PALHAÇOS
Hugo Martins
No decorrer de aula expositiva, dois
alunos discutem e um chama o outro de palhaço. O professor para de escrever no
quadro, volta-se para a turma, depõe o giz sobre o birô, e diz: “meu amigo,
mais respeito, por favor”. O aluno, apontando para o colega a quem chamara
palhaço, aduz: “professor, foi ele que começou.” O mestre, então, desfaz o
equívoco, dizendo: “não me refiro a nenhum dos senhores. O respeito que exijo é
com relação ao palhaço. Esse é um epíteto que não deve ser aplicado a qualquer
pessoa. Esta tem que ser grande, sobretudo, quando diante dos problemas da
vida, lança mão de todos os meios para tornar o mundo lugar mais interessante
de se viver. E isso ele faz provocando o riso desabrido, que denota alegria
interior gratuita ou provoca reflexões de toda ordem, quando coloca o homem em
situações de ridicularia e de abandono à sua própria insignificância”. Essa
explanação só muito mais tarde, já homem feito e viajado na vida, ecoou na minha
alma, hoje calejada, mas, na época, ainda presa às reflexões fúteis e paciente
de estreita e rasa visão de mundo...
Lembra-me
que, na minha mais tenra infância, quando se falava de ir ao circo, a primeira
coisa que vinha à mente era a figura do palhaço. Quando entrava no picadeiro,
já despertava risos. Cabeçorra ladeada por raros cabelos, de regra, encoberta
por um chapéu, que parecia ali estar para emprestar ao semblante do artista
maior dose de comicidade grotesca. Camiseta trespassada por dois largos
suspensórios, os quais sustentavam largas calças de fundo frouxo, trazendo, à
moda cós, em torno da cintura, uma espécie de argola, que deixava a impressão
de que seu portador estava solto dentro de indumentária tão insólita. Nos pés,
sapatos que em muito lembravam duas miniaturas de avião com a frente apontada
para cima como se fosse decolar. Às vezes entravam dois ou três. No meio do
picadeiro, encenavam situações em que se exaltava a astúcia, a capacidade de
tirar proveito da ingenuidade do outro. Isso levava o público a grandes
gargalhadas. Quer dizer, o sofrimento, o não se enquadrar às regras das
matreirices da vida eram situações ali postas com a intenção de colocar o ser
humano face a face consigo mesmo. Havia também as piadas. Dependendo do status
do circo, poderiam enveredar pelo estilo “inteligente” ou derivar rumo à “imoralidade”.
Como espectador, sempre os vi ser aplaudidos pela dosagem de “putaria” com que
maquiavam as anedotas...
Muitos
atores cinematográficos, antes de alcançar alguma fama na arte da comicidade e
do burlesco, passaram pelo circo. No Brasil, Carequinha é bom exemplo. Sua
influência era tamanha, que era aproveitado, no rádio e na televisão, como
agente da pedagogia da época. Antes, servira de personagem de revista em
quadrinhos, coadjuvado por outro de nome Arrelia. Hoje, os palhaços tornaram-se
como que obsoletos. A indústria cultural os engoliu e eles migraram para telas
de cinema e televisão.
A chamada genialidade
do ator inglês Charles Chaplin toda se traduz na indumentária, na gestualidade,
no caminhar, no esboçar um sorriso que não exprime alegria interior, mas
mistura desencanto e decepção com o gênero humano. Afora as situações insólitas
em que Carlitos se envolve, nas quais se sobressaem episódios insólitos e
tragicômicos, em que se pode vislumbrar uma miscelânea de paixões humanas que
se constituem num grande espelho em que o espectador se vê refletido, impotente
para esboçar qualquer reação para desfazer aquela trágica miragem real. O ato
de rir não está no espectador, mas no palhaço Charles Chaplin, que, conhecedor intuitivo
da psicologia social, faz do homem um fantoche, uma marionete, facilmente manobrável
pelas paixões grandes e mesquinhas. Desfilam na tela os poderosos, seja o
policial, seja o ditador; perpassam por nossos olhos, o riso universal, que não
perdoa o modo político do organizar a sociedade sob os auspícios de teorias em
que os grandes exploram os pequenos; assiste-se à ingratidão personificada;
vê-se a funda tristeza do artista talentoso, obrigado a renunciar à sua vocação
por haver chegado à velhice. E outros temas em que a pequenez humana sempre
toma vulto. O maior deles: a solidão, metaforizada no sorriso amarelo sem
graça, inutilmente encoberto, a medo, pela mão em forma de pinha. Além disso,
no final da película, o personagem está sozinho, de costas para o espectador e
se dirigindo para destino incerto na infinitude da paisagem.
Só agora se
pode refletir na gravidade das palavras daquele professor, admoestando a
impropriedade de se empregar pejorativamente a palavra palhaço para designar
comportamento presumivelmente moleque. O palhaço vai além disso tudo. Ele é,
sobretudo, um animal que ri e faz rir. É o bastante.
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