sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


EQUÍVOCOS

HugoMartins

A canção Balada número 7, composta por Alberto Luís em 1971 e interpretada por Moacir Franco, homenageia o maior ponteiro direito do futebol mundial, Mané Garrincha, jogador do Botafogo do Rio de Janeiro, ao lado de Nílton Santos, Didi, Amarildo e Zagalo, todos titulares absolutos da Seleção brasileira de futebol, que, em 1962, conquistou o bicampeonato na Copa do Mundo, disputada no Chile. Pois bem... Na verdade, de início, pretendia o compositor homenagear Ypojucan, jogador do Vasco da Gama, que estava internado, muito doente, já às porta da morte. Quando mostrou a letra a Moacir Franco, este, de um estalo de Vieira, propôs decantar Mané Garrincha, coisa que depois fez em pleno Maracanã, diante de cento e cinquenta mil pessoas, que foram prestigiar Mané Grarricha num embate envolvendo Seleção do mundo e a Seleção brasileira, numa espécie de preito de gratidão ao infernal ponteiro. Garrincha estava, então, com quarenta anos de idade. A canção foi entoada antes do jogo e provocou forte emoção e muito choro nos que lá estavam...
A reflexão surgiu devido à leitura que acabo de fazer da biografia de outro jogador do Botafogo, muito, mas muito mais excêntrico que Mané. Morreu aos 39 anos, num hospital psiquiátrico, totalmente abatido e destroçado pela loucura. Trata-se de Heleno de Freitas, que também é homenageado por Benito di Paula, na canção Tributo a um Rei Esquecido... Quem posta na Internet o video em que aparecem cenas para ilustrar a canção quem lá aparece é Mané Garrincha e não Heleno de Freitas. Eis o equívoco. Para constatar, é necessário ler a biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista carioca Ruy Castro. Título da obra: A Estrela Solitária, metáfora extensiva tanto ao time do Botafogo quanto ao craque Mané Garrincha...
Se Mané parecia ser simplório; Heleno ostentava ares de aristocrata falastrão e narcisista. Garrincha tinha como maior diversão refugiar-se na sua cidade natal, Pau Grande, no estado do Rio de Janeiro, e lá participar de "peladas" com os amigo, caçar passarinhos e beber cachaça. Heleno era frequentador de altas rodas sociais, onde desfilava com ternos e sapatos da última moda, era formado em Direito e só bebia uísque ou vinho. Garrincha não ostentava nenhuma beleza física, sua alma parecia irmanar-se com o  modo de ser de Carlitos, personagem de Chaplin: desajeitado, vocabulário limitado, sorriso franco e sincero, pouco dado à frequência a rodas sociais. Trazia no rosto uma aura de simplicidade e bondade. Heleno era um tipo bonito. Alto, esguio, cabelos repartidos para o lado e fixados com brilhantina. Formava o tipo cinematográfico a la Marlon Brando. Era perseguido e adorado pelas beldades e dondocas frequentadoras do Copacabana Palace...
Trocando em miúdos, Heleno era um rei, na mania monarquista do povo brasileiro, e Mané Garrincha, um plebeu desgracioso e sem vaidade. É diante de tais retratos que vejo na canção de Benito referência clara a Heleno Freitas e não a Mané Garrincha.
Garrincha permanece na lembrança de quem o viu no Maracanã, encantando a todos com jogadas, a um tempo, mirabolantes e engraçadas. Era conhecido como Alegria do Povo. O pouco que conheço de Heleno de Freitas devo ao testemunho e à fala da crônica esportiva. Dizem que jogava bonita e elegantemente. Dizem que se tivesse participado da Seleção que perdeu a Copa em 1950 para o Uruguai, o resultado teria sido favorável aos brasileiros, e Obdulo Varela teria baixado o cachaço à valentia, ousadia e o destempero verbal, marcas vivas da personalidade de Heleno de Freitas...
Duas vidas interessantes tanto pela comicidade quanto pela tragicidade da existência...

Eis aí...


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