sábado, 17 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA - XII
Hugo Martins
Minha prezada amiga
Respondendo à sua indagação acerca de meu interesse pelo estudo da língua latina, envio o textículo a seguir. Poderá ele servir de reflexão acerca das muitas bobagens que se diz sobre estudar línguas clássicas. Leia o texto e tire as conclusões mais plausíveis que possam exsurgir de suas próprias reflexões. As minhas aí estão. Bom proveito...
Dizer que o latim é língua morta enseja discussão de que devem surgir como bem-vindas multifárias reflexões. Seria mais sensato dizer que a língua do Lácio adquiriu outras facetas, hoje pespegadas às chamadas línguas neolatinas como, por exemplo, o italiano, o francês, o português e o espanhol.... Outro ponto sobre que refletir é relevar o fato histórico de que o latim pode ser chamado de língua morta em relação à cultura clássica da Roma antiga. Outro ponto a ponderar é que o latim, como qualquer idioma, possui sua modalidade culta (sermo urbanus) e a modalidade coloquial ou familiar ( sermo vulgaris, plebeius ou rusticus). Em outras palavras, de um lado, a língua cultivada pelas classes ditas letradas; de outro, a língua falada pelas classes populares, sem acesso aos bens culturais... A primeira modalidade, é ensinada nos seminários da igreja católica, nas faculdades de letras ou pode servir de deleite intelectual aos curiosos de toda sorte. O outro registro, interessa mais de perto a filólogos, etimologistas e pesquisadores da evolução daquele idioma em seus aspectos diacrônicos, isto é, na evolução e transformação por que passam as palavras/vocábulos no decorrer da História.... Desse modo, é honesto afirmar-se que o latim continua vivo nas línguas novilatinas, sendo cultivado, na sua faceta original, enquanto norma culta, no Estado do Vaticano onde é língua oficial nos registros protocolares...
Há um excerto de um livro de Schopenhauer, a que alguém colou o título A Arte de Escrever. Já no primeiro capítulo, o filósofo alemão deplora o fato de que, na Europa de seu tempo, algum iluminado aventou a hipótese de retirar o latim do currículo escolar. Dizia o pensador que, caso ocorresse aquela iniciativa infeliz, adviria, ao longo da História, prejuízo incalculável para as futuras gerações, pois estariam privadas, de algum modo, de pensar com mais clarividência. Veja-se que aqui pela terra tupiniquim conseguiram o intento. Depois, alcançaram também o privar a estudantada do antigo Curso Clássico de estudar filosofia e sociologia. Assim, no Brasil pós-64, as sucessivas gerações foram jogadas no fosso comum dos descerebrados, dos que pensam sob a batuta dos meios de comunicação de massa, os quais determinam as verdades eternas e as verdades efêmeras, desvirtuando a natureza do real e injetando nas mentalidades forte dosagem de preguiça, indiferença mental e alienação.
O sujeito que pretende eliminar gorduras ou emprestar ao corpo linhas apolíneas costuma buscar as legendárias academias de ginástica e se entregar àquelas ingentes tarefas. Há deles que tomam medicamentos ou tisanas químicas para alcançar resultados mais eficazes. Alguns chegam ao cúmulo de injetar nas veias suplementos alimentares desnecessários, e deles há que no organismo injetam até mesmo vitaminas para cavalos. Até aí tudo bem. Argumento pelas doses cavalares: sou dono do meu corpo e faço parte do rebanho dos que que se deixam enfeitiçar pelas ideias dos narcisismos desses tempos de tanto vazio interior. É a tal malhação...
Por que não malhar a mente também? A malhação mental elimina adiposidades e outras matérias... Mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado), estudar a língua latina, mesmo que superficialmente, em muito ajuda não só no aquecimento intelectual para outras empreitadas, bem como também no mero exercício intelectual para recrear o espírito. Nenhuma vantagem se vislumbra nos donos de corpo malhado, se seu cérebro é inerte, sua visão de mundo é ingênua e passa ele pela vida como um cadáver ambulante... Para evitar isso, não se deve titubear. É bom estudar latim. É remédio que traz grandes benefícios.... Inclusive incentiva a leituras outras, bem distantes do lixo cultural, da narcotização das massas.
Desejando que você associe a malhação física à malhação intelectual, envio-lhe todos os votos possíveis de que seja feliz a seu modo.

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