19ª
CARTAS
À MINHA FILHA
Maria Helena,
teu
pai tornou-se traficante de uma droga inebriante. Há muito tempo vem ele
ensaiando incutir na cabeça do alunado a bizarra idéia de que a recorrência a
tal droga dá “um barato” inimaginável por transportar o usuário para um paraíso
onírico não alcançável por nenhuma outra droga que se mercadeja por todos os
rincões do país. Além do mais, pode ser ela adquirida sem muito esforço, e sua
ingestão não constitui ação criminosa embora a “lombra” de que é possuído o
“viciado” seja contínua e inesgotável. O sujeito fica como que ausente do
mundo, de sua violência, de suas asperezas e mesmices. Os efeitos são
semelhantes àqueles referidos pelo poeta simbolista francês Charles Baudelaire
no poema “Invitation au voyage”
(Convite à viagem). Na jornada, quem não suporta a existência como se nos
revela encontrará sonhos dourados, luxúrias de pensamento; fugirá do que cheira
à mediocridade; e se afastará da nota monocórdia da subserviência intelectual,
manifestada no balançar da cabeça à ilusão do conhecimento que falseia o real.
Minha filha, teu pai já percebeu que tu já começaste a
sentir os efeitos dessa “coisa”, pois teu comportamento denuncia a preocupação
em “curtir” egoisticamente os prazeres provindos das doses diárias que ingeres
da tal “coisa”. Aliás, ele se vangloria de ter te colocado “no mau caminho”. E
disso não se arrepende, pois, para teu velho pai, esse modo de levar a vida
como que distanciado das pessoas normais é a maneira mais legítima de usufruir
a existência rindo da estultícia reinante. É por isso, minha filha, que teu
pai, este inescrupuloso viciado, sempre insta contigo a que não te afastes do
hábito de te drogares sempiternamente com a substância divina a que já te
acostumastes.
Não satisfeito em te viciar, teu pai agora deu de
influenciar seus alunos. Começou sua ação, ministrando àqueles dosagem reduzida
do alucinógeno. Depois, à medida que o tempo heraclitiano fluía, ia aumentando
a dosagem até que conseguiu arrebanhar um acentuado número de usuários. A
moçada, desde então, começou a, espontaneamente, adquirir o produto sem nenhum
pejo, E o que é pior: o comportamento de cada um começou a se revelar
diferentemente daqueles que insistem em não se deixar levar pelo “papo” baboso
deste escriba.
Infelizmente é reduzidíssimo o número de traficantes
conhecedores da droga, especialmente os que preferem torrar a paciência da
meninada ministrando outra droga chata por si mesma, que é empurrar de garganta
abaixo uma coisa que a garotada já conhece. A “lombra” dessa outra “coisa” não
provoca senão o “antibarato”, pois é o suprassumo da reprovável limitação de
quem não tem nenhuma imaginação ou mesmo preparo suficiente para ministrar a
droga de que teu pai faz a apologia.
Os desencantos da primeira são visíveis: a moçada usa uma
linguagem arrevesada, efeito da inexperiência ou miopia intelectual dos
traficantes desconhecedores do produto que mercanciam, e ainda espalha a segura
idéia de que tudo isso é a “mó paia”. E isso parece ser verdade, pois o alunado
engole a coisa a muque. Os encantos da segunda logo se fazem perceber: os
usuários se tornam mais vivazes, pois, pelo fato de o produto ser “massa”,
logo, logo desenvolvem a convicção de que o mundo é mais encantador quando
visto pela ótica dessa adorável droga.
É tudo muito simples, minha jovem filha: troquemos o
ensino da gramática pela gramática, essa “droga”, que é uma droga, pelo
incentivo ao cultivo da literatura, sempre acompanhada pela motivação a que se
referem psicólogos e educadores.
Professores há que contam a lenda de que os alunos não
gostam de ler. Isso não parece ser verdade. O que falta a eles, Maria Helena, e
a experiência não desmente, é não ter o que dizer a seus alunos, tampouco
envolver estes nos encantos e “baratos” de que é tão pródiga a literatura. Em
outras palavras: nunca sentiram, quem sabe, o sabor melífluo e encantatório
dessa coisa tão sobeja e tão perto de todos nós.
Teu pai.
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