CARTA à AMIGA - XXVI
Hugo Martins.
Minha cara,
Foi ela, sim. Foi ela que plantou na minha alma, então sáfara, a semente desencadeadora do amor às letras. Foi ela, foi ela sim, que repassou, pelo exemplo, o gosto por viajar nas asas da imaginação, pelo mundo feérico das letras, fuçando os mistérios, grandiosos ou mesquinhos do cosmo, tomada esta palavra em sua acepção primitiva como antônimo de caos conforme deixaram claro em sua mitologia os povos da Antiguidade Clássica, que plasmaram os sólidos alicerces da cultura ocidental. Talvez não tivesse ela a consciência epistemológica de sua influência sobre meu espírito. Havia, isso sim, uma acesa intuição de que a leitura é o instrumento mais eficaz para a formação do espírito de um homem e, por decorrência, de um povo. Que o digam franceses e alemães, senhores de rica literatura, de sólida formação filosófica e de visível vocação humanística em todos os níveis.
Não era ela portadora de títulos acadêmicos. Não frequentou universidades. Viveu um tempo em que o lugar de mulher era outro bem conhecido de nossa cultura patriarcalista. Ainda assim, por influência do pai, homem dado às ciências humanas, coisa herdada de sua condição de ex-seminarista, desenvolveu, por autodidatismo, forte pendor para a convivência com os livros.
Recebeu do Estado concessão para abrir em sua própria casa uma sala de aula, em que ensinava as primeiras letras e preparava alunos para o exame de admissão ao ginásio. Aposentou-se como professora de grupo escolar.
Sempre estava com um livro na mão. Ler, para ela, constituía-se num prazer que se via no brilho dos olhos, bem como numa espécie de nirvana em que mergulhava numa languidez prazerosa de quem vivenciava um sonho de que não desejava sair. Muitas vezes, menino de calças curtas de suspensório, acompanhei-a em seus périplos pelas casas de amigas na cidadezinha em que vivíamos, à procura de trocar livros ou tomar alguns de empréstimo. Foi nesse tempo que entrei em contato, pela primeira vez, com a palavra romance, sem imaginar que essa espécie literária iria fazer parte de minha vida futura.
Éramos muitos os filhos. Todos, sem exceção, desenvolveram o hábito da leitura, guardadas as devidas idiossincrasias.
Gozava eu, sem perder a essência de menino, a fama de, vez por outra, encostar-me num canto da casa ou refugiar-me nos lugares isolados do alpendre, sobraçando revistas em quadrinhos ou livros de Lobato a fim de neles mergulhar e fugir um pouco do mundo concreto para embrenhar-me em aventuras com índios ou cowboys, ou sentar-me no alpendre da casa de Dona Benta para participar de seus Serões, ouvir as Histórias de Tia Nastácia e, também, tomar parte nas aventuras de Pedrinho, Narizinho e da boneca Emília...
Foi ela, sim, que me viciou nessa droga que provoca lombra eterna. Foi ela, com certeza, minha admirável e inesquecível professora... Às vezes, quando deparava com uma palavra cujo significado desconhecia, ia a ela. Ela dizia: "leia a frase". Resolvido. Com o tempo, repassou-me o hábito de consultar dicionários. Sou viciado na consulta a eles.
Ora, quando me perguntam o nome de um professor que mora nas minhas lembranças, não posso ser injusto e declino o nome de alguns, mas coloco na cabeça da lista o nome de minha mãe. Razões? Já explicitadas...
Creio tenha tido ela muita influência na escolha profissional que fiz. Sou professor... Isso basta. E minha mãe sabia disso. Quando estava em dúvida entre Letras e Direito, fui a ela. Orientação: siga as determinações do seu coração. Deu certo e sou muito grato à minha professora de primeiras letras e de primeiros passos nas letras.
Isso o tempo não apaga...
Não era ela portadora de títulos acadêmicos. Não frequentou universidades. Viveu um tempo em que o lugar de mulher era outro bem conhecido de nossa cultura patriarcalista. Ainda assim, por influência do pai, homem dado às ciências humanas, coisa herdada de sua condição de ex-seminarista, desenvolveu, por autodidatismo, forte pendor para a convivência com os livros.
Recebeu do Estado concessão para abrir em sua própria casa uma sala de aula, em que ensinava as primeiras letras e preparava alunos para o exame de admissão ao ginásio. Aposentou-se como professora de grupo escolar.
Sempre estava com um livro na mão. Ler, para ela, constituía-se num prazer que se via no brilho dos olhos, bem como numa espécie de nirvana em que mergulhava numa languidez prazerosa de quem vivenciava um sonho de que não desejava sair. Muitas vezes, menino de calças curtas de suspensório, acompanhei-a em seus périplos pelas casas de amigas na cidadezinha em que vivíamos, à procura de trocar livros ou tomar alguns de empréstimo. Foi nesse tempo que entrei em contato, pela primeira vez, com a palavra romance, sem imaginar que essa espécie literária iria fazer parte de minha vida futura.
Éramos muitos os filhos. Todos, sem exceção, desenvolveram o hábito da leitura, guardadas as devidas idiossincrasias.
Gozava eu, sem perder a essência de menino, a fama de, vez por outra, encostar-me num canto da casa ou refugiar-me nos lugares isolados do alpendre, sobraçando revistas em quadrinhos ou livros de Lobato a fim de neles mergulhar e fugir um pouco do mundo concreto para embrenhar-me em aventuras com índios ou cowboys, ou sentar-me no alpendre da casa de Dona Benta para participar de seus Serões, ouvir as Histórias de Tia Nastácia e, também, tomar parte nas aventuras de Pedrinho, Narizinho e da boneca Emília...
Foi ela, sim, que me viciou nessa droga que provoca lombra eterna. Foi ela, com certeza, minha admirável e inesquecível professora... Às vezes, quando deparava com uma palavra cujo significado desconhecia, ia a ela. Ela dizia: "leia a frase". Resolvido. Com o tempo, repassou-me o hábito de consultar dicionários. Sou viciado na consulta a eles.
Ora, quando me perguntam o nome de um professor que mora nas minhas lembranças, não posso ser injusto e declino o nome de alguns, mas coloco na cabeça da lista o nome de minha mãe. Razões? Já explicitadas...
Creio tenha tido ela muita influência na escolha profissional que fiz. Sou professor... Isso basta. E minha mãe sabia disso. Quando estava em dúvida entre Letras e Direito, fui a ela. Orientação: siga as determinações do seu coração. Deu certo e sou muito grato à minha professora de primeiras letras e de primeiros passos nas letras.
Isso o tempo não apaga...
De seu sempre admirador,
Hugo Martins
Hugo Martins
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