INTERCÂMBIOS CULTURAIS E OUTROS CÂMBIOS.
Hugo Martins
As culturas poderosas impõem às mais frágeis "empréstimos" linguísticos que incomodam os estudiosos bairristas e caturras, que teimam em, sozinhos, repelir o ingresso de vocábulos estrangeiros no léxico da língua portuguesa. A História aí está. Dizem que, se os romanos venceram, pela espada, ao povo grego; em contrapartida, os habitantes da Hélade venceram aos romanos a eles impondo sua (deles, gregos) cultura. Ruy Barbosa dizia, acertadamente, que, por esse meio, também ocorre a imposição de palavras que, aos poucos, vão se instalando no vocabulário da cultura dominada. A nós brasileiros é fácil constatar o fenômeno do estrangeirismo. Futebol, palavra de origem inglesa, é melhor que ludopédio; show (origem inglesa) é melhor que espetáculo; abajur (origem francesa) é melhor que quebra-luz... Leiam-se obras do Romantismo no Brasil e logo se contatará a presença constante da língua francesa na cultura brasileira. Abra-se um cardápio num restaurante ou lanchonete. Abra-se um computador. Nada a declarar. O léxico da língua portuguesa é constituído, em sua origem, por setenta por cento de palavras de origem latina, e o restante por palavras de origem tupi-guarani e de origem africana, bem como por galicismos (palavras de origem francesa), anglicismos (palavras de origem inglesa) e por um menor número de palavras de origem italiana e espanhola. Quando a palavra estrangeira "pega", de nada adiantam as manifestações puristas. Os empréstimos linguistas sempre constituem fator de enriquecimento das línguas por força, também, dos intercâmbios da cultura.
A reflexão veio devido a um episódio a que assisti num shopping center (e agora?) envolvendo um senhor e uma vendedora. Aquele se dirigiu a esta, perguntando se existia na loja um DC com músicas de Franz Schubert. A mocinha disse que tinha um CD e não um DC. Ambas as siglas estão corretas. A coisa se explica pelo emprego do adjetivo. Em inglês, o adjetivo em função de adjunto adominal é sempre empregado antes do substantivo; em português, o adjetivo, naquela função, pode ser empregado antes ou depois do substantivo, ressalvadas as intencões denotativas e conotativas (homem velho, velho homem; mulher grande, grande mulher). Desse modo, cabe razão ao senhor ao usar DC no lugar de CD. Desejava ele comprar um Disco Compacto, na sua acertada escolha, melhor que Compacto Disco. Da mesma forma, não falece razão à jovem vendedora, pois afeiçoou-se ao uso corrente da sigla CD (compact disc) mesmo que desconhecesse a peculiaridade sintática da língua inglesa em relação ao casamento do adjetivo com o substantivo.
Em toda relação, cultural ou não, há sempre um ganho. Nesse tipo de empréstimo, não há juros, mas, tão só, correção cultural
Voilà.
A reflexão veio devido a um episódio a que assisti num shopping center (e agora?) envolvendo um senhor e uma vendedora. Aquele se dirigiu a esta, perguntando se existia na loja um DC com músicas de Franz Schubert. A mocinha disse que tinha um CD e não um DC. Ambas as siglas estão corretas. A coisa se explica pelo emprego do adjetivo. Em inglês, o adjetivo em função de adjunto adominal é sempre empregado antes do substantivo; em português, o adjetivo, naquela função, pode ser empregado antes ou depois do substantivo, ressalvadas as intencões denotativas e conotativas (homem velho, velho homem; mulher grande, grande mulher). Desse modo, cabe razão ao senhor ao usar DC no lugar de CD. Desejava ele comprar um Disco Compacto, na sua acertada escolha, melhor que Compacto Disco. Da mesma forma, não falece razão à jovem vendedora, pois afeiçoou-se ao uso corrente da sigla CD (compact disc) mesmo que desconhecesse a peculiaridade sintática da língua inglesa em relação ao casamento do adjetivo com o substantivo.
Em toda relação, cultural ou não, há sempre um ganho. Nesse tipo de empréstimo, não há juros, mas, tão só, correção cultural
Voilà.
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