CARTA à AMIGA-XIX
Hugo Martins
Hugo Martins
Minha boa amiga,
Hoje trarei para nosso pasto reflexivo, assunto dos mais controversos pela grande variedade de discussões que costuma suscitar. Com efeito, proceder a interpretações disso ou daquilo constitui tarefa espinhosa, sobremaneira porque nem sempre há concordância nas exegeses que, muitas vezes, não se assentam nos postulados da Hermenêutica, pois as regras desta advindas muito se afeiçoam a textos escritos e respeitantes à ciência do direito, às investigações no campo da História ou, por fim, à Teologia e ciências afins. Quando se trata, porém, do texto literário, do texto de cunho jornalístico ou de leituras de mundo, deve-se levar em conta as experiências prévias do intérprete, que equivalem àquilo que linguistas e semiólogos apodam de conhecimento enciclopédico ou conhecimento prévio. A partir dessa premissa, é que se tornou regra dizer-se que as significações e sentidos se encontram mais no sujeito que no objeto. Pois é... Ilustremos com exemplo dos mais convincentes, esparramado claramente na historieta que colhi da boca do povo e que passo a narrar. Vamos lá.
Diz-se que um rei, senhor de grande fortuna e pai de uma bela donzela, desejando casar esta, lançou um edital, convidando qualquer habitante do reino a submeter-se a prova que consistia em decifrar problema arquitetado pela mente brilhante do grande sábio da corte. Aquele que conseguisse decifrar o enigma não só teria a mão da donzela mas também a metade de tudo do reino. Quem não alcancasse a proeza iria para o cadafalso ou para a guilhotina. Dentre os candidatos, via-se inscrito um "doidinho", um aventureiro que "nada tinha a perder", conforme ele dizia ao pai quanto este tentou dissuadi-lo de propósito tão temerário.
Decorridos poucos dias do início das provas, muita gente já havia perdido a cabeça na lâmina pesada da
guilhotina ou o pescoço constringido pela cruel e irremediável laçada da forca. Até que chegou o dia do "doidim". Como foi o exame e como nosso amigo se saiu? Vamos nós...
Recebeu o "doidim" ordem de entrar numa sala. Empurrou ele a porta, entrou, encostou a porta e, quando virou-se, estava o sábio com um pão na mão direita levantada à altura da cabeça. Balançou-a em direção ao candidato na intenção de mostrá-lo. O "doidinho", na outra ponta da mesa, lançou mão de um pedaço de bolo, ergueu-o, balançou a mão, em tudo imitando o sábio. Este ergueu o dedo polegar para o examinando. Ato contínuo, o "doidim" ergueu a mão, colou o polegar ao dedo médio e balançou a mão em direção ao sábio, que, por sua vez, uniu os dedos polegar, médio e anular e fez o mesmo gesto, olhando gravemente para o "doidim". Nosso amigo, já irritado, estirou o dedo médio como um falo ereto, e com ele fez vários movimentos rotatório como se mexesse, às avessas, uma panela. Resultado: o "doidim" ganhou o certame. Temos agora duas cenas: uma do sábio conversando com o rei e explicando como o candidato decifrou o enigma; outra, em que o pai do rapaz ouve, atentamente, como o filho alcançou desvendar os problemas lançados pelo sábio do reino.
Dizia o sábio: majestade, primeiro eu disse a ele que o pão alimenta o corpo e o espírito; ele redarguiu, dizendo que nem só de pão vive o homem. Em seguida, disse-lhe existir um só Deus; para me confundir, ele disse existirem dois deuses; no momento em que eu afirmei a existência de três deuses, ele, em argumentação irrefutável, aduziu existir apenas um Deus e que regia tudo o que ocorre no cosmo.
Dizia o "doidim": pai, quando eu entrei na sala, ele disse que tacava o um pão em mim. Respondi que se ele fizesse aquilo, eu dava-lhe uma chibatada com um pedaço de bolo que tava num prato sobre a mesa. Não satisfeito, ele ameaçou-me, dizendo que enfiava um dedo no meu fiofó. Eu disse que enfiava dois no dele. Quando ele disse que me enfiaria três no boga, aí gritei, dizendo que lhe metia o dedão e ainda rodava várias vezes.
E, desde então, o "doidim" e a princesa passaram a viver "felizes para sempre".
Conforme se deduz, a mesma situação fática pode permitir um sem número de interpretações.
Relendo Édipo-rei, uma das tragédias de Sófocles, Etéocles e Polinice condenam o pai incestuoso, enquanto Antígona, irmã dos dois, perdoa o pai por ver em seu (dele) drama a interferência de forças estranhas, provindas da fatalidade, do destino. Para Freud, o episódio nada mais é que uma dentre as muitas pulsões a que se refere.
Eis aí. Tudo na vida é passível de ser interpretado. Bastam as situações, os signos, os símbolos e toda carga de significações que possibilitam. Afora os intérpretes com suas experiências de mundo.
Que os pudicos não interpretem na linguagem chula da historieta algum laivo de vulgaridade. Trata-se de propriedade do uso da linguagem.
A você, minhas homenagens.
