CARTA à AMIGA -XXIII
Hugo Martins
Hugo Martins
Prezadíssima,
Você me pede contar histórias envolvendo a figura do professor. Professor, para mim, é aquele que escolheu a profissão movido por uma força interior, mesmo sabendo dos percalços e dificuldades por que ia passar. Ser professor como "bico" é "galho", é ser "dador" de aula. Faço a observação porque as histórias que você me pede e, dentro em pouco, passarei a contar, têm por protagonistas o profissional "puro", que faz a coisa por amor, palavrinha proferida por alguns salpicada por boa carga de frivolidade e algum tempero de mentiras deslavadas. Vamos aos "causos."
Era latinista de escol. Responsável, rigoroso, ensinava "como quem reza, de alma genuflexa." Grande apreço pelas línguas clássicas, com especial atenção para a língua latina. Suas cãs já davam na vista. Não só elas, os bastos bigodes, também, já lhe emprestavam uma certa aura de respeitável vetustez.
Pois bem, um dia, sobraçando os livros, entrou em sala de aula e, antes de dar o bom dia à turma, ouviu um dos alunos dizer: " Lá vem o velho". O velho professor cumprimentou à turma, dirigiu-se à lousa e escreveu, em latim: "Hodie, mihi; cras, tibi." Voltou ao birô, sentou-se procedeu à chamada nominal e deu sua aula, cujo teor eram as palavras que exprimem circunstâncias de toda ordem. Aquilo que a gramática normativa chama advérbio. A circunstância temporal foi a mais explorada talvez por razões pedagógicas, ou por motivações filosóficas. Para isso, o mestre dirigiu-se ao quadro (naquele tempo, negro) e grifou "hodie" e "cras". E explicou: a primeira palavra significa hoje, que deveria ser grafada "hoie". Lembrem-se de que o alfabeto latino não possuía a letra "j". Esta foi criada no século XVI pelo gramático francês Pierre de la Ramé, que traduziram para o português Pedro Ramos. Passou a letrinha, desde então, a se chamar letra ramista. Observem que inscrição latina acima da cabeça do Cristo na cruz é INRI. O primeiro "I"diz respeito a Jesus, que se escreve Iesus, e o segundo diz respeito a judeus, que se grafa Iudeorum... Pois bem. Mas o sentido primitivo da palavra continua na língua portuguesa em, por exemplo, HODIERNO e seus derivados. Fácil, não? E instigante. Vamos à outra.
"Cras", em latim, significa "o dia seguinte". Quando se diz "dia crástino", está-se fazendo referência ao amanhã, ao dia que se segue ao hoje. O indivíduo que procrastina algum compromisso está a adiar, a enviar para o dia seguinte dado compromisso ou obrigação. É um procrastinador. Namore a palavra e você enxergará o "cras" na sua estrutura. Hodie e cras são dois polos que assinalam a corrida subjetiva do tempo. Nenhum é estático. São marcos não fixos das instâncias das mudanças.
Quando o professor terminou a explanação, um aluno ergueu a mão e pediu a tradução da frase. O mestre não se fez de rogado e escreveu: Hoje eu; amanhã, tu.
Simples, não. Pedagogia e filosofia andam de mãos dadas.
Aí está, minha amiga o que você pediu. Outras virão.
Grande abraço e queira-me bem.
De seu sempre criado.
Hugo Martins
Pois bem, um dia, sobraçando os livros, entrou em sala de aula e, antes de dar o bom dia à turma, ouviu um dos alunos dizer: " Lá vem o velho". O velho professor cumprimentou à turma, dirigiu-se à lousa e escreveu, em latim: "Hodie, mihi; cras, tibi." Voltou ao birô, sentou-se procedeu à chamada nominal e deu sua aula, cujo teor eram as palavras que exprimem circunstâncias de toda ordem. Aquilo que a gramática normativa chama advérbio. A circunstância temporal foi a mais explorada talvez por razões pedagógicas, ou por motivações filosóficas. Para isso, o mestre dirigiu-se ao quadro (naquele tempo, negro) e grifou "hodie" e "cras". E explicou: a primeira palavra significa hoje, que deveria ser grafada "hoie". Lembrem-se de que o alfabeto latino não possuía a letra "j". Esta foi criada no século XVI pelo gramático francês Pierre de la Ramé, que traduziram para o português Pedro Ramos. Passou a letrinha, desde então, a se chamar letra ramista. Observem que inscrição latina acima da cabeça do Cristo na cruz é INRI. O primeiro "I"diz respeito a Jesus, que se escreve Iesus, e o segundo diz respeito a judeus, que se grafa Iudeorum... Pois bem. Mas o sentido primitivo da palavra continua na língua portuguesa em, por exemplo, HODIERNO e seus derivados. Fácil, não? E instigante. Vamos à outra.
"Cras", em latim, significa "o dia seguinte". Quando se diz "dia crástino", está-se fazendo referência ao amanhã, ao dia que se segue ao hoje. O indivíduo que procrastina algum compromisso está a adiar, a enviar para o dia seguinte dado compromisso ou obrigação. É um procrastinador. Namore a palavra e você enxergará o "cras" na sua estrutura. Hodie e cras são dois polos que assinalam a corrida subjetiva do tempo. Nenhum é estático. São marcos não fixos das instâncias das mudanças.
Quando o professor terminou a explanação, um aluno ergueu a mão e pediu a tradução da frase. O mestre não se fez de rogado e escreveu: Hoje eu; amanhã, tu.
Simples, não. Pedagogia e filosofia andam de mãos dadas.
Aí está, minha amiga o que você pediu. Outras virão.
Grande abraço e queira-me bem.
De seu sempre criado.
Hugo Martins
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