segunda-feira, 1 de maio de 2017

VIAGEM
                                     Hugo Martins
 Viajei para Minas Gerais. Precisamente para Ouro Preto, antiga Vila Rica, terra de inconfidentes, da corrida do ouro, do amor de Dirceu por Marília, terra de mistérios e fascínios... Não me demorei a contemplar a arquitetura vetusta dos tempos coloniais, tampouco me esgueirei por becos forrados de pedra tosca... Não. Apenas atravessei a cidadezinha e, chegando aos seus arredores, alcei-me ao cume de um outeiro.  Era fim de tarde, hora crepuscular no silêncio cavo, apenas quebrado pelo melancólico badalar dos sinos, saudando a hora indefinível da chegada das sombras e a retirada da luz. Ali deixei-me ficar quando, num átimo, alguém se avizinha e, em pinceladas verbais, apreendendo toda a mágica do momento, vai, pouco a pouco, construindo a tela. Não puxo conversa, não pergunto seu nome... Apenas observo o pintor, que, ungido de grande furor criativo, vai revelando uma paisagem que evoca a morte, num jogo metafórico em que a extrema-unção, caindo como uma cortina, assinala uma espécie de fim de ato. Logo depois, o firmamento, tal um pálio negro, ostenta uma miríade de pontos luminosos, pisca-piscando, como a anunciar aquela apoteose encantatória...
Como o quadro se revela em quatro cenários menores, vamos apresentar três textos de nossa lavra, acentuando os detalhes de cada um, salientados pelo poeta e por nós comentados por intermédio de pequenas digressões.
Aí vai o primeiro.

O OURO FULVO DO OCASO AS VELHAS CASAS COBRE;
SANGRAM, EM LAIVOS DE OURO, AS MINAS QUE A AMBIÇÃO
NA TORTURADA ENTRANHA ABRIU DA TERRA NOBRE:
E CADA CICATRIZ BRILHA COMO UM BRASÃO.

Contemplemo-lo. Primeiro olhar: a alma das palavras... o que embuçam... o que elas dizem... o que não dizem... que revelações fazem do mundo nesse jogo. A seguir, ainda no mesmo olhar: hierarquia, ordem, conjugação. Em outras palavras: vocabulário e sintaxe. Aí temos o jogo sintático-semântico, sempre indispensável para a apreensão de significados, que levará em conta, necessariamente o conhecimento de mundo.
A palavra ouro aparece duas vezes nesse quarteto e outras três vezes ao longo do soneto. Ora, o título deste é VILA RICA, hoje OURO PRETO. É o pano de fundo da tela. É aqui que o homem pugna, sofregamente, por encontrar ouro. Momento em que vem à tona o comportamento torpe, a ambição desmedida, os jogos sujos, a cupidez aviltante.
Ouro fulvo do ocaso é locução que pode ser traduzida por hora crepuscular, momento em que o sol se põe. Assim, a primeira linha do poema assim pode ser lida: o ouro fulvo do ocaso cobre as velhas casas, Estrutura simples: ele as cobre. Simples... Observar, nos dois versos seguintes, as palavras: sangram, ambição cicatriz. Sugestivas, não? Na verdade, transpondo os dois versos referidos para a ordem direta, teremos: as minas sangram em laivos (pistas, sinais) de ouro; a ambição abriu as minas na entranha torturada da terra nobre. “Entranha torturada” sugere a insistência e o afã do homem em cavar e cavar e cavar; a fazer cicatrizes na terra nobre para encontrar o brilho daquilo que lhe vai satisfazer a cobiça. Assim, o poeta evoca o cenário da cidade – Vila Rica/Ouro Preto, sendo acobertado pela hora do ocaso, do crepúsculo, do pôr-do-sol, do arrebol, quatro palavras da mesma área semântica.

Continua...

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