segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA- XVII
Hugo Martins
Minha nobre amiga, em determinadas aulas sobre o emprego metafórico das palavras, costumava eu trabalhar com letras do nosso cancioneiro popular. Procedia à leitura, bem como a todas as análises possíveis: em primeiro lugar, trasladava-se o texto para a ordem direta dentro dos mais sãos princípios da nossa sintaxe latina; em seguida, caçávamos as tiradas estilísticas, aquelas em que o poder criativo do artista mais se acentua, quando, por exemplo, Chico Buarque, na canção Januária, pretendendo, foneticamente, tirar proveito de fonemas chiantes para sugerir o chuá-chuá das ondas quebrando na areia do mar, recorre ao J do título da canção, bem como o G, de gente, H, de homenageia, J, de janela, CH, de cheia e de chegar... Assim temos” “Toda gente homenageia Januária na janela, até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela...” Isso sem contar a pronúncia do pessoal do Sudeste que “até o mar faz (fais) maré cheia”. E aí vai... Experimente ler a letra em voz alta e verá que o vaivém ritmado nas ondas quebrando na praia tocam seus ouvidos. Né não? A língua portuguesa abre grande oportunidades de achados estilísticos para quem dela se aproxima com jeito.
Noel Rosa, poeta de sensibilidade à flor da pele e atilada intuição para as possibilidades expressivas da língua, construía tiradas sintático-semânticas que deixam qualquer apreciador de queixo caído e se perguntando: “como é que um sujeito desses, que só viveu vinte e sete anos e só mostrou sua veia artística no espaço curto de apenas cinco anos, em meio ao estudo da boêmia, em cuja biblioteca só se encontravam a mesa de bar, o violão, as noites, em
que ele e os amigos “pastoreavam tais noites com seus cajados de aguardente”, consegue tais feitos? “Sambar é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia dentro da melodia”, outro verso magistral do poeta da Vila. Eis o segredo da criação artística. Um verso como “as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti” saiu da boca de um limpador de carros, habitante do morro da Mangueira. Sensibilidade não se compra, ela está e brota. Diz João Nogueira, no samba Poder da Criação, “é faz pensar que existe uma força maior que nos guia, que está no ar, bem no meio da noite, no clarão do dia. Chega nos angustiar. E o poeta se deixa levar por essa magia, e o verso vem vindo...” 
Você me perguntará por que estaria eu fazendo tais reflexões. Eu repondo. Primeiro porque, se o Brasil tem alguma coisa que presta, eu diria que nossa música nada fica a dever a ninguém; segundo, porque o povo brasileiro, em sua grande maioria desconhece a autêntica música nacional, das suas raízes aos dias atuais. Ele não tem culpa disso. Existem, com certeza, estratégias malignas para apagar o prestígio de nossa música e se impor ao povão o suprassumo do mau gosto, da mediocridade e da apreciação monocórdia, determinada pelos meios de comunicação de massa. Por fim, porque, assistindo, num vídeo, à fala do poeta paraibano Ariano Suassuna, um crítico mordaz do discurso bestialógico dos meios de comunicação de massa, dizia: “ Sou um cultor da língua portuguesa. Tenho-a como instrumento de trabalho. Mas fiquei estarrecido ao ouvir um jornalista chamar um tal de Ximbinha de “gênio”. Aí eu me perguntei qual adjetivo vou, daqui por diante, aplicar a Beethoven? ” Essa reflexão lancinante de Suassuna serviu-me de motivo para compor esse textículo. Mera brincadeira. Por força do hábito de escrever como compulsão. Estava sentado ao birô, lendo uma obra magistral sobre Mitologia Grega, paixão que estou apaziguando ao enfileirar, para ler, onze obras sobre o assunto, quando uma força estranha começou a me empurrar para o computador. Ora, já tinha lido vários mitos, envolvendo deuses, deusas, heróis, titãs, cenas engraçadíssimas e, por isso, dizia pra mim mesmo: não vá agora: assisti a Teseu matando o Minotauro, ao drama de Narciso, às safadezas de Zeus com as ninfas Europa e Io, aos ciúmes de Hera, ao rapto de Prosérpina, vi Apolo assediando Dafnes, presenciei, comovido, o sofrimento de Orfeu, quando Vulcano raptou sua amada Eurídice, e tantas e tantas histórias que nada mais são que a interpretação da maneira de ser do homem. Sim, porque os homens foram criados, na mitologia clássica, à sombra e à semelhança dos deuses pagãos. Pois bem, mesmo envolvido nesse torvelinho de "causos” de rara emoção, não cedi aos apelos do espírito e aqui estou fechando mais um textículo para você.
Felicidades mil. Votos meus, sempre.
Francisco Hugo.

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