segunda-feira, 19 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – XIV
                                                  Hugo Martins
Mui prezada

Não se trata de uma despedida, mas de um intervalo. Vou passar um tempo sem me corresponder com você. Espero que compreenda. Como é do seu conhecimento, tenho um projeto de escrever textos memorialísticos, cujos primeiros vinte você já leu, aqueles que intitulei de Fiapos da Memória. Durante o tempo em que mantivemos correspondência epistolar, estava eu maturando as ideias e arrumando os tempos que remontam aos meus dez anos de idade, época em que nossa família deixou a cidade de Itapipoca e veio morar em Fortaleza.
Quero parabenizá-la por ter suportado manter nossa comunicação por esse meio de cartas para lá cartas para cá. Bom exercício de estilo, além da vantagem de evitar entregar-se à pressa que caracteriza os tempos de hoje, que polvilham os acontecimentos do efêmero e da sensação de que o presente deve ter sempre o imediato gosto de passado. Não mais se escrevem cartas. Para quê, se a ligeireza do e-mail, do telefone celular e outros artefatos modernos nos colocam vis-à-vis, tirando de nós o gosto de curtir saudades? Hoje tudo é o aqui e o agora. Onde estão os álbuns de retrato, em que o tempo deixa suas marcas e pegadas? Onde o prazer de folheá-los e mergulhar naquilo que se foi, mas continua suspenso nos cabides da memória? Todo velho álbum de retratos, todo pacote de cartas, de regra, amarradas com uma fita, são jogados no fundo de uma gaveta e dormitam esquecidos, só sendo visitados por quem as recebeu e os guardou quando o sopro do tempo carregou os acontecimentos, e a morte emprestou a tudo uma não razão de ser. Cartas escritas à mão, empacotadas ou esparsas no fundo de uma gaveta, bem como álbuns de retrato têm gosto de vida e lembram os “mortos de sobrecasaca” de Drummond, com seus rostos em preto e branco, carcomidos pelas tatuagens do tempo. Eita, estou mais uma vez me tornando nostálgico e curtindo, sem ser o meu desejo, uma pontinha de tristeza por causa das “coisas que o tempo levou”.  Voltemos, pois, à vaca fria...
Voltando eu aos textos de cunho memorialístico, deixarei de lado os fiapos da memória e colocarei em cada um deles o título REMINISCÊNCIAS, conforme já tinha deixado patenteado em outra carta. Pretendo, num primeiro momento, partir daquela idade já aqui assinalada e fechar com meu ingresso na Marinha de Guerra; em seguida, abarcarei o tempo compreendido entre minha saída das forças armadas até meu ingresso na universidade. Depois, as narrativas deverão fluir naturalmente, obedecendo aos fluxos de lembranças que estiverem mais à superfície pelo fato de abarcarem um tempo mais recente.
Nenhum objetivo procuro atingir com a escritura de textos de qualquer natureza. O único fim em vista é o escrever por escrever. Não tenho veleidades de publicar nada tampouco emprestar a mim mesmo a aura de escritor. Sei que não passo de um escrevinhador que reconhece sua falta de talento, por isso não me exporei ao risco, como ocorre com alguns pretensiosos, de publicar o que quer que seja para alimentar vaidades, com noites de autógrafos e discursos louvaminheiros. Tudo isso são veleidades próprias de filisteus. Desejo apenas escrever e escrever como saída catártica e forma de interpretar o mundo e, até mesmo, exercitar o intelecto como não canso de fazer com a leitura de textos de todo jaez.
Assim, amiga, a presente missiva não será a última, mas um marco do momento em que decidi retomar o ato de escrever usando como que um critério, um referencial, que, para mim, são os fatos da vida que vivi e vivenciei numa dada marcha temporal. Só isso.
Quero compartilhar as alegrias que venho experimentando ultimamente. Penso que retomar o estudo da língua grega, fazendo isso em paralelo com os estudos da língua latina, foi uma jogada legal, “massa”. Não posso definir isso. Se definir perde a graça e as espontaneidade e gratuidade de tudo isso poder perder sua própria razão de ser, que é não ter nenhuma razão de ser especial, regida por critérios utilitaristas. Faço isso por aquilo que chamam amor, dos mais puros, que dá sentido à existência, que faz com que percamos alguma cegueira e passemos a enxergar com mais intensa clarividência o que a vida tem de essencialidade. Só isso.
Não só quero, mas compartilho, de coração com você, esses arroubos de alegria e gratuidade sinceras.
Breve estarei por aqui já dando luz ao primeiro texto da nova caminhada. Só não sei quando. Vou dar tempo ao tempo e esperar os primeiros impulsos.
Grande abraço do seu sempre amigo,
Francisco Hugo

  

            

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