sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


PERGUNTAS AO PÉ DO OUVIDO 

Hugo Martins

Você já refletiu mais demoradamente acerca do significado mais profundo da locução “escola sem partidos”? Você já discerniu que por trás dela (este eufemismo cínico), esconde-se uma tomada de partido? Você perguntará: qual? A resposta estaria nos objetivos a que visa a tal “escola sem partidos”: anular “a livre manifestação do pensamento”, direito garantido no art. 5º. IV da CF/88. Em outras palavras, fere-se de morte o postulado cartesiano do “cogito, ergo sum” (penso, logo existo).
Como se dá a coisa? Só partindo de uma hipótese. Imaginemos que um professor de literatura brasileira ministra algumas aulas sobre a segunda fase do modernismo brasileiro. Ora, Literatura e História andam de mãos dadas. Assim, para se compreender o porquê de alguns autores daquele período - sobretudo Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego - promoverem em suas obras ampla documentação e consequente denúncia da situação de humilhante sofrimento de grande parcela do povo nordestino, não se pode fugir à evidência de que tudo se deu na Era Vargas (1930/1945). Como fugir a isso? Deixar o alunado a ver estrelas ou criar chaves de leitura para a compreensão da relação causa e efeito decorrente da distribuição perversa da riqueza, que todos produzem?  Não existe homem pobre. Existe homem empobrecido. Nenhum homem nasceu predestinado a ter mesa farta, enquanto outro nasceu destinado a catar as migalhas das sobras daquela mesa, aqui universalmente metaforizada.
A obra literária, a grande, a que tende a se eternizar se constitui pasto para alimentar as grandes reflexões. Nenhum manual de História do Brasil, nenhum tratado de Sociologia sobre o Nordeste supera a reflexão que se encontra na obra daqueles autores aqui referidos. Um Fabiano (em Vidas Secas); um Vicente (em O Quinze); qualquer moleque da bagaceira ou qualquer coronel de engenho (nas obras do ciclo-da-cana-de açúcar de Zé Lins); nenhuma prostituta, nenhum menor abandonado, nenhum personagem pícaro (na obra de Jorge Amado), nenhum deles é paciente de análise mais acurada em tantas obras científicas, quanto o é na obra literária.
O coitado do professor, diante disso tudo, tem alguma alternativa para fugir ao olho do Big Brother? Seguem-se algumas hipóteses. Acovardar-se, promover a leitura de alguns trechos deste ou daquele autor e, para adocicar a aula, voltar-se para o biografismo estéril?  Prosternar-se à ideia de que a sala de aula, em qualquer âmbito e grau, é lugar de pensamento, de criação, de promoção do educando? Desistir do magistério (que não deve ser um bico) e optar por vender bananas nas feiras, lugar onde se pode ganhar bom dinheiro? Também lhe é dado o direito de migrar para outras profissões mais promissoras do ponto de vista econômico.
Fica mais uma pergunta: que rótulo se aplicaria ao professor que elegeu a segunda alternativa das ofertadas? Comunista? Esquerdopata?  Socialista? ... O que encerram essas palavras?
Depois eu conto mais



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