terça-feira, 30 de maio de 2017

TEXTOS EM DIÁLOGO

Hugo Martins

Estou aqui a lembrar dela. A lua já ia alta, o vento soprava frio do alto da serra. Estava eu sentado na ponta da calçada. Olhava seu rosto magro, seu olhar expressivo e suas mãos arabescando o espaço como a querer escrever com elas um poema que lhe queimava a alma. Nunca esqueci essa imagem, pois ela vinha acompanhada da magia da contação de histórias de Trancoso e contos de fada. Uma coisa é ler, hoje, um conto de fadas. Outra coisa era ouvir, ontem, o mesmo conto de fadas na voz quente e rouca da negra Maria Luísa do Totó. Era tão hábil nesse mister quanto à negra velha Totonha, referida por José Lins do Rego na introdução do romance Menino de Engenho. Era tão convincente e emocionante quanto Vicente Cego, que,  nos dias de feira, tangendo as cordas da viola, ao tempo de minha infância, em Itapipoca, fulminava de emoção e chistes a alma dos que o ouviam...
Pois bem, naquele tempo nunca tinha ouvido falar nos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, que também contavam historias calcadas nas chamadas narrativas populares. Maria Luísa, da mesma forma, trazia-as a nós, só que com o encanto só dela, coisa que nos inebriava e nos fazia crer existirem, tangentes, as instâncias dos sonhos.
Um dia, de muita lua, de muito silêncio cavo, a negra falou de um casal que desejava livrar-se dos filhos João e Maria. Eles eram um estorvo. A fome era muita, e os víveres eram insuficientes, o amor era pouco, a piedade nenhuma. Nossa alma gemeu e chorou. Os meninos foram abandonados em meio à floresta, desprovidos de tudo. Mesmo assim, enxergaram uma casa , construída de guloseimas e para lá se dirigiram. Lá vem uma velha bruxa que os prende, esperando engordá-los para depois comê-los. O dedinho de João diria do dia azado. A velha, vez por outra, ia à gaiola,em que encerrara o garoto,  a ver se ele já chegara ao ponto de ser devorado. Tudo dependia da grossura do dedinho do menino... No dia em que o dedinho "estava no ponto", e a velha abrira a gaiola para assar o jovem na fogueira, Maria empurrou-a na fogueira, e a velha, quanto mais gritava "água, meus netinhos", estes jogavam ao fogo mais azeite e gritavam : azeite, senhora vó."
Em 1947, o compositor Sivuca tocava pelas ruas de Recife, uma melodia, que serviu para, depois de 29 anos, o compositor Chico Buarque de Holanda colocar nela letra ungida da mais pura poeticidade. Aqui temos todos os sonhos, tudo que existe de absurdidade e sonho. Aqui tudo era permitido. Andar nu, despido de qualquer censura externa, infensa a tudo, de modo que o importante era ser feliz. Tudo era faz de conta, tudo mergulhava numa atmosfera em que a presença do outro, "que fugiu do mundo sem me avisar", criava para alguém a interrogação: "sem você, o que a vida vai fazer de mim?" Lancinante indagação que servirá de mote para a produção de outro texto. Agora, à luz da subjetividade sensual que o conto permite ao leitor entrever nos meandros da aparente docilidade infantil, presente tanto nos irmãos Grimm quanto  no inigualável Chico Buarque de Holanda.
Voltaremos...

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