PERGUNTAS DE HUGUS NEPOS. 16-11-2018
Hugo Martins
A pergunta de hoje diz
respeito à linguagem e, portanto, ao mundo e às diversas facetas com que este
se nos apresenta. Hugus Nepos me pede que lhe explique a linguagem em sua
feição expressiva. Enfim, solicitou-me explicar que vem a ser a chamada linguagem
figurada. Procurei ser sucinto e disse-lhe que deixasse de lado a enfieira de
terminologias concernentes à matéria e se prendesse apenas e tão só à
compreensão do que vem a ser a METAFORIZAÇÃO. É o que basta. Hugus Nepos
olhou-me estupefato e colocou um ponto de interrogação entre as sobrancelhas,
franzindo-as gravemente. Aliás, é uma marca física na expressão de suas
perplexidades... Para sossegá-lo, dei
início à exposição da matéria...
Aí está o mundo. Aí está
a linguagem, que o exprime, que o coloca em evidência, que sobre ele diz alguma
coisa, predica-o. Muitas vezes, ocorrem situações em que a linguagem parece não
ser suficiente, por si mesma, para exprimir o que vai na alma do sujeito
comunicante. Instala-se o indizível, o inexprimível, o inefável... Nesses
momentos, é que o sujeito pugna por reinventar a linguagem, lutando consigo
mesmo, recorrendo aos potenciais expressivos desta... É aqui que se faz
necessária a METAFORIZAÇÃO, a “violação” do modo de ser da linguagem no seu
grau zero de expressividade. A estrutura mórfica da palavra “METÁFORA” se
constitui dos radicais de origem grega “meta” e “fora” que, agregados, resultam
na significação “levar além”. Assim, ao recorrer a uma metáfora, está-se a
empregar dada palavra ou expressão ungindo-as de sentido que ultrapassa os limites
do emprego dicionarizado ou da concepção rasa e primária das coisas do mundo.
A METAFORIZAÇÃO pode
estar presente em qualquer linguagem em que se faça necessário o jogo da
invenção. Vamos aos exemplos,
Na Pietá (a piedade), de
Michelangelo, não se tem apenas um Cristo deitado nos braços da Virgem. Além
disso, há um olhar cheio de dor, um abandono eloquente, um amor indizível, uma
sensação de impotência. Charlie Chaplin, que recorreu mais à pantomima que à
fala articulada, repassa à sua genial (não há outra palavra) gestualidade a
metaforização do ceticismo, da descrença, da decepção, do desencanto em relação
ao bicho homem. Sua saída, na cena final de suas fitas, hiperbolizam a mais
dolorosa solidão, a mais cortante sensação de abandono que um ser humano pode
experimentar... Basta um gesto, um silêncio, um esgar, um sorriso amarelo...
Dispensa o ator inglês a aspereza das palavras. Para colocar em evidência o
caos e o cosmopolitismo da cidade de São Paulo, Caetano Veloso, com uma só
frase, diz tudo: ” porque tu és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso”.
Afora o hipocorístico “Sampa”, título da canção, em que se entrevê uma carrada
de afetividade. Quando se refere ao poder expressivo de um mito, o poeta
português Fernando Pessoa, numa só tacada diz tudo: “o mito é o nada que é
tudo”. Aliás, as histórias (mitos) das culturas e civilizações em geral
encerram metaforizações universais, que os psicanalistas deram de chamar
arquétipos. Os romances de 30, da literatura brasileira, os voltados para a
documentação e denúncia dos descalabros de toda ordem, constituem também
metaforizações do abandono e do ilhamento histórico a que foi relegado o povo
nordestino. Tem coisa mais dolorosa que o êxodo rural, chorado por Luiz Gonzaga
e denunciado por Patativa do Assaré na canção Triste Partida? São oito minutos
de lamentação... Só vai ouvindo...
Para nós, metaforizar não
se reduz àquela definiçãozinha da comparação implícita como aparece na
descrição de Iracema por Alencar. Não é tão simples assim. Vai além disso.
Repita-se: toda e qualquer “violentação” imprimida à linguagem a fim de se
alcançar maior expressividade, tem-se metaforização. O resto é didatismo. Tudo
que Graciliano Ramos diz em Vidas Secas, o pintor cearense Aldemir Martins o
faz em breves pinceladas, bem como o pintor Santa Rosa nos romances de Jorge
Amado. A figura do Cristo, no Juízo Final, esplende em força e beleza, ao
contrário da pintura barroca que fixa a figura de um Cristo a merecer piedade.
Bem certo que se trata de estilos de época bafejados por momentos históricos
diversos, por isso, merecem representação e leituras diferentes. O dia a dia
dança em meio a metaforizações das mais diversas facetas, que o ensino da
retórica nomeava. Fugimos a isso, dando preferência à identificação da coisa e
seu grau de expressividade, mais ou menos intenso. Vejamos alguns: “tou
morrendo de fome, de sono e de sede”; “minha vida era um palco iluminado”;
“deixa em paz meu coração, ele é um pote até aqui de mágoa”; “tudo pelo
social”; “ouvia-se o matraquear contínuo de máquinas de escrever”;
“pastoreávamos a noite com nossos cajados de aguardente”; “este é um País que
vai pra frente” (há uma metáfora cênica em que Juca Chaves cantava a musiquinha
patrioteira e, ao entoar esta frase, dava alguns passos para trás); “entrou em
cana”. Nelson Rodrigues, exalçando as habilidades de Mané Garrincha em aplicar
um drible, dizia que “um guardanapo era um latifúndio para aquele infernal
ponteiro.” Ruy Guerra escreveu uma espécie de biografia sobre Nelson Rodrigues,
que intitulou “O Anjo Pornográfico” devido à dubiedade com que o povo
brasileiro enxergava o teatrólogo e cronista esportivo pernambucano.
As metaforizações são
sempre possíveis e inevitáveis: inscrevem-se no problema da linguagem, que, por
sua vez, indaga, interpreta e problematiza o mundo. Revela-se muito cara na
criação artística. Define a mediocridade e a grandeza de um dado artista, a
ingenuidade dos tolos e a estreiteza mental de uma infinidade de parvos de
ideias curtas e de língua solta.
É isso... “ O mundo é um
moinho...”
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