domingo, 3 de fevereiro de 2013


19ª

CARTAS À MINHA FILHA

Maria Helena,                                                    

 

teu pai tornou-se traficante de uma droga inebriante. Há muito tempo vem ele ensaiando incutir na cabeça do alunado a bizarra idéia de que a recorrência a tal droga dá “um barato” inimaginável por transportar o usuário para um paraíso onírico não alcançável por nenhuma outra droga que se mercadeja por todos os rincões do país. Além do mais, pode ser ela adquirida sem muito esforço, e sua ingestão não constitui ação criminosa embora a “lombra” de que é possuído o “viciado” seja contínua e inesgotável. O sujeito fica como que ausente do mundo, de sua violência, de suas asperezas e mesmices. Os efeitos são semelhantes àqueles referidos pelo poeta simbolista francês Charles Baudelaire no poema “Invitation au voyage” (Convite à viagem). Na jornada, quem não suporta a existência como se nos revela encontrará sonhos dourados, luxúrias de pensamento; fugirá do que cheira à mediocridade; e se afastará da nota monocórdia da subserviência intelectual, manifestada no balançar da cabeça à ilusão do conhecimento que falseia o real.

            Minha filha, teu pai já percebeu que tu já começaste a sentir os efeitos dessa “coisa”, pois teu comportamento denuncia a preocupação em “curtir” egoisticamente os prazeres provindos das doses diárias que ingeres da tal “coisa”. Aliás, ele se vangloria de ter te colocado “no mau caminho”. E disso não se arrepende, pois, para teu velho pai, esse modo de levar a vida como que distanciado das pessoas normais é a maneira mais legítima de usufruir a existência rindo da estultícia reinante. É por isso, minha filha, que teu pai, este inescrupuloso viciado, sempre insta contigo a que não te afastes do hábito de te drogares sempiternamente com a substância divina a que já te acostumastes.

            Não satisfeito em te viciar, teu pai agora deu de influenciar seus alunos. Começou sua ação, ministrando àqueles dosagem reduzida do alucinógeno. Depois, à medida que o tempo heraclitiano fluía, ia aumentando a dosagem até que conseguiu arrebanhar um acentuado número de usuários. A moçada, desde então, começou a, espontaneamente, adquirir o produto sem nenhum pejo, E o que é pior: o comportamento de cada um começou a se revelar diferentemente daqueles que insistem em não se deixar levar pelo “papo” baboso deste escriba.

            Infelizmente é reduzidíssimo o número de traficantes conhecedores da droga, especialmente os que preferem torrar a paciência da meninada ministrando outra droga chata por si mesma, que é empurrar de garganta abaixo uma coisa que a garotada já conhece. A “lombra” dessa outra “coisa” não provoca senão o “antibarato”, pois é o suprassumo da reprovável limitação de quem não tem nenhuma imaginação ou mesmo preparo suficiente para ministrar a droga de que teu pai faz a apologia.

            Os desencantos da primeira são visíveis: a moçada usa uma linguagem arrevesada, efeito da inexperiência ou miopia intelectual dos traficantes desconhecedores do produto que mercanciam, e ainda espalha a segura idéia de que tudo isso é a “mó paia”. E isso parece ser verdade, pois o alunado engole a coisa a muque. Os encantos da segunda logo se fazem perceber: os usuários se tornam mais vivazes, pois, pelo fato de o produto ser “massa”, logo, logo desenvolvem a convicção de que o mundo é mais encantador quando visto pela ótica dessa adorável droga.

            É tudo muito simples, minha jovem filha: troquemos o ensino da gramática pela gramática, essa “droga”, que é uma droga, pelo incentivo ao cultivo da literatura, sempre acompanhada pela motivação a que se referem psicólogos e educadores.

            Professores há que contam a lenda de que os alunos não gostam de ler. Isso não parece ser verdade. O que falta a eles, Maria Helena, e a experiência não desmente, é não ter o que dizer a seus alunos, tampouco envolver estes nos encantos e “baratos” de que é tão pródiga a literatura. Em outras palavras: nunca sentiram, quem sabe, o sabor melífluo e encantatório dessa coisa tão sobeja e tão perto de todos nós.

                        Teu pai.

 

                       

             

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