terça-feira, 15 de agosto de 2017

"LIVRE PENSAR É SÓ PENSAR" (Millôr Fernandes)
Hugo Martins
Por puro acaso, vi-me diante de uma propaganda oficial, precisamente do Ministério da Educação, cujo teor otimista diz que, de agora em diante, os jovens estudantes, frequentadores do chamado Curso Médio, terão o direito de escolher a profissão que bem melhor lhes apetecer. Há na proposta o reconhecimento de que, antes, esse direito era malbaratado. Não era. Na verdade, a juventude brasileira sempre se ressentiu de uma orientação segura para escolher que profissão seguir. Por isso, sempre se orientou pelo critério errôneo de escolher a carreira que "desse dinheiro". Muitas vezes, daí restam arrependimentos, perda de tempo, vaivém, dores, e insatisfação, mesmo quando o critério do "dar dinheiro" pareceu uma escolha acertada.
Trago à baila a escolha pelo curso de Direito. A Constituição anterior à ora em vigência estava presa à atmosfera de perversa ditadura. Daí é fácil concluir que escolher aquele curso pelo critério do "dar dinheiro" não chegava a bom êxito. As ditaduras sufocam o direito, não o que elas impõem, mas o direito de "dar a cada um o que é seu" na mais funda acepção da palavra. De primeiro de abril de 1964 a cinco de outubro de 1988, a opção por cursar direito, no Brasil, era quase nenhuma. Sobravam vagas... Se os cursos de Ciências Jurídicas no Brasil apontam, hoje, para o "dar dinheiro", é porque as circunstâncias históricas mudaram.
Não existe curso superior mais difícil que o outro ou que demande mais tempo de estudo para o sujeito dele fazer uso como ofício. O curso superior "mais difícil" é aquele para o qual o indivíduo não demonstra nenhum pendor, nenhum chamamento interior, nenhuma vocação. Quando o sujeito escolhe o que seguir por tal orientação, é como aquele que encontrou "seu grande amor" para toda a vida... Tudo corre na placidez dos "céus de brigadeiro" e na quietude das águas dos "mares de almirante." Nesse contexto, exercer a profissão, cuja escolha foi acertada, é passar o dia brincando, namorando e dando "gracias a la vida".
O curso "difícil" também é aquele que dá a certeza ao profissional que o bom desempenho da profissão, aquele que se volta para levar serviço ao outro, ao semelhante, depende do empenho nos estudos, que não se deve reduzir ao mero "colar" grau" ou ir além com pós-graduações e quejandos. Não. Impõe-se o alargamento de mais horizontes, os quais se espraiam para áreas afins ou não à matéria por que o indivíduo demonstra inclinação. Quem se ocupa das Belas-Letras, por exemplo, além dos assuntos referentes aos problemas da linguagem em si (linguística, literatura, filologia), não pode negligenciar a frequência a assuntos tais como Filosofia, Sociologia, Psicologia, Ciência Política, mais outras "logias" e o "diabo a quatro". Quem demonstra pendor para exercer esta ou aquela carreira deve, antes de tudo, ler tudo que lhe caia nas mãos, do rótulo de pasta dental às boas revistas em quadrinho; da literatura policialesca de interesse passageiro àquela chamada "grande", cujas feitura e temática a eternizam; dos livrecos, que vendem otimismo à conta-gotas, ao alentado tratado da mais sublime filosofia. Enfim, o profissional de viseiras só enxerga o que se lhe antolha. Por isso, é necessário retirar as viseira e ensaiar olhares mais amplos e rasgados para todos os lados possíveis. Como isso se dá? Pelo uso diário, quer onde se encontre, de uma arma poderosa: A LEITURA. De tudo. Amor aos livros é fundamental.
O resto é propaganda bonitinha, é conversa de "oltoridadis", é discurso vão. É oba-oba. É falta de sinceridade de programas políticos.
Para o bom desempenho de não importa que profissão, o amor aos livros e, por extensão, aos estudos é algo essencial...
Encontrar o "caminho das pedras" . "Voilà la question".

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