domingo, 13 de novembro de 2016

Minha cara, o texto abaixo surgiu-me de uma reflexão sobre as festas natalinas que se aproximam. Não há
PEC, não há crise que suporte um Natal feliz. Entre outras coisas, a cama também é lugar de reflexão. Esta que se segue, saltou-me de súbito da cachola. Não com as cabriolas de volatim como aquelas que se penduraram no cérebro de Brás Cubas quando refletia sobre um emplastro ou emplasto para curar a eterna melancolia humana.
Importa que ela saiu e aí está. Nenhuma profundidade. Apenas reflexão, apenas, tão só.
Abraços de seu amigo fictício e sempre (vou mudar o adjetivo) servo,
Hugo Martins.

A Antiguidade clássica legou à cultura Ocidental uma gama de histórias, aventuras, tragédias e outros relatos mágicos, os quais constituem, ao longo do devir histórico, interpretações acertadas sobre o modo de estar o homem no mundo. Qualquer explicação sobre o cosmos assenta-se,necessariamente, nos relatos míticos. Hoje não há nada de novo sob o sol. A propósito, um amigo meu, helenista dos melhores, costuma dizer, em tom de chiste, que tudo o que se diz na nossa cultura hodierna não passa de anotações de pé de página da cultura clássica Não lhe falecem razões.
Deixando de lado a filosofia, as artes plásticas, as artes cênicas (tragédia, comédia) e a rica literatura greco-latina, visitemos a Mitologia e dela retiremos, aleatoriamente, qualquer relato e aqui teremos um problema humano comum a todos os tempos e a todos os confins e paragens da civilização de qualquer coloração cultural e antropológica. Lembremos o Suplício de Tântalo a ver se o relato guarda algum vínculo com os tempos de então.  Pois bem..
Tântalo, o rei da Lídia, rico e poderoso, guardava tal prestígio como os deuses, que, às vezes, sentava-se à mesa com eles. Certa feita, ofereceu aos deuses um banquete e serviu-lhes carna humana, a do próprio filho Pélops, a quem matara para experimentar os senhores do Olimpo. Estes, então, impingiram ao insensato rei um suplício: jogaram-no nos Infernos no  meio de um lago de águas cristalinas, rodeado de árvores carregadas de frutos apetitosos. Provocaram nele grande e infinita sede, somada a tormentosa fome. Toda vez que ensaiva qualquer tentativa para alcançar os frutos e água estes escapavam-lhe.
Eis aí o suplício tantálico... As catedrais de consumo, o apelo ao consumir irresponsável e desbragadamente, a criação de necessidades desnecessárias e inúteis formam um conjunto tétrico de situações a que o homem moderno se dobra, criando para si inomináveis sofrimentos.
Herbert Marcuse, filósofo da Escola de Frankfurt criou a locução "homem unidimensional" para caracterizar aquele que se acha feliz se os meios de comunicação de massa isso disserem. Se se acha infeliz vai a um shopping center qualquer e lá pode recobrar sua felicidade.
Cremos que os tântalos dos tempos modernos guardam a mesma identidade daquele dos Infernos gregos: espicaçados pela fome e pela sede de ter e ter e mais ter, afogam-se num sofrimento insuportável, surgido de sua insensatez em dar ouvido aos apelos sibilinos dos meios criados pela Indústria Cultural, filha cruel da Revolução Industrial, também parida de outra Revolução, a francesa, que apregoou um tripé construído pelo discurso cínico de vivaldinos, cuja virtude maior é conhecer a fragilidade humana.
Lembrou-me Jean de la Fontaine e a fábula do corvo. Alcandorado nos galhos de uma grande árvore, a ave agourenta trazia no bico um pedaço de queijo. Próximo, um lobo faminto cobriu-a de pródigos e mentirosos elogios. Claro que a ave de plumas negras vai abrir a bicarra e deixar cair o naco de queijo... Conclusão? Tire a sua.

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