PRECONCEITO
Hugo Martins
Cara amiga, faz exatos dois anos que publique o texto infra. Hoje, reli o conto Negrinha, do escritor de Taubaté, publicado em 1920. Pretendo, noutra ocasião, escrever algo sobre o conteúdo do referido conto, sublinhando a carga de ironia, somada à hipocrisia, que nele se entrevê. A primeira, aplica-se a uma senhora de excelsas virtudes, entre elas, a arte de judiar de crianças; a outra cola-se a um padre, homem extremamente vocacionado no preparar almas bondosas, como a daquela senhora, para encontrarem seu justo lugar no paraíso. Não quero me antecipar. Vai aí uma só pitada da narrativa saborosa e sarcástica, que nos leva ao riso amargo e à decepção com algumas espécies humanas, que se escondem sob o manto daquelas duas virtudes assinaladas no início deste texto. O texto tem outras virtudes...
Como dizem os cronistas sociais, depois eu conto.
Felicidades mil.
Hugo Martins, seu amigo e criado...
Monteiro Lobato era um brasileiro porreta. Nos anos de chumbo da era getulista, não regateava críticas à administração do homem de São Borjas. Tanto é que, por isso, foi preso, mas, ainda assim, nunca deixou de terçar armas contra a corrupção e o entreguismo da alma e da economia brasileiras ao estrangeiro. Penalizado com a humilhante situação a que foram entregues as populações sertanejas, criou a figura de Jeca Tatu, o que irritou o Congresso Nacional, que interpretou a coisa como se o escritor paulista estivesse fazendo pouco da figura do sertanejo. Claro que Lobato isso fez para chamar a atenção do povo brasileiro, à época ainda desprovido da eficiência dos meios de comunicação de massas. Tive o prazer de ler na juventude sua chamada obra infanto-juvenil, que, aos meus olhos, também é obra para adulto... Já a reli, de cabo a rabo, por duas vezes: uma irmã minha emprestou-me. Meu entusiasmo por Lobato nunca arrefeceu. Ganhei de presente de outra irmã a tal obra infanto-juvenil. Além desta, devorei com sofreguidão seus três livros de contos – Urupês, Cidades Mortas e Negrinhs. Além disso, li sua correspondência sentimental, as cartas que enviara à namorada e, depois, esposa, Dona Purezinha. Li também o volume em que constam suas Ideias de Jeca Tatu, coletânea de textos de cunho crítico, que escreveu na condição de redator de alguns jornais de São Paulo e onde se encontra o célebre artigo Paranoia ou Mistificação?, texto em que criticava a pintura “moderna” de Anita Malfatti e que serviu de mote para a eclosão da Semana de Arte Moderna de 1922.
Lobato me veio agora á cabeça porque ouvi, numa conversa informal, que algum “idiota da objetividade” está propondo uma releitura da obra saborosa do mais legítimo representante da literatura infantil no Brasil. E daí? O tal sujeito pariu a brilhante idéia de que Lobato seria preconceituoso em relação à personagem Tia Nastácia, que era negra. Nunca ouvi tolice maior... Primeiro porque, à época, ainda não existia, por óbvio, a Constituição Federal de 1988; segundo, porque Lobato morreu exatamente no ano em que a ONU lançou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948; terceiro, Tia Nastácia é vista pelo escritor como a mucama que se integrou à família brasileira num processo social muito comum, naqueles tempos; por fim, mesmo a linguagem desabrida da Emília, aliás criação de Tia Nastácia, quando arremetia com menos delicadeza, o leitor percebe haver ali manifestação de profundo carinho, afinal Tia Nastácia participava de tudo que ocorria na casa de Dona Benta, inclusive das aventuras dos meninos e da boneca de pano. Quem quiser reler as fábulas gregas, em Monteiro Lobato, vai ouvi-las da narração da velha e querida mucama nas suas Histórias de Tia Nastácia. Esta era amada, respeitada, querida de todos e sua palavra era ouvida, seja como partícipe das preocupações pedagógicas de Dona Benta, seja quando conquistava a todos com o sabor de seus bolinhos. O próprio Minotauro do labirinto de Creta perdeu-se de amores pelos bolinhos dela, que só foi libertada do jugo daquele misto de touro e homem graças às ardilezas da Emília e dos netos de Vovó Benta.
Esse sujeito, que vem alimentando essas idéias de jerico, ou está querendo aparecer ou não tem o que fazer... Ninguém revê a obra de arte ( a não ser a igreja católica quando colocou veuzinhos nas figura de Micheângelo na Capela Sistina). O Direito, enquanto ciência, não se ocupa de fatos literários ou fictícios, mas dos reais e concretos. Tia Nastácia faz parte da galeria de personagens imorredouros na cultura brasileira tais as figuras das músicas carnavalescas “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia”? e “O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor”... Será que o cidadão vai também à procura dos compositores dessas músicas, que também já morreram, para cobrar-lhes respeito aos negros e impingir-lhes algum castigo?
Será que esse sujeito faz parte daquele rol de imbecis que levaram Gustav Flaubert às barras dos tribunais por terem enxergado, em Madame de Bovary, episódios atentatórios “à moral e aos bons costumes” da sociedade da época? Flaubert e sua obra aí estão com ou apesar da ausência daqueles toleirões. Será que o sujeitinho quixotesco, com todo o respeito ao personagem de Cervantes, julga estar resgatando (opa” um verbo do PT) a dignidade do povo a quem ele quer proteger da sanha preconceituosa de Monteiro Lobato? Ora, durma-se com esse barulho, desculpem-me o lugar-comum, mas é preciso muito saco (outro lugar-comum) para agüentar essa intervenção patrioteira contra a obra de um dos grandes brasileiros que nossa História conhece...
Essas são as belas ações... As que não têm nenhum significado... A não ser torrar a paciência de quem está quieto no seu canto. Fuuuu!
Se existe vida post mortem, Lobato deve estar muito preocupado...
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