segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA - XXIV
Kaire, filé.
Saudação em língua grega, adaptada ao abecedário de língua portuguesa, que significa, em tradução livre, "aproveito a oportunidade para declarar a alegria de ser seu amigo, bem como de privar de sua amizade".
Aí está a saudação plena de meandros semânticos. Não se compara à frieza cotidiana e mecânica dos "bons-dias". Tome-a como melhor lhe aprouver. Sem mais delongas, vamos ao que importa.
Na minha última epístola (palavra aparentemente pedante para designar carta ou missiva), comprometi-me a contar algumas histórias, tendo como protagonista o professor. Claro que o "dador de aulas" fica fora dos nossos propósitos. A primeira já foi. Espero que lhe tenha caído no gosto. Aí vai a segunda.
Já tive ocasião de retratar essa pessoa. Figura ela na galeria do "meu tipo inesquecível", matéria que li, em outros tempos, na revista Seleções. Todo mês saía um portrait, desenhando o perfil de alguém que marcou a existência de alguém, coisa que só o coração, as vivência e a memória explicam.
Era o tempo em que as normalistas tinham permissão de fazer funcionar o ensino estadual em sua própria casa. Eram elas que desasnavam as crianças e as preparavam para o exame de admissão ao ginásio.
A sua escolinha já agradava pelo odor. Era uma casa naturalmente cheirosa. O aroma era explicável, pois havia, no quintal que ladeava a sala em que estudávamos, muitas plantas florígeras, especialmente uma de flor branca, que meu analfabetismo botânico nunca soube classificar. Seu cheiro, porém, permanece nas lembranças olfativas. Não importa onde me encontre, qualquer odor parecido me transporta para a escola de dona Ângela, meu amor de professora, que nunca me saiu da lembrança.
Os cabelos já nevados eram arrepanhados numa espécie de cocó, penteado em que os cabelos ficam enrodilhados no alto da cabeça. Rosto magro, severo, boca bem desenhada, encimada pelo nariz quase aquilino, em cuja ponta um par de óculos, a cavaleiro, deixava ver uns olhos azuis, que emitiam a luz da bondade, da compreensão e da ternura. Na minha inocência de criança já sentia inexplicável amor filial por aquela senhora.
Á época, a palmatória ou férula, instrumento de madeira, cujo formato lembrava uma grande lupa, servia de "argumento" pedagógico para conter os arroubos comportamentais dos alunos... Nunca vi dona Ângela fazer uso dela. Quando muito, chamava ao birô dois alunos, sabatinava-os e, algumas vezes, talvez para instaurar a emulação, fazia o jogo em que ao "vencedor" era facultado aplicar uma palmatoada ou "bolo"no "vencido".
As aulas consitiam em ler (argumento), contar e cantar.
Era uma espécie de trivium, como se fazia no modelo escolar da Idade Média. Aqui, o aluno estudava Gramática, Dialética e Retórica, isto é, aprendia correção da linguagem, a arte de argumentar e, por fim, a de bem estruturar o discurso, salpicando-o de jogos verbais, tendo por fim o convencimento do auditório e a vitória sobre o opositor.
A nós, na nossa cultura pragmática, aquele trivium mais modesto era suficiente para atender aos anseios da política educacional. Até mesmo o cantar tinha sua função: instilar no espírito da garotada o patriotismo estéril dos hinos, agito frenético de bandeirolas e desfiles em datas festivas...
Dona Ângela, quero crer, não devia refletir sobre assunto tão complexo. Limitava-se a cumprir seu dever, coisa que, a nosso sentir, fazia com brilhantismo e acendrado amor por seus alunos.
É muito difícil proferir o tão batido "eu te amo". O tempo não me impede. As mutações por que todos passamos também não me servem de obstáculo. Nada me constrange. As experiências de vida acumuladas não me causam mossa. Enfim, ninguém ou qualquer coisa vai apagar em minha alma as recordações daquele meu tempo no qual dona Ângela habitou. Eu amo dona Ângela e por ela alimento imorredoura gratidão. Sempre no meu coração, como diz a letra da canção.
Eis aí, minha grande amiga, o retrato de alguém tão necessária ao mundo. Há tempos ela morreu. Direi: para o mundo, pois continua vivíssima em mim. Às vezes, desconfio de ter ela contribuído para a escolha profissional que fiz e tanto amo...
Grande abraço para você. Ainda tenho algumas histórias a contar. Não repassadas da ternura aqui esparramada nesta segunda, mas, certamente, com alguma marca de alegria, de chiste ou de decepção, coisa tão presente na vida de todos nós.
Vou conter as ideias; vou mobilizar os dedos. Fecho esta, declarando, ainda, ser seu criado e sempre amigo.
Hugo Martins

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