CARTA à AMIGA - V
Hugo Martins
Prezadíssima
Tudo bem por
aqui também. Afinal, já estudou com alguma profundidade a questão relativa ao
léxico dos teóricos e críticos relativamente à terminologia que utilizam para
dizer o que é o fazer literário? Ninguém aprende literatura, vivencia-se, namora-se,
casa-se com ela e dela nunca se separa. Diferentemente das uniões entre pessoas,
alvissareiras no começo e entediantes do meio para o fim, a união entre o
leitor e a literatura se torna mais intensa quanto mais a convivência entre
ambos se estreita. E nisso, o amor brota mais estuante; a paixão, pródiga,
difunde-se; e a certeza de que não haverá ruptura em tempo algum é
inquestionável. Ninguém ensina literatura a ninguém. Há de aparecer um
envolvimento, um desejo de dar-se, uma vontade permanente de ficar ao lado
de... Depois é idílio, são confissões, entregas e emoções intensas. O resto é
teoria e cumprimento de obrigações acadêmicas. Há páginas que arrebatam, deixam
o sujeito bestificado, sorrindo à toa, chutando tampinhas e dando urros. Às
vezes, até uma simples frase pode provocar arrebatamentos estéticos. Tudo
depende de sensibilidade, identidade e sintonia espiritual do leitor, por força
da parafantasia, que espicaça emoções, graças ao poder da palavra na sua tarefa
de desrealizar o mundo. Este último verbo, na verdade, é um achado do crítico
literário Eduardo Portela para compreender a literatura como” imitação (mimesis)
da realidade” locução com que Aristóteles dizia a mesma coisa que o brasileiro.
Em outras palavras, quando Fidelino de Figueiredo, crítico português, diz que “literatura
é ficção, criação de uma suprarrealidade com os dados profundos e singulares da
intuição do do artista”, nada mais está fazendo que confirmar o conceito
aristotélico da arte no campo das belas-letras. Assim, a literatura imita a
realidade, mas não fielmente como faz o jornalista quando narra uma notícia. A
realidade aí está. O artista, assentado nela, interpreta-a e cria uma outra
realidade. Um ensaio de um sociólogo sobre o fenômeno da seca nunca pode ser
comparado com romances como Vidas Secas ou O Quinze. Estes constituem ficção.
Aliá, alguém já disse que a literatura é a grande mentira que carreia as maiores
verdades. Por isso, nessa imitação, tendo por fim o desvirtuamento do real com
vistas ao alcance da beleza, o artista recorre a artifícios e brigas homéricas
com as palavras de modo que tudo resulte na criação de mundos aceitáveis. O
artista é semelhante ao louco e à criança, um eterno insatisfeito com a maneira
como o mundo é organizado. Por isso imprime nele mudanças com as quais ninguém
discorda. Não é fácil aceitar Dante e Virgílio peregrinando pelas instâncias do
inferno, do purgatório e do paraíso. Não é fácil um defunto, do outro lado do
mistério, compor suas próprias memórias. Não é fácil um sujeito gastar dez anos
numa viagem pelo mar, rumo ao coração de sua doce amada, por estar sendo
perseguido por um deus. Mas é aceitável. Tanto é que tais narrativas aí estão
respirando os ares da eternidade. Pois bem. Quem instaura todo esse mundo de
sonhos, encantamentos e possibilidade é a metaforização, a violação do sentido
originário da palavra seja na sua acepção, seja na sua estrutura, seja na
ambiência da frase. Vejamos alguns exemplos.
Caetano
Veloso, na letra da canção Sampa (olha a intimidade!), dá uma definição da
cidade de São Paulo absolutamente insólita e duma beleza indescritível.
Primeiro trata a cidade por TU, em seguida, diz ser ela “o avesso, do avesso,
do avesso, do avesso”. Há melhor conceito para uma cidade caótica e
cosmopolita? Noel Rosa, referindo-se ao olhar de uma mulher diz que ela tem “nos
olhos um não sei quê”. Que quê é esse? O que não se pode definir? Chico Buarque,
no realismo fantástico da letra de João e Maria, põe às claras todo o
encantamento, todo o sonho do mundo das crianças em que uma delas “andava nua
pelo meu país” e tinha uma só obrigação “ser feliz”. Alguma coisa mais
identificável com a pureza das crianças? A felicidade, coisa difícil de se
definir, é vista por Vinícius de Moraes como “uma gota de orvalho numa pétala
de flor; brilha tranquila, depois, de leve, oscila, e cai como uma lágrima de amor”.
Seria algo insustentável, bailando na leveza do ser? Na música Maria Bonita, cantada pelos
cangaceiros, diz o poeta: “Se eu soubesse que chorando, empato a tua viagem,
meus olhos eram dois rios que não te davam passagem”. Vai ter lágrima assim no
inferno. No poema Testamento, Manuel
Bandeira diz na quarta estrofe: “Criou-me desde eu menino/ Para arquiteto meu pai.
/ Foi-se-me um dia a saúde.../ Fiz-me arquiteto? / Não pude! / Sou poeta menor,
perdoai! ” Alguém chega toma a locução “poeta menor” e faz um só verso
quilométrico em cujo bojo, na forma e na carga fônica, brinca com a palavra
menor e veja-se o que acontece: “Poetamenormenormenormenormenormenormenormenorenormenormenormenor.
Seria o
poeta menor ou enorme?
Eis aí,
amiga, os enfeitiçamentos do fazer literário. Puro encantamento. Não dê muito
ouvidos ao que se diz da literatura nos discursos acadêmicos. Use a metáfora
pessoana: “tudo que em mim sente está
pensando”. Ou a tirada de Catulo da Paixão Cearense, “como definir o que só sei
sentir”? Reflexão na primeira; sentimento não policiado na segunda. É o que
basta.
Sempre
seu: amigo e criado.
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