sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – 1
                                                                Hugo Martins

Minha prezada

                                             
            Pergunta-me sobre as novidades. Sempre que alguém me faz esse tipo de indagação mecânica, costumo dizer que “está tudo como dantes no quartel d´Abrantes”.  Hoje, porém, resolvi sair dessa tranquilidade da soldadesca napoleônica lá por terras lusas.  Ao acordar, nessa manhã calorenta, tomei uma resolução insólita: de em nada me ocupar. Dei um chute nos livros, aposentei canetas e me intriguei com o computador, de modo que ele não se abriu para mim, tampouco me abri para ele. E assim me quedei até o momento quando resolvi aqui voltar, já enfarado com a tarefa a que me entreguei na inglória e inteligente caça ao Pokémon. Sinceramente, não sabia de que se tratava nem tenho interesse em conhecê-lo. Mas fui caçá-lo como a querer sintonizar minhas reflexões com o grande rebanho de toda casta de gente que diz se entregar a tarefa tão nobre, divertida e enriquecedora... Lancei-me à empreitada, e não é que ocorreu o inesperado? Sente-se, imaginariamente, aqui do meu lado, aceite um copo de vinho, recoste-se no espaldar da poltrona, relaxe e libere as oiças. A caçada alcançou bom êxito. Posso dizer que teve início, entregando-me eu à tarefa de juntar os apetrechos necessários.  Advertiram-me de que a arma mais eficaz e poderosa para caçar o bicho haveria de ser algum aparelho celular, que tenha perdido a função de fazer ligações telefônicas e esteja aparelhado com tudo o que há de mais moderno, menos fazer ligações, repito. Insisti: “mas capturado o bicho, onde prendê-lo? Existirá viveiro ou gaiola especial para lhe impedir o voo? ” Nada me esclareceram sobre esse assunto. Deixaram no ar uma espécie de resposta intuída de que tudo deve ficar no reino do faz de conta, e aquele que capturasse o maior número dos bichinhos indefiníveis, não sei se chamo bicho de novo, sentiria uma alegria indescritível, semelhante à de alguém que tivesse alcançado um grande objetivo na vida há muito perseguido, ou resolvido um problema de matemática há tempos não desvendado, ou lido uma página de um texto literário feericamente belo. Um diabinho travesso, dono de indizível sabedoria, pulou insistentemente nos meus ombros e soprou-me sensatamente: “isso é coisa para espíritos pequenos, que se rendem facilmente aos apelos das novidades vazias por si mesmas.” Eu disse, novamente, cá comigo mesmo: “não é que o diabo desse diabo tem razão”. De fato, minha cara, diante de observação tão pertinente, desisti da tarefa e resolvi armar-me de outros apetrechos e fui caçar outro Pokémon. Alguém me parabenizou, dizendo que à caça daquele primeiro tem muita gente. É tanta gente empenhada nisso, que se tem a impressão que a massa de caçadores foi tomada pelos efeitos de uma espécie de estupefaciente, cuja fórmula resultou da mistura, bem medida, de 33,3% de idiotia+33,3% de imbecilidade+ 33,3% de debilidade mental... Disse para aquele alguém que aquilo era dose para elefante. Ele redarguiu, dizendo que alguns reclamaram daquele 0,1% que deixaram de acrescentar à mistura... Bom, o fato é que os bravos caçadores, entregues ao seu excitante safári urbano, caem em buracos, desnorteiam-se, abalroam com automóveis, esquecem as responsabilidades, tudo em nome da captura de Pokémons... Que coisa, hein, minha cara? Diante desse quadro trágico, marcado pela galopante concorrência e pela narcotização que tomou conta da alma dos bisonhos venatores (do latim venator, venatoris - caçador), resolvi empreender outro tipo de caça, pois também fui assaltado por essa vontade de apreender alguma coisa nem que fosse para prender nas grades, sempre abertas do meu cérebro. E fui à luta. Lancei mão de armas poderosíssimas: um dicionário, um texto extraído da obra Metamorfoses, do poeta romano Ovídio, uma caneta, papel e disposição para desvendar os segredos que ocorriam no bosque, apinhado de ninfas, onde se encontrava uma fonte, sobre cujas águas límpidas, debruçava-se um belo mancebo. Era Narciso, personagem mítica, que a Psicanálise tomou de empréstimo para explicar disfunções mentais de que são tomados alguns indivíduos quando se voltam para suas imagens refletidas nos espelhos reais ou naqueles de sua própria alma e se julgam o máximo dos máximos. Bom lembrar que aquele personagem se apaixonou pela imagem de seu próprio rosto, refletido no espelho das águas. Bela alegoria perpassada por uma linguagem poética das mais perfeitas da literatura universal. Nenhum exemplo apresento, em primeiro lugar, porque o texto está vazado em latim clássico, afora os torneios retóricos e poéticos que só podem ser entrevistos na leitura do texto em sua inteireza linguística e temática.  Belo Pokémon. Valeu a pena capturá-lo. Amanhã, no decorrer da manhã, vou empreender outra aventura na busca de apanhar com minha arapuca mental outro Pokémon.
            Agora, digo como os cronistas sociais, seres brilhantes nada vocacionados à tarefa de viver do pasto que colhem da vaidade dos outros: “depois eu conto. ”  
            Quanto a você, espero que me conte, em sua próxima missiva/resposta, alguma aventura com seus Pokémons, nem que sejam os da alma e de seus fantasmas e medos.
            Sempre seu: amigo e criado.

            

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