terça-feira, 30 de maio de 2017

REPLICANDO

Hugo Martins

Alguém me pede uma dica de como "aprender português". Achei graça. Adoro achar graça. Antes que ela fizesse outra pergunta óbvia: por que estás achando graça? -ajuntei: "todos nós sabemos "português", afinal fomos socializados nessa língua tão bela. A jovem, então, tentando me pegar numa arapuca, lançou-me outra pergunta: "por que, então, somos obrigados a estudar a língua portuguesa durante, praticamente,  toda a vida escolar e, o que é pior, nem sempre aprendemos o suficiente"? "Hugo, essa nossa língua é muito difícil". Achei graça mais uma vez. A jovem ficou danada da vida e me jogou nas fuças outra questão, que, pensou ela -assim julguei - tratar-se de outra arapuca: "Hugo, tu estás te fazendo de difícil, ou pretendes fazer hora com minha cara?" Dessa vez, não achei graça... Era temerário, pois a garota deu clara demonstração de estar tiririca comigo. Então, assumi um ar sério e, sem recorrer às aspas, disse: vou analisar suas questões por uma ótica que não prioriza a gramática pela gramática. Esta pode ser meio, mas não fim. Às vezes, transforma-se em instrumento de poder e de tortura... e não leva a lugar algum. Todos somos portadores de uma gramática internalizada, daí a declaração de que todos sabemos "português", assim como todo inglês sabe inglês, todo francês sabe francês e todo espanhol sabe espanhol... Quanto à obrigatoriedade de estudar a língua portuguesa nas escolas, é explicável por dois fatores. Em primeiro lugar, fazer ver ao alunado a existência de "várias" línguas portuguesas na língua portuguesa. Contraditório? Não, tudo muito natural. São vários os registros, dependendo do contexto sóciolinguístico. Uma carta que se envia ao Papa é mais solene e paletó e gravata que a carta enviada à mãe ou namorada, certamente mais bermudas e chinelos. Um papo com os familiares e amigos é menos grave que o conteúdo e a forma contidos numa entrevista com a finalidade de conquistar abocanhar uma vaga no mercado do trabalho. Em segundo lugar, em certames e concursos, em que a competição, aparentemente, seleciona os mais hábeis, a língua portuguesa é exigida como instrumento de uso apenas na sua feição culta, ou seja, aquela valorizada pela sociedade, daí a ênfase na gramatiquice estéril. Muita vezes, o sujeito é "doutor" em normas  gramaticais, mas a cabeça não suporta o desafio de uma folha de papel em branco, uma caneta e um assunto a ser desenvolvido. É triste...
Quando alguém diz que a língua portuguesa é uma das "mais difíceis do mundo", rejeito o postulado. Não há língua difícil, há ou não dispisição para utilizá-la para algum fim. Da minha parte, meu interesse pelo estudo de idiomas é o acendrado amor que sempre nutri e nutro pela língua portuguesa. Não deprecio nenhuma, mas a língua portugesa "é como alguém disse, a minha pátria".
Agora, vou dizer de sua pergunta inicial. Agora no duro. A grande dica que você procura se encontra numa coisa simples, tão simples que, mesmo próxima de nós, fazemos força para não enxergá-la. Em letras garrafais: A LEITURA. Pronto. Com uma dose de, pelo menos, três hora desse santo remédio, "aprende-se", sem muito esforço,  qualquer faceta, no caso em pauta, da língua portuguesa. Não há segredo. É ler o que lhe caia nas mãos: o texto do tubo de pasta dental; as placas de rua; o jornal; a revista; os livros de anedotas; a literatura de cordel; o romance machadiano ou não; a poesia de Bandeira ou não; as letras das canções populares, do brega ao chique, do medíocre ao sublime. Não precisa se preocupar: com o tempo as escolhas se impõem... Leitura é bicho bom. Embriaga como os bons vinhos, as cervejas geladas, a cachaça amiga... E vicia porque dá "lombra", faz ver a vida por outros ângulos e perspectivas. Por aí você começa a descobrir que português não é tão difícil como por aí se propala.
Creio haver esclarecido com propriedade a questão da jovem. Se não, parafraseando Machado de Assis, no prólogo da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, "pago-lhe com um piparote e adeus."

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