sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


PERGUNTAS DE HUGUS NEPOS. 16-11-2018
Hugo Martins

A pergunta de hoje diz respeito à linguagem e, portanto, ao mundo e às diversas facetas com que este se nos apresenta. Hugus Nepos me pede que lhe explique a linguagem em sua feição expressiva. Enfim, solicitou-me explicar que vem a ser a chamada linguagem figurada. Procurei ser sucinto e disse-lhe que deixasse de lado a enfieira de terminologias concernentes à matéria e se prendesse apenas e tão só à compreensão do que vem a ser a METAFORIZAÇÃO. É o que basta. Hugus Nepos olhou-me estupefato e colocou um ponto de interrogação entre as sobrancelhas, franzindo-as gravemente. Aliás, é uma marca física na expressão de suas perplexidades...  Para sossegá-lo, dei início à exposição da matéria...
Aí está o mundo. Aí está a linguagem, que o exprime, que o coloca em evidência, que sobre ele diz alguma coisa, predica-o. Muitas vezes, ocorrem situações em que a linguagem parece não ser suficiente, por si mesma, para exprimir o que vai na alma do sujeito comunicante. Instala-se o indizível, o inexprimível, o inefável... Nesses momentos, é que o sujeito pugna por reinventar a linguagem, lutando consigo mesmo, recorrendo aos potenciais expressivos desta... É aqui que se faz necessária a METAFORIZAÇÃO, a “violação” do modo de ser da linguagem no seu grau zero de expressividade. A estrutura mórfica da palavra “METÁFORA” se constitui dos radicais de origem grega “meta” e “fora” que, agregados, resultam na significação “levar além”. Assim, ao recorrer a uma metáfora, está-se a empregar dada palavra ou expressão ungindo-as de sentido que ultrapassa os limites do emprego dicionarizado ou da concepção rasa e primária das coisas do mundo.
A METAFORIZAÇÃO pode estar presente em qualquer linguagem em que se faça necessário o jogo da invenção. Vamos aos exemplos,
Na Pietá (a piedade), de Michelangelo, não se tem apenas um Cristo deitado nos braços da Virgem. Além disso, há um olhar cheio de dor, um abandono eloquente, um amor indizível, uma sensação de impotência. Charlie Chaplin, que recorreu mais à pantomima que à fala articulada, repassa à sua genial (não há outra palavra) gestualidade a metaforização do ceticismo, da descrença, da decepção, do desencanto em relação ao bicho homem. Sua saída, na cena final de suas fitas, hiperbolizam a mais dolorosa solidão, a mais cortante sensação de abandono que um ser humano pode experimentar... Basta um gesto, um silêncio, um esgar, um sorriso amarelo... Dispensa o ator inglês a aspereza das palavras. Para colocar em evidência o caos e o cosmopolitismo da cidade de São Paulo, Caetano Veloso, com uma só frase, diz tudo: ” porque tu és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso”. Afora o hipocorístico “Sampa”, título da canção, em que se entrevê uma carrada de afetividade. Quando se refere ao poder expressivo de um mito, o poeta português Fernando Pessoa, numa só tacada diz tudo: “o mito é o nada que é tudo”. Aliás, as histórias (mitos) das culturas e civilizações em geral encerram metaforizações universais, que os psicanalistas deram de chamar arquétipos. Os romances de 30, da literatura brasileira, os voltados para a documentação e denúncia dos descalabros de toda ordem, constituem também metaforizações do abandono e do ilhamento histórico a que foi relegado o povo nordestino. Tem coisa mais dolorosa que o êxodo rural, chorado por Luiz Gonzaga e denunciado por Patativa do Assaré na canção Triste Partida? São oito minutos de lamentação... Só vai ouvindo...
Para nós, metaforizar não se reduz àquela definiçãozinha da comparação implícita como aparece na descrição de Iracema por Alencar. Não é tão simples assim. Vai além disso. Repita-se: toda e qualquer “violentação” imprimida à linguagem a fim de se alcançar maior expressividade, tem-se metaforização. O resto é didatismo. Tudo que Graciliano Ramos diz em Vidas Secas, o pintor cearense Aldemir Martins o faz em breves pinceladas, bem como o pintor Santa Rosa nos romances de Jorge Amado. A figura do Cristo, no Juízo Final, esplende em força e beleza, ao contrário da pintura barroca que fixa a figura de um Cristo a merecer piedade. Bem certo que se trata de estilos de época bafejados por momentos históricos diversos, por isso, merecem representação e leituras diferentes. O dia a dia dança em meio a metaforizações das mais diversas facetas, que o ensino da retórica nomeava. Fugimos a isso, dando preferência à identificação da coisa e seu grau de expressividade, mais ou menos intenso. Vejamos alguns: “tou morrendo de fome, de sono e de sede”; “minha vida era um palco iluminado”; “deixa em paz meu coração, ele é um pote até aqui de mágoa”; “tudo pelo social”; “ouvia-se o matraquear contínuo de máquinas de escrever”; “pastoreávamos a noite com nossos cajados de aguardente”; “este é um País que vai pra frente” (há uma metáfora cênica em que Juca Chaves cantava a musiquinha patrioteira e, ao entoar esta frase, dava alguns passos para trás); “entrou em cana”. Nelson Rodrigues, exalçando as habilidades de Mané Garrincha em aplicar um drible, dizia que “um guardanapo era um latifúndio para aquele infernal ponteiro.” Ruy Guerra escreveu uma espécie de biografia sobre Nelson Rodrigues, que intitulou “O Anjo Pornográfico” devido à dubiedade com que o povo brasileiro enxergava o teatrólogo e cronista esportivo pernambucano.
As metaforizações são sempre possíveis e inevitáveis: inscrevem-se no problema da linguagem, que, por sua vez, indaga, interpreta e problematiza o mundo. Revela-se muito cara na criação artística. Define a mediocridade e a grandeza de um dado artista, a ingenuidade dos tolos e a estreiteza mental de uma infinidade de parvos de ideias curtas e de língua solta.
É isso... “ O mundo é um moinho...”


                

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