terça-feira, 15 de agosto de 2017

QUE BRUXO QUE NADA, MEU.
Hugo Martins
Prefiro alquimista a bruxo. Machado fazia misturas sintático-semânticas com as palavras e não bruxaria. Além do mais, é duro colocá-lo na mesma patota dum tal Paulo Coelho, que julgamos nada entender de química literária, a não ser na opinião de toleirões que confundem fusa com semifusa. Verdadeiro desacerto.
Machado compôs com vários diapasões. Romancista, contista, crítico literário, cronista, dramaturgo, epistológrafo e poeta. Escreveu quatro volumes de poesia: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. O poema que, dentro em pouco, transcrevo e analiso pertence ao último.
Por haver em algum momento se filiado à escola romântica, fez a chamada poesia tradicional de feitio parnasiano tanto na forma, daí a preferência pelo soneto, quanto no conteúdo. Seus poemas, mesmo os tingidos de alguns traços do Romantismo, são contidos, pensados, pesados e sopesados na balança da reflexão sempre e sempre refinada. Gosto de Machado, não importa em que gênero. Disponho de sua obra completa e, vez ou outra, refrequento-a. Hoje retirei da estante suas poesias e escolhi esta para fazer breve análise de cunho sintático e algumas pinceladas no aspecto histórico em que está encravado o texto. Literatura não se lê sem a História. É o “eu sou eu e minhas circunstâncias” de Ortega Y Gasset.
Spinoza, pensador holandês do século XVII, sobre ser dono de intelecto privilegiado, filósofo não fácil de ler, trabalhava como operário, polidor de lentes, e identifica Deus com a Natureza. Isso foi motivo para sofrer perseguições dos homens da Igreja e experimentar sérias e graves desavenças com aqueles que não entendiam sua filosofia. Nos dias atuais, é estudado com afinco em todos os cursos de Filosofia por aí existentes, em que sua Ética aparece como objeto de largos e aprofundados estudos. Sua obra foi escrita em latim. Não o conheço ainda, a não ser uma breve biografia SPINOZA EM NOVENTA MINUTOS, que está a me servir de aperitivo e nos dá, superficialmente, uma ideia do que é seu pensamento. Machado de Assis assim pintou seu retrato de filósofo e operário.
SPINOZA
Machado de Assis
Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante ideia
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas e executas
Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres e transmutas
O suado labor do prêmio eterno.
Sem comentários. Não há necessidade. Que o leitor disso se ocupe e reflita sobre a importância de um homem livre como sói acontecer com alguns filósofos. E Machado? É Machado. Ainda assim, vou transpor as frases para a ordem direta para tornar o soneto mais legível do ponto de vista sintático. Ei-lo, aspeado.
“Gosto de ver-te, grave e solitário, sob o fumo de candeia esquálida, (trazendo) nas mãos a ferramenta de operário e (trazendo) na cabeça a ideia coruscante. A tua mão, a labutar, granjeia o pão diário; (paralela e simultaneamente) teu pensamento delineia uma filosofia e ( com isso) achas o teu salário na independência; agitações e lutas soem cá fora, o bafo aspérrimo do inverno sibile; tu trabalhas, tu pensas a lei comum, sóbrio, tranquilo, desvelado e terno; e morres e transmutas o labor suado do prêmio eterno.”
Duas cabeças estonteantes...
Lindo.

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