CARTA à AMIGA – XXVIII
Χαιρει, φιλει!
Aí vão algumas reflexões indisciplinadas, frutos de meus
devaneios e de meus desvarios ante a complexidade do mundo. A leitura que venho
empreendendo sobre a mitologia, sobretudo a grega, pois a latina não passa de
mero pasticho, provoca em mim uma enxurrada de reflexões que aqui coloco e a
você entrego como oferenda, rogando-lhe não alimentar jamais a ideia de que
estou experimentando pisar na linha tênue que separa a lucidez da loucura.
Esta, sob algumas perspectivas, tem seus encantos. Foi até mesmo decantada pela
pena brilhante do renascentista holandês Erasmo de Roterdã. Não sou filósofo,
bem sei. Mas a prerrogativa de pensar pertence a qualquer ser pensante, que não
tem nenhum dever de ser pensador de conformidade com as diretrizes de quem quer
que seja. Se minhas reflexões possam parecer descomedidas, estou a me dar o
direito de, também, mergulhar numa ubpis (hybris) intelectual, encadear toda sorte
de frases soltas, bêbadas sem coerência a fim de colocar às claras como vejo o
mundo. Depois, eu retomo a δικε (diké)
Vez e outra, tecerei comentários acerca de algum mito grego
ou de algum personagem cujo comportamento está voltado para a explicação do
mundo naqueles tempos de Homero, Hesíodo, Aquiles, Ulisses, Argos, Calypso,
Enéias, Dido, Príamo e toda a gente que, embora não “seja nada e seja tudo”,
como diz o vate português.
Seu criado, sempre.
Namastê.
Hugo Martins
AS PALAVRAS
Hugo Martins
Les Mots (As
Palavras) é título de livro autobiográfico do escritor francês Jean-Paul Sartre
em cujo bojo pode-se pescar, além de outros aspectos, a relação biunívoca
existente entre palavra/mundo ou mundo/palavra. Reflexão aproximada da
empreendida pelo também existencialista francês Michel Foucault na obra As
Palavras e as Coisas. O tema não tem
nada de novo. Sempre foi pasto de reflexão de filósofos e linguistas. Por ser
questão umbilicalmente ligada à condição humana, mesmo por ingênua intuição,
pode-se chegar à conclusão que leva até mesmo o senso comum a pensar que nada
existe sem a linguagem, entidade que funda o mundo e suas implicações de toda
ordem. A reflexão aqui abarca todos e qualquer signo, que, ao fim e ao cabo,
traduzem-se, e só por ele, pelo signo idiomático. Soltar a vista em torno do
mundo e tentar traduzir algum laivo de significado de alguma coisa sem recorrer
ao signo linguístico é flagrar-se impotente por despender esforço inútil e vão.
Assim, fica firmado que nada existe sem a palavra, sem o λóγος, dos gregos, sem o verbum, dos
latinos. Não é à toa que a Bíblia Sagrada recebe o apodo de A Palavra, com
letra maiúscula, e o Evangelho, segundo São João, dizer que o Verbo se fez
carne, quando se refere ao discurso do Cristo.
A
Antiguidade Clássica costumava explicar o mundo recorrendo a signos, cuja
significação é, na linguagem da matemática, um intervalo aberto. Em outras palavras,
aqueles se escancaram, permitindo, sem absurdidades, multifárias
interpretações. Veja, por exemplo, o nascimento da deusa Afrodite (grega) ou
Vênus (latina), aliás celebrado em famoso quadro do pintor italiano Sandro
Botticelli. Aqui a deslumbrante deusa surge das ondas do mar. Ora, toda e
qualquer matéria líquida, pelo menos numa interpretação esteada na simbologia
freudiana, sugere sêmen (semen, seminis – semente em latim, assim como σπερμα, também semente, em grego. Para
confirmar Freud, nesse passo, leia-se sobre o caos e o cosmo. A primeira é
palavra sabida de todos, qualquer falta de ordem: a segunda significa, ao pé da
letra, organização. Pausa para reflexão: as mulheres, sobretudo elas, quando
veem o tempo se aproximar a passos de lobo, tatuando-lhes rosto e corpo com
vivas e indeléveis rugas, a que recorrem? À cosmética, pois, pois... com o fito
de reorganizar os estragos que o tempo impõem a todos, sem exceção. Deixando as
filosofices de lado, lembremos que o nascimento do mundo (o cosmo) surge de uma
cópula eterna entre Gaia (a terra) e Urano (o céu ou firmamento). Diz o
mitólogo que Urano não saía de cima da pobre e sufocada Gaia e nem mesmo
permitia que fosse a ela dar à luz os filhos, que viviam presos no ventre da
mãe. Esta consegue dialogar com o Cronos, dá-lhe uma pequena foice e ordena que
decepe a genitália de Urano. Feito a coisa, Urano dá um grande grito, afasta-se
da esposa e se alça aos céus. Quando ocorre a chuva, a terra é fertilizada. E
Vênus, que tem a ver com isso? Exato. O imenso falo, ainda gotejante, cai no
mar. Dessa junção líquida, é gerada a deusa da Beleza e do Amor. Bonitim, né
mermo?
