sexta-feira, 28 de outubro de 2016

LEITURA E DESAFIO
Hugo Martins
Qualquer texto é passível de variadas leituras. Em outras palavras: nele há significações que vêm à tona de conformidade com as experiências do leitor, bem como as leituras de mundo levadas a efeito por aquele. No sintagma Pato Donald versus sobrinhos, é visível a chamada pedofilia: quem é o pai das crianças? Por que Donald é tio dos patinhos? Por que o namoro de Donald com Margarida não progride, se é que existe o relacionamento afetivo? Por outro lado, se se analisar o sintagma família Donald versus Tio Patinhas, aí se verá a relação trabalhista neoliberal, em que o primeiro representa a classe dominante, e o segundo, o proletariado. Ou, de acordo com a terminologia marxista: de um lado, o explorador; de outro, o explorado.
Ora, se alguém disser que Jesus Cristo é pedófilo, uma chusma de moralistas e hipócritas afins podem desancar o pretensioso e a ele aplicar toda sorte de adjetivos pejorativos e insultuosos. Ora, as palavras assumem colorações semânticas variadas no devir histórico. Literalmente, a palavra pedófilo, de étimo grego, reúne dois radicais: o primeiro significa criança, o mesmo que aparece na palavra pedagogo (o que conduzia a criança à escola); e o outro que significa amor, que aparece na palavra filosofia, filatelia e filarmônica, por exemplo. “Sinite parvulos venire ad me” Deixai que os meninos se cheguem a mim), frase com que o Cristo derrama toda sua ternura pelas crianças. Hoje, na sociedade perversa em que vivemos, a palavra pedófilo assumiu outra roupagem semântica e designa aquele que comete o crime, cuja definição encontra-se, em parte, no art. 214 do Código Penal. As palavras são iguais a camaleões. Dependendo do ambiente em que se acham, podem recorrer a mimetismos aparentemente inexplicáveis. Eis por que a leitura é atividade intelectual para lá de agradável, além de reveladora das nuances do real. O leitor há de enfrentar desafios...

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