domingo, 16 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA – XXI
                                           Hugo Martins
Minha cara, a pergunta que você me faz sobre o ato de escrever pode estar respondida no texto a seguir. Escrevi-o faz alguns meses e retrata minha concepção limpa e seca acerca do assunto, sem tirar nem pôr. Sempre fui de opinião que ler e escrever são atos que andam de mãos dadas. Pelo primeiro, viajamos, conhecemos novos mundos, novas pessoas, outros olhares, novas visões, além de experimentarmos novas e novíssimas aprendizagens. Se pela leitura desvendamos o mundo, pela escritura revelamos nossa maneira bem personalíssima de revelá-lo. Aliás, em texto escrito há algum tempo, defendo que a obediência às normas gráfica resulta do fotografar as palavras no ato de ler. Do mesmo modo, este ato tão simples, tão barato, tão cheio de encantos não passa de fotografias mentais, que, repassadas para o papel, revelam o que vai de nossas visões acerca de aspectos e retratos do mundo.
Ao terminar de ler o texto a seguir, não alimente nenhuma dúvida sobre o que penso do assunto. Tudo muda, tudo passa, tudo perece. Posso escrever outro texto sobre o ato de escrever diferente do que está à sua vista, mas a concepção ou o enfoque dado à coisa, penso eu, não mudará em nenhuma vírgula. Disso tenho certeza.
Devemos ler toda espécie de texto. Não importa se uma revista em quadrinhos ou um alentado tratado de filosofia; não importa se um almanaque de piadas ou episódios do Antigo ou do Novo Testamento. Mas deve-se ter mais olhos para o texto literário porque ele congrega todos os níveis de linguagem e traz em seu bojo todas as filosofias, todas as sociologias, todas as psicologias, todos os encantos e desencantos do mundo. Traz o homem sob todas as óticas. Afora o divertimento sem par que ele nos proporciona. Uau!
Aí vai a coisa, captada pela visão de meu alter ego, o guru que não me regateia novas lições.
Grande abraço e o desejo de que o texto lhe caia bem na alma sensível.
Francisco Hugo.


 O GURU
                                                       Hugo Martins

            Escrevi a Ridendo Sic, perguntando-lhe se, para produzir alguma coisa com aparência de texto, o sujeito precisa escorar-se em alguma “inspiração.” Hoje recebi carta sua. Aí vai o que ele pensa.
            “Bom dizer que, se se trata de criação literária, existem dois tipos de escritor: de um lado, o da inspiração; de outro, o da transpiração. No rol dos primeiros, inscreve-se o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Em suas memórias, Itinerário de Pasárgada, confessa haver perdido muitos versos, pois, quando assediado pela inspiração, em situações insólitas, não dispunha de uma caneta ou lápis. Na mesma obra, invoca o fato de certa ocasião, estar lendo a Ciropédia (obra sobre a Pérsia) e ter a alma invadida por uma vontade incontrolável de pôr termo à vida, rabiscar o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” e nada mais sair. Só depois de sete anos, experimentando a mesma sensação, o restante do poema saltou-lhe do espírito em borbotões. Ressalte-se que inspiração não deve ser vista como resultado de dores corriqueiras do cotidiano, é necessário ter e saber o que dizer. O sujeito deve, como diz Drummond, andar armado com palavras para não incidir no equívoco daquele que verseja “por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. No segundo rol, encontra-se o também pernambucano João Cabral de Melo Neto, que deixava nas entrelinhas a regra “dê-me o tema que eu faço o poema”. É o poeta de gabinete, em muito semelhante àquele que se refere Bilac no soneto A um Poeta, que, para escrever, deve refugiar-se “ao aconchego do claustro” e encetar combate consigo mesmo na busca insana do dizer com precisão e propriedade.
            Tanto na poesia quanto na prosa, porém, o escritor costuma promover mondas ao texto. Cortar palavras, desentortar frases, acrescentar, reescrever passagens até que o espírito se sacie do ato criativo. Eça de Queirós dizia reescrever uma só página mais de cinco vezes. Para apurar o estilo, Balzac respondia, de punho próprio, a todas as cartas enviadas por seus leitores. É a síndrome do perfeccionismo comum aos bons escritores...
            No entanto, quando se trata da feitura de texto sem preocupações estéticas, não se faz necessário nenhum tipo de inspiração. Basta a reflexão, a disciplina intelectual, o ter o que dizer, o dispensar atenção à clareza, à precisão, à propriedade vocabular e, por último, enxotar a preguiça e lançar-se à obra com todo denodo.
            Engana-se quem diz ser tarefa difícil escrever um texto. Difícil mesmo é convencer-se de que o escrever supõe o ler. São atos que andam de mãos dadas. Com a leitura, o indivíduo vai se assenhoreando das acontecências da vida e se familiarizando com os torneios sintático-semânticos, sempre recorrendo ao dicionário para desvendar sentidos e grafias vocabulares. O escrever é comparável ao ato de quem pretende andar de bicicleta. Depois de vacilações, medos e quedas, o sujeito vai, aos poucos adquirindo a coragem de enfrentar a solidão da folha em branco e, com o tempo, passa a dominar um modo próprio, a ser dono de um estilo.
            Considero a leitura ou a redação de um texto atividades mais temerárias que resolver um problema de matemática. O visgo das palavras, as intenções que se escondem por trás delas, o destrinçar de um texto, o arrumar as palavras no ordenamento sintático a fim de que traduzam o que mais se aproxima do que se pretende dizer, é tarefa dolorosa e que requer muito esforço e amor à leitura. A propósito lembro um livro de Othon M. Garcia- Comunicação em Prosa Moderna-, com o subtítulo Aprenda a Escrever Aprendendo a Pensar. Livro de cabeceira para todo aquele que deseja aventurar-se no ato de escrever. Não se trata de manual inédito sobre o assunto. Obra séria a que recorre todo aquele que lida com a faina de redigir e extremamente útil a quem deseja garatujar folhas de papel com algum sentido e alguma correção.
            Aliás, considero desnecessário o “ensinamento” de professores de redação. Não se ensina ninguém a escrever por meio de fórmulas nem por intermédio de regrinhas de acentuação gráfica e do sistema ortográfico em vigor. Necessário: ler, pensar, escrever e reescrever.  O mais não passa de conversa fiada.
            Não me consta que os grandes escritores e redatores da língua tenham sido excelentes alunos da língua portuguesa. Foram, antes de tudo, empedernidos leitores.”
            Após a leitura da missiva, meditei e nada pude acrescentar algo de novo àquelas idéias... Lembrei, porém de duas frase lapidares; uma de Monteiro Lobato e outra de Castro Alves, as quais transcrevo, por ordem:
            “Um país se faz com homens e livros”
            “Bendito o que semeia livros, livros a mancheia, e manda o povo pensar.”
           

              

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