quarta-feira, 5 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA – XVIII
                                                       Hugo Martins
            Minha nobre amiga, conforme o prometido, aqui estou à frente da tela (antigamente, dizia-se: debruçado sobre a folha de papel) para mais um enfrentamento redacional com o fito de fazer alguma reflexão de mundo, de vida e de tempo, tudo umbilicalmente ligado à destinação do homem, seja ela como e qual for. Rebater na questão heraclitiana e render-se ao mesmismo ao repetir monocórdio de uma questão que, pelo menos se presume, todo mundo conhece ou por estudar a coisa em manuais de filosofia ou por estar, sem se dar fé, vivenciando a coisa em si, é parecer ser chato e dado ao hábito do lugar-comum. O bem certo é que tempo, matéria e memória são categorias de que homem nenhum escapa. Vamos deixar a questão de lado, pois nosso propósito é outro, é contar uma historieta aparentemente sem importância, de cuja motivação podem exsurgirem reflexões, tendo sempre por ponto fulcral o homem e suas circunstâncias. Pois bem...
            Começo de tarde quente em Fortaleza. Fechamento da aula de grego. Sábado mais que amarelo, parecido com os do poeta espanhol Federico Garcia Lorca. Que fazer? O grupo decidiu sentar-se à mesa de um bar para o livre exercício de jogar conversa fora, aliás atividade das mais agradáveis quando, em meio a goles de cerveja gelada, os assuntos pululam, despertando pequenas discussões em que alguns participantes intentam, como pequenos tiranos e senhores conhecedores da ciência da lógica aristotélica, impor seu ponto de vista, inocular sua opinião mesmo que não embasada num mínimo epistemológico. Nesses momentos, mesmo diante de uma carrada de asneiras impunemente jogado às nossas fuças, a melhor saída é fingir, baixar o cachaço e dizer: “está certo, você tem toda a razão”. Evita-se a perda de tempo e o embate estéril... Pois bem... Pelo meu gosto, a conversa deveria ater-se à língua e à mitologia gregas, sobretudo à última pelo liame que mantém com as investigações da psicanálise pós-freudiana atinente ao inconsciente coletivo. No entanto, o assunto debatido nada tinha a ver com isso, derivou para questiúnculas atinentes ao velho problema do conhecimento vulgar em que se sobressaem os pequenos deslizes da vaidade tola, inútil e oca: trouxe-se à discussão a palavra doutor. É mole? Várias teorias e explicações foram colocadas sobre a mesa. Esqueceu-me dizer que meu amigo Ridendo Sic também tomou parte do simpósio. Enquanto os participantes iam tecendo seus argumentos e enfileirando seus exemplos, ele mantinha aquele sorriso enigmático sob os bastos bigodes, que mais se acentuava à medida que ia entornando copos e mais copos da cerveja gelada. Pois bem...
            Só para recordar: o assunto dizia respeito à questão ontológica do “doutor.” Pois bem... Alguém traz a primeira tese, dizendo que o título só era deferido aos formados em direito, e a deferência era reconhecida por uma espécie de decreto do Imperador Dom Pedro II; alguém ajunta: depois, tal título alcançou médicos e, na sociedade industrializada, estendeu-se a todo portador de diploma conquistado em qualquer instituição de ensino superior... Ridendo Sic trouxe à baila a leitura que fizera de um texto da lavra do escritor português Branquinho da Fonseca. Tratava-se do conto O Barão, em que aquele mordaz escritor narra um episódio em que o tal Barão, passando em frente à Universidade de Coimbra, montado no seu garboso cavalo disse: “meu cavalo formou-se nessa vetusta escola frequentada por tanta gente douta...” Também não é assim, meu caro... Realmente, não era bem assim, disse Ridendo Sic que, a meu ver, fechou o assunto, expondo de modo brilhante como a coisa se dá. Pois bem, enquanto as garrafas serviam os copos, eram estes continuamente abastecidos ao ritmo da exposição de meu dileto amigo...
            Ridendo começou sua exposição com uma afirmação, no mínimo absurda para os circunstantes: todos somos doutores!! Como assim? era o que se desenhava na expressão perplexa de todos. Ridendo, então começou a dissertar: “meus amigos, na Defesa de Sócrates, obra de Platão, conta-se que alguém pergunta ao Oráculo de Delfos, templo dedicado ao deus Apolo, qual o homem mais sábio do mundo. A Sibila diz ser Sócrates. E explica, dizendo que o mestre de Platão dizia que a maior virtude de que o homem dispõe é o conhecimento, mas, paradoxalmente, ele nunca o alcança. Por isso, quando alguém o chamou de sábio, Sócrates respondeu não ser sábio (sófos, doctor), mas um filósofo, isto é, um amigo da sabedoria. Não da erudição, tampouco da cultura, mas um perseguidor constante do conhecimento. ”  “É nesse sentido que digo que todos nós somos filósofos, tudo depende da maior ou menor intensidade com que nos entregamos a essa busca de desvelar o que se esconde na aparência vã de todas as coisas. Para isso, é necessário estudo e reflexão”.  Voilá !
            A tarde acompanhou o carro de Apolo, que partiu, célere, deixando como rastro os primeiros riscos amarelados no horizonte, anunciando o começo da noite...
            Sinto, minha prezadíssima, que Ridendo esgotou o assunto. Se não, não importa. Basta a reflexão, pois, pois. Mais uma, mais uma e mais uma, é sempre um filosofar...
            Um forte amplexo, do seu sempre amigo e admirador.
            Hugo Martins.

           


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