segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA - XXV
Hugo Martins
Eis aí, minha cara, mais uma historieta não inventada, envolvendo e figura de um professor. Claro que carreguei alguma tinta de ficção no relato. Faço como os rapsodos que recontavam as narrativas de Homero, acrescentando um ponto ao conto. Sou humano, pois, pois... Leia o relato e, se quiser, acrescente a ele mais um ponto se, por acaso, desejar reescrevê-lo.
Grande e afetuoso abraço.
Kaire, filé !
Corriam os anos sessenta. Fortaleza não passava de uma capital provinciana, sem os ares que hoje ostenta. As ruas eram estreitas e pavimentadas com grandes pedras de seixo, pontudas e traiçoeiras. A vida corria sem a azáfama dos tempos modernos. Tudo se resolvia no centro da cidade. Nada de bairros independentes. Até mesmo para postar uma carta nos correios, havia-se de apanhar um dos velhos e maltratados ônibus e descer na Praça José de Alencar.
Tudo era longe. Diversão? Ir ao cinema. Ir ao Estádio Presidente Vargas. Ir à praia. Ir aos programas de auditório da Ceará Rádio Clube ou ou da Rádio Iracema, Aos adultos, facultava-se a ida aos clubes dançantes, o Maguary, o Massapeense, o Quixadaense, o clube dos Diários, o clube do Líbano. O Náutico e o Ideal não eram abertos à comunidade. E, muito engraçado, nem toda pessoa podia a eles se associar. Lembro, com marcada decepção, que o jogador Édson Arantes do Nascimento teve, por lá, seu ingresso impedido. Homens engraçados, não? Coisas da História, coisas da ignorância na sua acepção bem socrática. Pois bem, por essa época, só havia quatro escolas públicas, cujo ingresso dependia de grande concorrência: o Liceu do Ceará, o Colégio Municipal, Escola Normal Justiniano de Serpa e a Escola Industrial de Fortaleza. Havia o exame de admissão, a que se submetiam os concludentes do quinto ano primário. Vamos tratar aqui apenas do Liceu do Ceará, onde lecionava um alemão, que se dizia ser neurótico de guerra, coisa que não lhe tirava a competência no ensino da língua latina e da língua francesa. Era figura folclórica sem nenhum laivo de ridicularia. Era sério, responsável e estudioso. Impunha respeito a quem quer que com dele se aproximasse. Chamava-se Muller, e sobre ele corriam histórias, que se tornaram antológicas quando alguém queria pôr em evidência esquisitices ou traços de personalidade desse ou daquele professor.
Pois bem. Havia dois turnos de aulas: o da manhã, só para homens; o da tarde, só para mulheres. Muller lecionava num e noutro. O professor tinha por hábito descompor os alunos aplicando-lhes pesados "nomes" feios": baitola, veado, puta, rapariga, filho de égua... Não havia, por isso, ameaça de processo judicial nem a cobrança, da parte dos pais, pelos excessos do mestre. Os tempos eram outros... Os alunos pareciam compreender os destemperos do professor. O maior ato de amor do velho mestre aos seus alunos ficou evidenciado quando, num conflito corpo a corpo entre soldados do Corpo de Bombeiros e os alunos do Liceu, lá estava Muller a trocar socos, pontapés e safanões em clara adesão à defesa de seus pupilos. Bom lembrar que muitas histórias atribuídas a ele eram fruto da imaginação como se faz hoje com Seu Lunga do Juazeiro. Compreensível, pois, que se tenha carregado e, em muito, na tinta da inverdade na pintura daquele excelente professor. Não se pode negar, porém, que ele era dado a "dizer nome" contra os alunos mal-educados ou relapsos.
Certo dia, Muller recebeu o convite a se apresentar à madre superiora de um colégio de que era diretora, que ouvira falar da competência do professor, a qual interessava à reputação daquele colégio frequentado pelas moçoilas casadoras provindas da burguesia local.
Houve uma entrevista prévia. No gabinete grave, sentado, de pernas cruzadas, à frente da madre-diretora, Muller soltava seu verbo fácil, coadjuvado, aqui e ali, por gargalhadas discretas. De súbito, a freia fez uma observação pertinente: " Professor Muller, nossa escola se sente honrada a ter, daqui por diante, em seu quadro docente, um professor do seu porte. Homem culto, estudioso e resposável, sem precisar pôr em evidência sua reconhecida competência. Há, porém, um senão, que não deve servir de constrangimento para o senhor - continuou a irmã. Caro professor, alguns colegas seus dizem que o senhor é useiro e vezeiro em dizer palavrões contra os alunos e contra quem o desagrade. Isso é verdade, caro mestre?"
Muller, indignado, ergueu-se, levantou o dedo polegar,em pose de quem está proferindo um discurso, e emendou: " na verdade, ma soeur, essa cambada de filhos de puta não me conhece. É esse tipo de baitola falador que se compraz em denegrir a imagem de quem trabalha. Cornos safados, filhos de rapariga sem mãe. Eles que se fodam e me deixem estar em paz."
Alguma conclusão sobre o desfecho do contrato?

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