sexta-feira, 14 de dezembro de 2018


ECCE HOMO (Eis o Homem)
Hugo Martins

Em momento de conversa informal, alguém pede que eu decline o nome do candidato à Presidência da República do Brasil (de minha preferência), que deverá surdir do pleito de 7 de outubro próximo. Respondi dizendo que estava proibido de fazê-lo, em atendimento ao que dispõe o art. 14 da já maltratada Constituição em vigor, que dispõe: “ A soberania popular será exercida pelo sufrágio e pelo VOTO DIRETO E SECRETO, com valor igual para todos...”. Nada mais cristalino, nada mais consentâneo com o espírito democrático...
De todo modo, confesso existir um político a quem eu não sonegaria meu voto por alimentar reverencial respeito ao discurso que empunha, como também pelos atos políticos por ele praticados, voltados, francamente, para o espírito do atingimento do SER da política: o alcance de um fim, que é o BEM-ESTAR de todos na mais ampla extensão semântica que exprime esse substantivo.
Um político que sempre me despertou simpatia e desperta, pois as atitudes dele, quando prefeito de uma cidade do interior de Alagoa, deixam embasbacado qualquer administrador da coisa pública, sinceramente cioso do seu mister, o de conduzir os negócios da polis com honestidade. Daí decorrem todas as demais virtudes, inscritas na ciência dos valores, a Axiologia.
Trata-se do senhor Graciliano Ramos, escritor alagoano, que foi bom em duas coisas: escrever e administrar. Abstenho-me de disserta sobre sua “arte de escrever”, pois o povo brasileiro deve ter lido toda sua obra romanesca; quanto à segunda coisa, lembro que no livro VIVENTES DAS ALAGOAS (coletânea de crônicas), acham-se encartados, no final do volume, DOIS RELATÓRIOS: um de 1928 e outro de 1930, em que o criador de Vidas Secas e São Bernardo, clássicos da literatura brasileira, enviou ao governador do Estado a título de prestação de contas.
Os Relatórios, pela redação, constituem uma aula de como redigir, tecnicamente, não importa que relatórios, bem como outra aula de como administrar a coisa pública. Minucioso, o prefeito não deixa passar nada, anota tudo o que foi feito, o que foi comprado, o que foi providenciado, ajuntando, ao fim, todos os recibos, incluindo até mesmo os centavos, além de apresentar justificativas relativas às ações levadas a efeito...
No último parágrafo do primeiro relatório, diz em tom de ironia: “Se minha estada por esses dois anos dependesse de mim um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.”  Também, no último parágrafo, agora do segundo relatório, arremata: “O Município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na `Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.”
Graciliano, como se vê, só suportou dois anos.
Eis aí um exemplo de candidato em quem eu votaria. O diabo é que ele não suportaria exercer o cargo, sobretudo nos sombrios dias de hoje.
Aliás, foi preso pelo Ditador Vargas. Razões: escrevia livros e era honesto, em todos os sentidos. Quando soube do anúncio de que  sua prisão seria efetuada, no mesmo dia,  foi para casa, pediu sua mulher, Heloísa, que lhe arrumasse as malas, pois ia “gozar férias” no Presídio da Ilha Grande. Episódio constante da obra Memórias do Cárcere (dois volumes), repositório de fatos históricos, incluindo a prisão de Olga Benário, mulher de Prestes, a qual morreria nos campos de concentração na Alemanha...
Pois é... Taí... Dia 7 colocarei meu voto na urna.

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