ECCE HOMO (Eis o Homem)
Hugo Martins
Em momento de conversa
informal, alguém pede que eu decline o nome do candidato à Presidência da República
do Brasil (de minha preferência), que deverá surdir do pleito de 7 de outubro
próximo. Respondi dizendo que estava proibido de fazê-lo, em atendimento ao que
dispõe o art. 14 da já maltratada Constituição em vigor, que dispõe: “ A
soberania popular será exercida pelo sufrágio e pelo VOTO DIRETO E SECRETO, com
valor igual para todos...”. Nada mais cristalino, nada mais consentâneo com o
espírito democrático...
De todo modo, confesso
existir um político a quem eu não sonegaria meu voto por alimentar reverencial
respeito ao discurso que empunha, como também pelos atos políticos por ele
praticados, voltados, francamente, para o espírito do atingimento do SER da
política: o alcance de um fim, que é o BEM-ESTAR de todos na mais ampla
extensão semântica que exprime esse substantivo.
Um político que sempre me
despertou simpatia e desperta, pois as atitudes dele, quando prefeito de uma
cidade do interior de Alagoa, deixam embasbacado qualquer administrador da
coisa pública, sinceramente cioso do seu mister, o de conduzir os negócios da
polis com honestidade. Daí decorrem todas as demais virtudes, inscritas na
ciência dos valores, a Axiologia.
Trata-se do senhor
Graciliano Ramos, escritor alagoano, que foi bom em duas coisas: escrever e administrar.
Abstenho-me de disserta sobre sua “arte de escrever”, pois o povo brasileiro
deve ter lido toda sua obra romanesca; quanto à segunda coisa, lembro que no
livro VIVENTES DAS ALAGOAS (coletânea de crônicas), acham-se encartados, no
final do volume, DOIS RELATÓRIOS: um de 1928 e outro de 1930, em que o criador
de Vidas Secas e São Bernardo, clássicos da literatura brasileira, enviou ao
governador do Estado a título de prestação de contas.
Os Relatórios, pela
redação, constituem uma aula de como redigir, tecnicamente, não importa que
relatórios, bem como outra aula de como administrar a coisa pública. Minucioso,
o prefeito não deixa passar nada, anota tudo o que foi feito, o que foi
comprado, o que foi providenciado, ajuntando, ao fim, todos os recibos,
incluindo até mesmo os centavos, além de apresentar justificativas relativas às
ações levadas a efeito...
No último parágrafo do
primeiro relatório, diz em tom de ironia: “Se minha estada por esses dois anos
dependesse de mim um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.” Também, no último parágrafo, agora do segundo
relatório, arremata: “O Município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete
na `Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.”
Graciliano, como se vê, só
suportou dois anos.
Eis aí um exemplo de
candidato em quem eu votaria. O diabo é que ele não suportaria exercer o cargo,
sobretudo nos sombrios dias de hoje.
Aliás, foi preso pelo
Ditador Vargas. Razões: escrevia livros e era honesto, em todos os sentidos.
Quando soube do anúncio de que sua
prisão seria efetuada, no mesmo dia, foi
para casa, pediu sua mulher, Heloísa, que lhe arrumasse as malas, pois ia
“gozar férias” no Presídio da Ilha Grande. Episódio constante da obra Memórias
do Cárcere (dois volumes), repositório de fatos históricos, incluindo a prisão
de Olga Benário, mulher de Prestes, a qual morreria nos campos de concentração
na Alemanha...
Pois é... Taí... Dia 7
colocarei meu voto na urna.
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