sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


DEFINIÇÕES
Hugo Martins

A rigor, não é apropriado apodar-se quem quer que seja de mito. Na verdade, o mito é um relato, cujos personagens, deuses (imortais) e heróis (mortais) tomam parte de uma história, que quer ser, tal como a literatura, uma interpretação de um dado da realidade ou da condição humana. Assim, Zeus é um deus e não um mito. As histórias de que ele participa são mitos. Tântalo, Sísifo, Prometeu, Héracles, Palas Atenas, Teseu, Dioniso, Ariadne, Dédalo, Jasão, Sileno e tantos outros personagens da mitologia grega não são mitos. Participam do mito.
Fernando Pessoa diz, no poema Ulisses, da obra A Mensagem, que o “mito é o nada que é tudo.” Com esse conceito, o poeta português quis dizer que o mito, tal a obra literária, encerra “mentiras”, que encerram grandes verdades. Tudo depende do intérprete, que, ungido do espírito daquela frase aspeada, poderá desencavar, da leitura de um mito, inúmeras interpretações...  Não é à toa que os mitos experimentam o mesmo gosto de eternidade próprio das obras literárias.
Por outro lado, personagens da vida real podem mentir deslavadamente na literatura, por exemplo. Lembro, nesse sentido, um apanhado de narrativas colhidas da sabedoria popular, que mestre Graciliano Ramos, de modo honesto, compilou no volume Alexandre e Outros Heróis, que inspirou Chico Anísio a criar o personagem Pantaleão que contava histórias de que o próprio capeta podia duvidar. A esse tipo personagem, também encontradiço entre os homens, na vida real, os psicólogos costumam chamar de mitômanos. Quer dizer: mitômano é o mentiroso costumeiro e contumaz. Alguns o são por doença; outros por desejarem tirar algum proveito para si mesmos, embaindo os tolos, os pacóvios, os otários, os parvos, os ingênuos e os idiotas susceptíveis. Deles há que utilizam o artifício para ganhar eleições. Além disso, dão crédito absoluto na frase de Goebbels, ideólogo nazista que orientou o satânico Adolfo, dizendo que “uma mentira repetida mil vezes acaba por se tornar verdade.” Assim age o mitômano que deseja levar vantagens nos seus projetos sórdidos apregoando a mentira com aparência de verdade. Não confundir com o mito, que guarda identidade com a literatura. O mitômano, na perspectiva desse texto, é inescrupuloso, salafrário e desavergonhado, que bem sabe da existência de um exército de crédulos mentecaptos...
É isso...


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