Outro
exemplo. O sentido maior da tragédia de Édipo pode ser vista pela psicanálise
como a maioria das pessoas já conhece. Mas Édipo, na verdade, é vítima da υβpις (descomedimento), que, por sua vez,
contrapõe-se à δικη (justiça).
Quando o indivíduo, mesmo involuntariamente, excede-se em dados comportamentos,
pode revelar-se injusto e, por isso, deve suportar a força da justiça. Não
devendo esta ser tomada como aplicação de lei e de determinada pena, mas
padecerá de algum castigo a fim de que volte à sintonia do equilíbrio
universal. Vejam-se os dramas de Midas, Prometeu, Sísifo, Mársias e uma miríade
de histórias que revelam a sabedoria daqueles majestosos povos antigos, jogando
com o destino de todos...
A linguagem,
a linguagem. Dia de Finados. Existirá coisa mais sem sentido? Ao pé da letra,
quem se findou não mais existe. A não ser na memória, nas lembranças, nas
recordações. E tem mais: estas são mais ou menos nítidas na cabeça de qualquer
um dependendo do tempo do passamento e se o indivíduo mantiver a memória.
Perdida esta, nada mais faz sentido, não há significações para o dia dos
finados.
A indústria
cultural é useira e vezeira em criar significações pelo método da repetição,
que, por sua vez, confia na existência da alienação. Que diabos vem a ser
Halloween na cultura brasileira? Não existe. A não ser pela imposição da
subserviência cultural, processo imposto pelo cinema e outros meios bem
próprios da tal globalização de tudo. Quer dizer, nosso folclore é esquecido,
nossa identidade cultural é desvirtuada, e tudo assume ar de franca
naturalidade. É a linguagem, são os mistérios do mundo.
Na mitologia
hebraica, Adão e Eva foram descomedidos, foram além do permitido na ordem
natural das coisas. É a hybris e não a diké. Todo homem, na sua fragilidade e
na sua impermanência, pode, em algum momento de sua vida, resvalar na hybris. O
mais engaçado de tudo é que o descomedimento e a justeza se supõem, um não
existe sem o outro. A monotonia apolínea exige a contraposição da festividade
dionisíaca. Que dizer, a lei dos contrários, que não passa da dialética de que
tanto se fala, a tese, a antítese, a síntese, que se torna tese, que exige uma
antítese, que se transforma em tese e... vamos embora, é o movimento, é o
tempo, são as leis da existência. E tudo isso é concebido e expresso pela
linguagem. Nada existe. Só a linguagem. Se esta existe, tudo passa a existir.
Quem melhor
sintetizou tal ideia foi o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade quando
promoveu o casamento, eterno e inseparável de uma tese e uma antítese, a
palavra e o mundo, que ele fundiu numa cópula eterna, semelhante à de Gaia com
Urano. Não em tudo, pois a separação dos dois primeiros é impraticável, é
impossível, seria o fim dos tempos. Da fusão deles, chega-se à síntese intransformável,
chega-se às significações do mundo. Olha que coisa bunitinha: “palavramundo”.
Dessa foda, nascem incontáveis significações: deuses, titãs, monstros, a
Felicidade, a Beleza a Bondade, o Ódio, o Amor, e tantas outras entidades,
cujas facetas constituem um conjunto vazio de largo espectro à disposição do
preenchimento das visões de cada um de nós. Eis o Caos; eis o Cosmos: eis a
Palavra.
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