PERGUNTAS AO PÉ DO OUVIDO
Hugo Martins
Você já refletiu mais
demoradamente acerca do significado mais profundo da locução “escola sem
partidos”? Você já discerniu que por trás dela (este eufemismo cínico),
esconde-se uma tomada de partido? Você perguntará: qual? A resposta estaria nos
objetivos a que visa a tal “escola sem partidos”: anular “a livre manifestação
do pensamento”, direito garantido no art. 5º. IV da CF/88. Em outras palavras,
fere-se de morte o postulado cartesiano do “cogito, ergo sum” (penso, logo
existo).
Como se dá a coisa? Só
partindo de uma hipótese. Imaginemos que um professor de literatura brasileira
ministra algumas aulas sobre a segunda fase do modernismo brasileiro. Ora,
Literatura e História andam de mãos dadas. Assim, para se compreender o porquê
de alguns autores daquele período - sobretudo Graciliano Ramos, Rachel de
Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego - promoverem em suas obras ampla
documentação e consequente denúncia da situação de humilhante sofrimento de
grande parcela do povo nordestino, não se pode fugir à evidência de que tudo se
deu na Era Vargas (1930/1945). Como fugir a isso? Deixar o alunado a ver
estrelas ou criar chaves de leitura para a compreensão da relação causa e
efeito decorrente da distribuição perversa da riqueza, que todos produzem? Não existe homem pobre. Existe homem
empobrecido. Nenhum homem nasceu predestinado a ter mesa farta, enquanto outro
nasceu destinado a catar as migalhas das sobras daquela mesa, aqui
universalmente metaforizada.
A obra literária, a
grande, a que tende a se eternizar se constitui pasto para alimentar as grandes
reflexões. Nenhum manual de História do Brasil, nenhum tratado de Sociologia
sobre o Nordeste supera a reflexão que se encontra na obra daqueles autores
aqui referidos. Um Fabiano (em Vidas Secas); um Vicente (em O Quinze); qualquer
moleque da bagaceira ou qualquer coronel de engenho (nas obras do
ciclo-da-cana-de açúcar de Zé Lins); nenhuma prostituta, nenhum menor
abandonado, nenhum personagem pícaro (na obra de Jorge Amado), nenhum deles é
paciente de análise mais acurada em tantas obras científicas, quanto o é na
obra literária.
O coitado do professor,
diante disso tudo, tem alguma alternativa para fugir ao olho do Big Brother?
Seguem-se algumas hipóteses. Acovardar-se, promover a leitura de alguns trechos
deste ou daquele autor e, para adocicar a aula, voltar-se para o biografismo
estéril? Prosternar-se à ideia de que a
sala de aula, em qualquer âmbito e grau, é lugar de pensamento, de criação, de
promoção do educando? Desistir do magistério (que não deve ser um bico) e optar
por vender bananas nas feiras, lugar onde se pode ganhar bom dinheiro? Também
lhe é dado o direito de migrar para outras profissões mais promissoras do ponto
de vista econômico.
Fica mais uma pergunta:
que rótulo se aplicaria ao professor que elegeu a segunda alternativa das
ofertadas? Comunista? Esquerdopata? Socialista?
... O que encerram essas palavras?
Depois eu conto mais
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