terça-feira, 29 de novembro de 2016

MUNDO VASTO.

Hugo Martins

Escritores há de órgãos sensoriais e atenção tão apurados e atentos, que traduzem o que vai pelo mundo com precisão de régua e compasso como a não deixar dúvida em relação à realidade que retratam e o  resultante desse esforço de recriar o impalpável diluído na imprecisão do ser.
Armado com palavras, perseguindo e caçando formas de dizer,  numa luta sem trégua, para encontrar a melhor tintura expressiva, lança mão do imaginário e, por consequência, das potencialidades criativas entranhadas na língua, nem sempre visíveis a todo redator, mas tão só àquele que ousa encontrar e dizer o aparentemente imponderável. Daí a questão da palavra e da coisa ou, com mais poeticidade, da "palavramundo", belo achado de Drummond tantas vezes por nós lembrado aqui e acolá.
Embora a retórica costume classificar como metáfora apenas situações em que se compara algo com algo, com o nexo apenas sugerido, chamo aqui metaforização, e em obediência ao étimo grego, toda situação em que o significado é levado além do seu sentido original. Assim, quando, o poeta diz que, "o nosso peito desafia a própria morte" se está em jogo o valor liberdade, a palavra "peito", semanticamente, (metonímia é um mero nome da retórica) é transportada para além, significando: nosso amor, nosso denodo, nossa coragem arrostarão qualquer situação, por mais temerária, para fazer valer a liberdade como valor maior de um povo.
É a partir desse postulado, que faremos um apanhado, de algumas metáforas célebres e belas, saídas de penas originais em sua inventividade única.
O jogador Mané Garrincha era famoso pela habilidade de driblar o adversário em qualquer dimensão espacial do campo. Nélson Rodrigues dizia que, "para Garrincha, um guardanapo era um latifúndio". Coisa linda se levarmos em conta que a palavra "latifúndio, constituída de dois radicais latinos, significa, ao pé da letra, terreno ou campo (fundus), largo (latus). O escritor Ruy Castro chamava Nelson Rodrigues de "Anjo Pornográfico". Ao biografar o teatrólogo pernambucano, intitulou a obra com esse sintagma. Ora, "anjo" seja em grego ou em latim, significa mensageiro. Desse modo, Nelson seria um veiculador de pornografia? Falso, pois Ruy Castro aplicou o substantivo não no seu sentido originário, mas recorrendo à acepção que deu a igreja católica àquela palavrinha dissilábica, afastando aquela pecha ao criador de Beijo no Asfalto. Afinal, os anjos da igreja católica são a medida maior da candura e da pureza... Constituem, por si sós, uma metáfora de larga semanticidade.
Com efeito, Nelson não era um pornógrafo como é visto pelo burguês filisteu, era um conservador, que pintava com tintas vivas a postura hipócrita do homem em sua mais verdadeira essência. Só isso.
Há palavras que já trazem de berço personificação metafórica: madrasta e sogra são exemplos de nós bem conhecidos. Muitas vezes, o escritor retira proveito do próprio corpo da palavra. Lembro aqui Rubem Braga pondo às claras a insignificância de alguém dentro dos esquemas mentais de sociedades insensíveis e perversas. Que fez ele? Ao nomear o personagem chamou-o de "joão da silva". Com minúsculas doídas, com o apelo a um nome próprio retirado da palavra latina "silva" (selva, mata) lugar em que eram concebidos os filhos do cruzamento do senhor com índias ou escravas. Como não "queriam dar seu nome" àquela prole, recorriam ao sugestivo nome. Aliás, em Machado de Assis, no Memórias Póstuma de Brás Cubas, há um capítulo intitulado "A Filha da Moita", alusão à bastadia de uma tal Eugênia, em cujo nome encontra-se o prefixo grego "EU" que significa  bom, excelente. Atente-se para o fato de que o resto da estrutura do nome da personagem significa, em grego, origem. Irônica e cortante metáfora em apenas um sintagma nominal.
Jorge Amado tem um romance,  cujo título é Pastores da Noite. Dá para desconfiar a quem alude o escritor baiano? Dá para pensar: boêmios e outros seres afins...
"São muitas as emoções". São muitas as metáforas. Necessário tão só captar as essências... E o mundo se tornará mais belo. "Mundo, mundo, vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo, /Seria uma rima/ Não seria uma solução..."
Voilà!

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