, ungida de toda fantasia possível e banhada na orgia melódica do acordeão lamentoso de Sivuca.
Todos conhecem a historieta. O abandono das crianças na floresta; a casa feita de guloseimas; as reinações da bruxa em desejar “devorar” João; a sagacidade das crianças em se livrar das garras da velha; e, afinal, a volta para casa. Em nenhum momento, procedeu-se à análise do texto à luz da simbologia que escamoteia outros detalhes, que não boiam à superfície do texto. Não. Os fatos foram comentados levando em conta tão só a linearidade do texto, o enredo pelo enredo. Conforme dissemos, todo texto, sobretudo o de cunho literário, abre margens para outras interpretações menos ortodoxas. Daí o texto anterior, referente à história daquelas crianças, trazer no seu fecho o compromisso de uma volta. Aqui estamos. E vamos nós à segunda instância interpretativa, agora sob os auspícios da simbologia freudiana. Para isso, vamos trazer à baila alguns signos delatores (vôte) ou veiculadores de outros sentidos. E vamos nós. São eles: as pedrinhas que assinalam o caminho de volta; os nacos de pão que João vai soltando no caminho, quando, pela segunda vez, seu pai e a madrasta (termo depreciativo), pela segunda vez, abandonam as crianças na floresta; a casa com as paredes e janelas feitas de doces, chocolates e sorvetes; a ânsia das crianças no seu interesse de entrar na casa; a velha bruxa, a prisão na qual foi encerrado João (por que João e não Maria?); o afã da velha em devorar o menino depois que o dedo deste estivesse mais gordinho; os gritos da velha quando lançada na fogueira, e as crianças, replicando e atiçando o fogo: “azeite, senhora vó”...
Recorro ao método socrático da maiêutica (em grego é parteira), isto é, no lugar de demonstrar o que se esconde por trás de cada um dos signos alinhados, deixo que o leitor promova o parto interpretativo, namorando cada um dos signos e perguntando seu significado como fazem os leitores experimentados. O leitor perspicaz, diante do texto, não deve permanecer inerte, mas, em sintonia com o ensinamento dos pedagogos, tornar-se senhor do conhecimento.
Caso a proposta aqui colocada fosse feita em sala de aula, o professor, se leitor profícuo, certamente poderia recorrer à dinâmica “brain storm”, espécie de tempestade de ideias, provindas da fala do alunado, que, ao fim, sem dúvida, redundaria em alguma “interpretação”. Ou, ainda, o professor poderia lançar o jogo dos “porquês”, também método socrático, que o pensador grego chamou de ironia, que consiste em provocar o discípulo com repetidas indagações de modo a convencê-lo de que, no bom sentido, é um ignorante, isto é, nunca alcança respostas definitivas para dada questão. Privado de nossa interpretação, fica aí a sugestão... Bom proveito.
Leitura é diálogo, é enfrentamento, é descoberta.
Voilà.
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