CARTA à AMIGA – XX
Hugo Martins
Minha cara,
Há tempos venho me empanturrando com mitologia clássica. Sobre ser assunto encantador, também propicia ao leitor largas chances de proceder a novas interpretações, sobretudo quando se trata de releituras. É por isso que alguém já afirmou, categoricamente, que nunca se deve perguntar a seu fulano o que está lendo, mas, sim, o que está relendo. Com efeito, a releitura parece ter o condão de lançar novas luzes aos fatos e seus corolários, deixando o releitor (não é neologismo, processo de formação possível no paradigma nominal) sempre desconfiado de que o texto está dizendo algo mais além do que está à sua superfície. Todo leitor é um Procusto, aquele sujeito que era dono de um leito em que deitava suas vítimas, que deviam se adequar ao comprimento da sinistra cama. O que passasse do limite, ele cortava; o que faltasse, era completado pelo estiramento de algum membro ou parte do corpo. Existe muita gente assim. Olha aí a mania da interpretação! Pois bem, o leitor adapta ao seu “leito” a interpretação que melhor lhe surdir da alma. E a releitura está sempre a mexer com o leitor, incitando-o a encontrar outras significações (ressignificações) e outros mistérios ocultos no bojo do texto.
Veja você que as duas epopeias homéricas são um bom exemplo. Diz-se, por exemplo, que a Guerra de Tróia durou dez anos, mas Homero só lhe narra o último ano. Não seria tempo demais levar-se a efeito uma guerra daquelas proporções apenas por causa do rapto de uma mulher? Não haveria algo de mais grave, como, por exemplo, as guerras de pilhagem? Em muitos episódios, veem-se alguns “heróis” se vangloriando de haver se apoderado de bens de algum vencido. Até mesmo a retirada do grande Aquiles dos combates se deveu a uma “partilha” em que se incluíam as escravas Briseida e Criseida. Agamenon, tendo perdido a sua, que era protegida de um deus, tentou se apropriar da escrava que coube a Aquiles. Afora isso, há os estereótipos, como os arrebatamentos e coragem de Aquiles, as astúcias de Ulisses, a dignidade de Heitor e a ternura de Ândromaca ou, ainda, a fidelidade de Penélope, o que se tem mesmo são as ações humanas colocadas em segundo plano para dar lugar à interferência dos deuses.
É sabido que, ao nascer, Aquiles, seguro pelos calcanhares, foi mergulhado por sua mãe nas águas do rio Estige para se tornar invulnerável. Ora, os tornozelos, envoltos pelas mãos da ninfa marinha Tétis, mãe do homem “dos pés ligeiros", deixou Aquiles vulnerável numa minúscula geografia do corpo. Pois bem, quando o solerte Páris, ciente disso, mirou sua flecha no calcanhar do herói, a seta alcançou seu alvo não pela destreza do raptor de Helena, mas porque o deus Apolo “conduziu” a coisa ao destino certo, ocasionando a morte de Aquiles conforme prevista pelo oráculo.
Terminada a guerra de Tróia, Ulisses gastou dez anos para chegar à ilha de Ítaca. Netuno o perseguia porque o astuto Ulisses havia perfurado o só olho do ciclope Polifemo, filho do deus marinho. Na ilha, uma centena de homens assediavam a mulher do herói. Para se livrar deles e recobrar a paz familiar ao lado da esposa e do filho Telêmaco, Ulisses, sem precisar recorrer à sua antológica esperteza, conseguiu tudo muito facilmente. Matou todos os pretendentes, afinal tinha a seu lado a deusa Minerva (na versão romana) ou Palas Atenas (na versão grega). É o mesmo que dizer: para ser herói basta estar sob a proteção de um deus.
O que tem de bom na mitologia clássica, a nosso aviso, é que lá os homens foram criados mesmo à semelhança dos deuses: hipócritas, dissimulados e mentirosos. Nada lembra o deus dos cristãos, que é perfeito, mas, paradoxalmente, criou o homem à sua imagem e semelhança. Em que versão: física, espiritual? Reflexão que a leitura da mitologia em nós provoca. Zeus era infiel, dissimulado e mentiroso. Não é o caso do deus hebraico. Ambos são pais arquetípicos.
Muitos episódios da mitologia clássica, sobretudo coisas atinentes à cultura grega, estão estampados em algumas tragédias de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, sem falar nas comédias de Aristófanes. A meu dispor, eis algumas: Prometeu Acorrentado, Édipo Rei, Medéia, As Nuvens, Alceste Hipólito, Electra, Eumênides, Os Persas e outras mais... Todas hão de passar pelo meu crivo... A leitura de comentários, prefácios e apresentações em muito auxiliam o leitor. Nada contra... A literatura teatral é também de meu muito agrado. Grande parte da tragédia grega tem sua raiz nos poemas de Homero...
Depois escrevo a você falando de algumas delas e sobre a importância que guardam no estudo de psicanalistas e curiosos outros do que vai nos escaninhos das instâncias mentais.
Esta é a vigésima missiva, afora os bilhetinhos enviados a você. Já sinto alguns pruridos para retomar a matéria memorialística que vinha desenvolvendo... Vou esperar o momento certo. Enquanto isso, vou fuçando obras que tratam da mitologia diretamente, com narrativas, revivências e análises. Estou findando, hoje, ao cair da madrugada, As 100 Melhores Histórias da Mitologia. Todos os livros aqui citados ficam como espécie de sugestão para que você se inicie no assunto. Não se pode estudar a cultura e as letras clássicas sem lhe conhecer a mitologia.
Deixo-lhe um forte abraço e, como sempre, os votos sinceros de que esteja feliz à sua maneira, sem precisar da permissão de ninguém.
Seu criado,
Francisco Hugo.
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