Grande abraço.
Hugo Martins
Hoje trarei para nosso pasto reflexivo, assunto dos mais controversos pela grande variedade de discussões que costuma suscitar. Com efeito, proceder a interpretações disso ou daquilo constitui tarefa espinhosa, sobremaneira porque nem sempre há concordância nas exegeses que, muitas vezes, não se assentam nos postulados da Hermenêutica, pois as regras desta advindas muito se afeiçoam a textos escritos e respeitantes à ciência do direito, às investigações no campo da História ou, por fim, à Teologia e ciências afins. Quando se trata, porém, do texto literário, do texto de cunho jornalístico ou de leituras de mundo, deve-se levar em conta as experiências prévias do intérprete, que equivalem àquilo que linguistas e semiólogos apodam de conhecimento enciclopédico ou conhecimento prévio. A partir dessa premissa, é que se tornou regra dizer-se que as significações e sentidos se encontram mais no sujeito que no objeto. Pois é... Ilustremos com exemplo dos mais convincentes, esparramado claramente na historieta que colhi da boca do povo e que passo a narrar. Vamos lá.
Diz-se que um rei, senhor de grande fortuna e pai de uma bela donzela, desejando casar esta, lançou um edital, convidando qualquer habitante do reino a submeter-se a prova que consistia em decifrar problema arquitetado pela mente brilhante do grande sábio da corte. Aquele que conseguisse decifrar o enigma não só teria a mão da donzela mas também a metade de tudo do reino. Quem não alcancasse a proeza iria para o cadafalso ou para a guilhotina. Dentre os candidatos, via-se inscrito um "doidinho", um aventureiro que "nada tinha a perder", conforme ele dizia ao pai quanto este tentou dissuadi-lo de propósito tão temerário.
Decorridos poucos dias do início das provas, muita gente já havia perdido a cabeça na lâmina pesada da
guilhotina ou o pescoço constringido pela cruel e irremediável laçada da forca. Até que chegou o dia do "doidim". Como foi o exame e como nosso amigo se saiu? Vamos nós...
Recebeu o "doidim" ordem de entrar numa sala. Empurrou ele a porta, entrou, encostou a porta e, quando virou-se, estava o sábio com um pão na mão direita levantada à altura da cabeça. Balançou-a em direção ao candidato na intenção de mostrá-lo. O "doidinho", na outra ponta da mesa, lançou mão de um pedaço de bolo, ergueu-o, balançou a mão, em tudo imitando o sábio. Este ergueu o dedo polegar para o examinando. Ato contínuo, o "doidim" ergueu a mão, colou o polegar ao dedo médio e balançou a mão em direção ao sábio, que, por sua vez, uniu os dedos polegar, médio e anular e fez o mesmo gesto, olhando gravemente para o "doidim". Nosso amigo, já irritado, estirou o dedo médio como um falo ereto, e com ele fez vários movimentos rotatório como se mexesse, às avessas, uma panela. Resultado: o "doidim" ganhou o certame. Temos agora duas cenas: uma do sábio conversando com o rei e explicando como o candidato decifrou o enigma; outra, em que o pai do rapaz ouve, atentamente, como o filho alcançou desvendar os problemas lançados pelo sábio do reino.
Dizia o sábio: majestade, primeiro eu disse a ele que o pão alimenta o corpo e o espírito; ele redarguiu, dizendo que nem só de pão vive o homem. Em seguida, disse-lhe existir um só Deus; para me confundir, ele disse existirem dois deuses; no momento em que eu afirmei a existência de três deuses, ele, em argumentação irrefutável, aduziu existir apenas um Deus e que regia tudo o que ocorre no cosmo.
Dizia o "doidim": pai, quando eu entrei na sala, ele disse que tacava o um pão em mim. Respondi que se ele fizesse aquilo, eu dava-lhe uma chibatada com um pedaço de bolo que tava num prato sobre a mesa. Não satisfeito, ele ameaçou-me, dizendo que enfiava um dedo no meu fiofó. Eu disse que enfiava dois no dele. Quando ele disse que me enfiaria três no boga, aí gritei, dizendo que lhe metia o dedão e ainda rodava várias vezes.
E, desde então, o "doidim" e a princesa passaram a viver "felizes para sempre".
Conforme se deduz, a mesma situação fática pode permitir um sem número de interpretações.
Relendo Édipo-rei, uma das tragédias de Sófocles, Etéocles e Polinice condenam o pai incestuoso, enquanto Antígona, irmã dos dois, perdoa o pai por ver em seu (dele) drama a interferência de forças estranhas, provindas da fatalidade, do destino. Para Freud, o episódio nada mais é que uma dentre as muitas pulsões a que se refere.
Eis aí. Tudo na vida é passível de ser interpretado. Bastam as situações, os signos, os símbolos e toda carga de significações que possibilitam. Afora os intérpretes com suas experiências de mundo.
Que os pudicos não interpretem na linguagem chula da historieta algum laivo de vulgaridade. Trata-se de propriedade do uso da linguagem.
A você, minhas homenagens.
Grande abraço.
Hugo Martins
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