sábado, 22 de outubro de 2016

SEM ASSUNTO
Hugo Martins
Hoje procurei por Selene. Só vi o céu limpo de estrelas, mas desenhado de pequenos e brancos frocos que me lembraram pedaços esgarçados de algodão. Procurei Selene mais uma vez. Desconfiei de que está escondida pelo grande edifíicio que ladeia o pequeno edifício em que moro. Com certeza. Como não posso afastar a porra do grande bloco de concreto, satisfaço-me com vislumbrar alguns reflexos do " astro dos namorados". Aqui me perguntei: por que Selene recebeu tal designação? Nem sei nem quero saber. Deve ela fazer parte, em algum tempo histórico, dos signos daqueles que estavam ou se fizeram de apaixonados para tecer discursos para tocar almas impressionáveis. Como nada consigo arrancar do quengo por absoluta e momentânea inanição intelectual, vou trazer à baila historieta em que se pode ver como tudo passa e se traveste, mesmo os discursos em que os apaixonados, iludidos por fugidias ilusões e débeis entusiasmos, deixam fluir lengalenga leviana, fruto de algumas miragens enganosas, que se lhe desenham na pobre alma.
O "causo", nascido da boca do povo, bem atesta isso e põe às claras como a verdade nunca permanece no fundo do poço. Sempre vem à tona, inapelavelmente.
Conta-se que um casal, sentados os dois pombinhos bem juntinhos no banco de uma praça de interior, trocavam juras de amor eterno, coadjuvadas por beijos, abraços e lânguidos olhares,tingidos do mais puro e sincero amor existente na terra. Súbito, Selene surde exuberante por trás do pico de uma serra e, por um momento, derramou seus leitosos raios sobre aquele romeu e sua julieta. Por um só momento, pois uma nuvem gaiata encobriu, por esticados momentos, a luz pródiga daquela lua de luz tão viva. A namorada dengosa sussurra no ouvido do amado: " amor, por que a lua resolveu esconder-se por trás daquela nuvem?" O namorado pegou a deixa e respondeu: "meu amor, certamente está ela com ciúmes de você e se escondeu a fim de nos espreitar..." Claro que a jovenzinha deve ter experimentado prolongado orgasmo emotivo.
Tempos depois, à vista os mesmos personagens, na mesma hora, no mesmo banco, na mesma praça, na mesma cidade. Só um aspecto do cenário mudara: ele sentado numa ponta do comprido banco; ela, na outra ponta. De súbito, Selene e a nuvenzinha arteira surgem nas mesmas circunstâncias daqueles tempos idos. O diabo da mulher faz a mesma pergunta. A óbvia. Devia ter permanecido mergulhada no silêncio em que se encontrava. Foi falar e ouviu o que se previa. Sim, qual a pergunta? Para a manutenção da fidelidade aos fatos, vamos trancrever a tal pergunta e a não surpreendente resposta. "Marido, por que a lua tá se escondendo atrás daquela nuvem." Sensata, sincera e diretamente, o marido respondeu: "Tu não vês, tapada, que os ventos movem as nuvens... A lua não se esconde porra nenhuma atrás de nuvem alguma. Só sendo idiota para assim pensar..." A mulher limitou-se a esboçar um sorrisozinho desgracioso no rostinho enrugadinho e nada mais disse.
Caiu o pano. Fim de comédia. Histórias que o povo conta.

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