CARTA à AMIGA – XVIII
Hugo Martins
Minha nobre
amiga, conforme o prometido, aqui estou à frente da tela (antigamente, dizia-se:
debruçado sobre a folha de papel) para mais um enfrentamento redacional com o
fito de fazer alguma reflexão de mundo, de vida e de tempo, tudo umbilicalmente
ligado à destinação do homem, seja ela como e qual for. Rebater na questão
heraclitiana e render-se ao mesmismo ao repetir monocórdio de uma questão que,
pelo menos se presume, todo mundo conhece ou por estudar a coisa em manuais de
filosofia ou por estar, sem se dar fé, vivenciando a coisa em si, é parecer ser
chato e dado ao hábito do lugar-comum. O bem certo é que tempo, matéria e
memória são categorias de que homem nenhum escapa. Vamos deixar a questão de
lado, pois nosso propósito é outro, é contar uma historieta aparentemente sem
importância, de cuja motivação podem exsurgirem reflexões, tendo sempre por
ponto fulcral o homem e suas circunstâncias. Pois bem...
Começo de
tarde quente em Fortaleza. Fechamento da aula de grego. Sábado mais que
amarelo, parecido com os do poeta espanhol Federico Garcia Lorca. Que fazer? O
grupo decidiu sentar-se à mesa de um bar para o livre exercício de jogar
conversa fora, aliás atividade das mais agradáveis quando, em meio a goles de
cerveja gelada, os assuntos pululam, despertando pequenas discussões em que
alguns participantes intentam, como pequenos tiranos e senhores conhecedores da
ciência da lógica aristotélica, impor seu ponto de vista, inocular sua opinião
mesmo que não embasada num mínimo epistemológico. Nesses momentos, mesmo diante
de uma carrada de asneiras impunemente jogado às nossas fuças, a melhor saída é
fingir, baixar o cachaço e dizer: “está certo, você tem toda a razão”. Evita-se
a perda de tempo e o embate estéril... Pois bem... Pelo meu gosto, a conversa
deveria ater-se à língua e à mitologia gregas, sobretudo à última pelo liame
que mantém com as investigações da psicanálise pós-freudiana atinente ao
inconsciente coletivo. No entanto, o assunto debatido nada tinha a ver com
isso, derivou para questiúnculas atinentes ao velho problema do conhecimento
vulgar em que se sobressaem os pequenos deslizes da vaidade tola, inútil e oca:
trouxe-se à discussão a palavra doutor. É mole? Várias teorias e explicações
foram colocadas sobre a mesa. Esqueceu-me dizer que meu amigo Ridendo Sic
também tomou parte do simpósio. Enquanto os participantes iam tecendo seus
argumentos e enfileirando seus exemplos, ele mantinha aquele sorriso enigmático
sob os bastos bigodes, que mais se acentuava à medida que ia entornando copos e
mais copos da cerveja gelada. Pois bem...
Só para
recordar: o assunto dizia respeito à questão ontológica do “doutor.” Pois
bem... Alguém traz a primeira tese, dizendo que o título só era deferido aos
formados em direito, e a deferência era reconhecida por uma espécie de decreto
do Imperador Dom Pedro II; alguém ajunta: depois, tal título alcançou médicos
e, na sociedade industrializada, estendeu-se a todo portador de diploma conquistado
em qualquer instituição de ensino superior... Ridendo Sic trouxe à baila a
leitura que fizera de um texto da lavra do escritor português Branquinho da
Fonseca. Tratava-se do conto O Barão, em que aquele mordaz escritor narra um
episódio em que o tal Barão, passando em frente à Universidade de Coimbra,
montado no seu garboso cavalo disse: “meu cavalo formou-se nessa vetusta escola
frequentada por tanta gente douta...” Também não é assim, meu caro... Realmente,
não era bem assim, disse Ridendo Sic que, a meu ver, fechou o assunto, expondo
de modo brilhante como a coisa se dá. Pois bem, enquanto as garrafas serviam os
copos, eram estes continuamente abastecidos ao ritmo da exposição de meu dileto
amigo...
Ridendo
começou sua exposição com uma afirmação, no mínimo absurda para os
circunstantes: todos somos doutores!! Como assim? era o que se desenhava na
expressão perplexa de todos. Ridendo, então começou a dissertar: “meus amigos,
na Defesa de Sócrates, obra de Platão, conta-se que alguém pergunta ao Oráculo
de Delfos, templo dedicado ao deus Apolo, qual o homem mais sábio do mundo. A
Sibila diz ser Sócrates. E explica, dizendo que o mestre de Platão dizia que a
maior virtude de que o homem dispõe é o conhecimento, mas, paradoxalmente, ele
nunca o alcança. Por isso, quando alguém o chamou de sábio, Sócrates respondeu
não ser sábio (sófos, doctor), mas um filósofo, isto é, um amigo da sabedoria.
Não da erudição, tampouco da cultura, mas um perseguidor constante do conhecimento.
” “É nesse sentido que digo que todos nós
somos filósofos, tudo depende da maior ou menor intensidade com que nos
entregamos a essa busca de desvelar o que se esconde na aparência vã de todas
as coisas. Para isso, é necessário estudo e reflexão”. Voilá !
A tarde
acompanhou o carro de Apolo, que partiu, célere, deixando como rastro os
primeiros riscos amarelados no horizonte, anunciando o começo da noite...
Sinto, minha
prezadíssima, que Ridendo esgotou o assunto. Se não, não importa. Basta a reflexão,
pois, pois. Mais uma, mais uma e mais uma, é sempre um filosofar...
Um forte
amplexo, do seu sempre amigo e admirador.
Hugo
Martins.
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